ZEUZINHO E A SABEDORIA

         



Por Cláudio Niederauer
Pelos recantos dos tempos de era uma vez, tem uma vilazinha tipicamente interiorana, calma, pacata e batizada de Bosque Olimpo, com seu clima ameno. É habitada por gente simples e acolhedora que vivem de seus trabalhos no campo. Lá pela periferia, a beira de um riacho de águas límpidas, em seu leito ecoa uma correnteza sonoramente sonolenta, nessa margem fronteiriça da tranquilidade e liberdade, vive um simpático velhinho, generoso e astuto observador do mundo ao seu redor, com sabedoria doada pelo tempo: Zeuzinho, nesse retiro voluntario faz dele um pacato ermitão suburbano.

Bem, o seu Zeuzinho vive ali nesse recanto, numa casa antiga, rodeado por um avarandado e suas colunas sob arcos que a torna um atrativo acolhedor. Ele, pelo seu bom coração, acolhe qualquer ser irracional que lhe chegue em seu sítio e por eles tem um grande carinho.

Convivem com ele uma bela gata angorá, Héstia, que por sua natureza felina tem uma atitude independente e artimanhas ambiciosas. Uma vez e outra desaparece (parte para suas aventuras noturnas) e sempre volta ao seu cantinho para esquentar e lamber os pés do seu dono. E ainda a cadela Hera, uma cusca fiel, obediente e dependente, companheiro constante do seu amo.

Assim seu Zeuzinho, preguiçosamente acomodado em sua rede, bulia a sua ampulheta do tempo e administrava serenamente estas diferenças irracionais dos seus animaizinhos de estimação.

Um belo dia, após aquela garoazinha aprazível, uma arara multicolorida por sete faustosas nuances, sobrevoou a casa e acomodou-se num arco do alpendre. Ele, vendo aquela aleluia colorida, batizou-a prontamente de Iris. A colorida Iris fez do arco o seu recando. Só saia para exibir seu esplendor ao brilhar o sol após o chuvisco do entardecer.

Iris, astuta, cultivava e explorava a sua habilidade: palrar, dote que a natureza lhe doou. Na sua maneira agitada, fazia pulsar o silêncio pelas lacunas daquele paraíso terreno. Seu Zeuzinho simpatizou-se pela tagarelice dos ditos –repetitivos, mas alguns bem interessantes – que ecoava lá do arco. Héstia e Hera sentiam-se deslumbradas por aquela tagarelação que as faziam esquecer, de vez em quando, das suas diferenças. Assim elas passaram a conviver sob as palrações da vaidosa Iris.

Seu Zeuzinho a considerava uma mensageira alfabetizada, irracionalmente disfuncional, que tinha o dom de se comunicar com os seres humanos e animais.

Num recanto, próximo ao alpendre tem uma figueira centenária e num dos galhos se abrigava uma coruja, ave de hábitos noturnos, mas sempre antenada as coisas da vida. A coruja nos lembra mistério, inteligência, sabedoria e conhecimento. Ela tem a capacidade de enxergar através da escuridão, conseguindo ver o que os outros não veem.

Zeuzinho não teve dúvida, chamou-a de Athenas.

Athenas, no seu observador silêncio, passava o tempo a escutar os bordões da Iris e se espairecia com as bizarras sandices da provocativa Hestia e a sossegada Hera.

A gata Hestia e a cadela Hera são animais de natureza e instintos diferentes. A gata, pelo espírito autônoma de viver e irreverente, provoca e tira sarro do jeito sossegado e submisso da cadela, em algumas destas ocasiões passava dos limites, Hera, mesmo do seu jeitinho sossegada, perdia a paciência, rosnava e avançava para cima da Hestia. Aí, quando o seu Zeuzinho, despertava do seu estado meditabundo, intervinha e amainava as querelas entre ambas.

Uma vez o Zeuzinho agastado das papagueadas de Iris e as rusgas entre Hestia e Hera solicitou a Athenas que contasse uma das suas histórias; primeiro para serenar o ambiente e alimentar mais o seu saber e em segundo com a finalidade para que os demais sacassem algum fruto adequado e mais moderação as suas atitudes cotidianas.

Athenas pressentiu a intenção de Zeuzinho, prontificou-se a contar a história de dois irmãos. Zeuzinho reuniu seus três amigos próximo ao pé da figueira e escutassem a sabedoria mochoista. Athenas lá do alto da figueira iniciou sua narrativa.

Amigos, num desses voos matinais conheci os irmãos Kefizeu e Kefeztu, fiquei sabendo que eram filhos gêmeos de Vênus Rendada, uma bela jovem conhecida na minha juventude. Eles de personalidades antagônicas, com suas individualidades fragmentadas pelas suas adversidades. Sanguíneos, gerados no mesmo ventre, tentavam se equilibrar nos sentimentos da emoção e nas ponderações da razão. Era o bom senso bulindo nos perenes atritos entre as virtudes e desvirtudes que a vida lhes proporcionava cotidianamente.

Kefeztu um cara orgulhoso, de uma soberba descomedida e um falastrão irreverente e satírico. Vivia a vida ao seu bel prazer na libidinagem de suas atitudes.

Kefizeu, caráter humilde e generoso. Um ser sempre racional nas suas ações. Vivia com temperança e diligência as virtudes de sua personalidade.

Num desses voos matinais, vi os irmãos sentados à beira de um precipício, pousei entre eles e perguntei-lhes o porquê daqueles rostos amargurados. Segregaram algumas de suas atitudes, sentimentos e suas cizânias. Como na maioria dos seres humanos, há momentos de paz, de sucessos e nesse caminho há os empecilhos, os tropeços e algumas quedas que machucam a dignidade, independente das suas personalidades ou origens. Nestes momentos de aflições, o estado emocional negativo alimenta cada vez mais o sentimento da mágoa, exaustos e a baixa estima combalida, nada mais os estimulavam para superar as suas adversidades. A beira do precipício à espera da eutanásia da coerência.

Aconselhei-os a sair dos seus casulos e deixarem de ver o seu mundo pelo buraco da fechadura e terem a determinação de abrirem a porta do seu eu e olhar o mundo chamejante de suas expectativas e equilibrarem à sua maneira de ser, poupando a essência da solidariedade que ainda habitavam neles. E lembrei-lhes que eram frutos do mesmo ventre.

O Kefizeu achou acertado a idéia, mas o Kefeztu lançou um olhar de desprezo.

Notando expressão de leviandade do Kefeztu. Athenas resolveu continuar a narrativa.

Então comecei a contar a filosofia dos rios, que não lutam contra as adversidades, vencendo os obstáculos à sua frente. Eles brotam de límpidas nascentes, unidas dão força ao rio em formação, partem para o duelo da sobrevivência, construindo o seu caminho pelos altiplanos das suas origens, percorrendo vales, contornando as pedras, enfrentando quedas, mas lá embaixo se unem, se organizam para dar continuidade ao seu destino, vencendo todos e qualquer obstáculos na sua trajetória para emancipar a sua ansiosa correnteza de expectativas, a fim de encontrar o seu objetivo: a foz da prosperidade.

Nessa trajetória, o tempo não importa, se foram dias, meses, anos, uma vida, o que importa é o que balizou as conquistas nessa trajetória e sentir a glória da sua vitória.

E para vocês dois, se houver mais entendimento a convivência será mais pacífica, pois a união e a compreensão reforçam aos nossos estímulos, para os generosos a prática do bem, para os egoístas o exercício do mal.

Kefizeu e Kefeztu compreenderam a mensagem da Athenas e se ajeitaram, a sua maneira, a respeitar a individualidade de cada um.

Amigos, Athenas se dirigindo aos seus ouvintes, a luta é muita intensa no nosso individual, é sempre bom nos aconselharmos com o bom senso para mantermos em equilíbrio o nosso eu para convivermos com serenidade na coletividade e até pela auto aceitação dos nossos erros e sermos humildes em admiti-los, inteligente para aprender com eles, e maduro para corrigi-los. A paz deve surgir da compreensão e a esperança ser mantida pela tolerância dos outros.

Seu Zeuzinho gostou da história e satisfeitos pela atenção dos seus bichanos, liberou-as para as suas habituais manhas.

Parece que neste primeiro momento a história causou bons frutos entre seus abrigados. Assim pensou o seu Zeuzinho.

No outro dia estranhou o silêncio e a tranquilidade não costumeiros naquele ambiente, vendo uma Iris mais moderada nas suas tagareladas e um convívio mais civilizados entre Hestia e Hera, seu Zezinho deduziu que a sombra da sabedoria não acontecerá se não houver uma luz que a projete. Eis a imagem da astuta Athenas, que com a luz do seu saber projetou a sobra da bonança naquele paraíso.

E assim, seu Zeuzinho passou a fazer suas meditações na serenidade do seu espaço e viveram felizes e em paz até que a luz se abrande.
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Poeta e fotógrafo