Sonhos e pesadelos de um novo amanhecer (ou de um “novo normal”?)

         



Por Eliecim Fidelis
“Não vejo a hora de voltar/A fazer tudo o que sempre fiz/Sair de casa e respirar/Seguir em frente e abraçar/Eu sei que... tudo volta ao normal/Mas dessa vez, ... fazer um novo normal pra sempre”. Achei oportuno começar o presente texto com a letra de uma música recente, do capixaba Douglas Lopes.

Com o advento da pandemia do Covid-19, muito se tem falado em “novo normal”. Não faltam lives, palestras, vídeos e textos em que o tema é abordado. Mas o que vem a ser esse novo normal? Há os que se referem a alterações ocorridas no presente, outros falam de uma forma de vida futura, após o estabelecimento e a disseminação de uma vacina capaz de deter a proliferação da doença.

No primeiro caso, estaríamos diante de mudanças de hábitos ocorridos em função das medidas de prevenção ao contágio do vírus: a quarentena, o distanciamento, o uso de máscaras e álcool gel, o rigor em lavar as mãos etc.. Se, antes, o lar era visto como um lugar ao qual recorríamos para descansar, depois de um dia de trabalho em que ficávamos esgotados fazendo girar as engrenagens do sistema; agora, cansados de tanto descansar em casa, buscamos uma roda da engrenagem para fazer girar até cansar. E esse descanso caseiro, que antes requeria um local confortável, afastado da mulher e dos filhos, mostrou que ele só tem sentido se for compartilhado.

Já no que se refere ao futuro, após a pandemia, as discussões incluem desde aspectos que podem levar a entendimentos de cunho que beiram à paranoia, mudanças nas configurações das relações econômicas, comerciais, tecnológicas e interpessoais, até possíveis alterações da forma de pensar das pessoas, expansão de consciência, compreensão entre os homens, e arrependimentos pelo que fizeram ou deixaram de fazer, tornando-se criaturas mais amorosas, compreensíveis e altruístas.

Podemos, e até devemos sonhar. Nos sonhos as leis da Física clássica não funcionam como em nossa realidade bidimensional. A soma de dois mais dois pode não ser quatro. Nos sonhos, temos poderes extraordinários. Quantos de nós já não vimos, em sonho, uma pessoa conhecida que logo depois tem o corpo, a roupa, a voz ou o olhar de outra? Nos sonhos podemos atravessar continentes, oceanos, paredes e muros; podemos virar outras pessoas, outros seres, animais e plantas; isso por conta de fenômenos linguísticos denominados por Freud de condensação e deslocamento. Mas, ao acordarmos, de novo estamos perdidos na mesma selva, tal qual perambulou Dante; ameaçados por panteras, leões e lobos, e sem um Virgílio a guiar.

De novo, ao amanhecer, estaremos diante de uma realidade incerta. Uma incerteza que se compõe de uma parte estrutural, oriunda do mal-estar inerente à cultura, e uma incerteza, que se espera de natureza contingente, decorrente da pandemia. Desta, a única certeza que temos é que não há certeza sobre a medicação que cura ou previne a doença. Conforme diz a Anvisa, a agência nacional de vigilância sanitária, autarquia vinculada ao Ministério da Saúde, apesar das pesquisas em andamento, “não há ainda estudos conclusivos”. E aqui nasce outra desconcertante incerteza: aquela provocada pelas orientações passadas pelos poderes constituídos e lideranças políticas, contrárias às abordagens técnicas e científicas. Que o presidente tenha ou não usado hidroxicloroquina, com ou sem cajuína, isso pouco importa. A questão que intriga é observar que aquele que tem o dever de unir a população, especialmente num momento de fragilidade como este, insiste em fixar-se na tese de que a doença é só uma gripezinha, e com isso divide a população entre crenças e dúvidas, além de politizar um tema de grande sensibilidade à vida.

Vou ficando por aqui, em companhia do desejo despretensioso trazido na letra da música de início, e com uma única certeza: a de que a pandemia expõe as mazelas do sistema, e também a fragilidade da condição humana, entrelaçando reflexos positivos e negativos do desamparo e dos laços sociais e familiares, e antecipando sofrimentos psíquicos adormecidos. E, no caso do Brasil de hoje, também realçando a bipolaridade freudiana entre pulsão de vida e pulsão de morte.
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Escritor e psicanalista