Entre o novo e o velho normal: a parábola do bode na sala

         



Por Eliecim Fidelis
Para mencionar apenas o caso da cidade de Salvador, pois no país e no estado como um todo a multiplicidade de situações não permite similar ilação, podemos dizer que, no que se refere à pandemia do Covid-19, os soteropolitanos começam a respirar, a lembrar dos momentos de prazer vividos no “velho normal” e, mesmo diante de um céu ainda enfurecido, a lubrificar os braços para futuros abraços, ainda sem beijos.

Durante esta semana, o cheiro refrescante do interior dos shoppings centers, embora tímido, já pôde penetrar entre as máscaras. Com a anunciada queda da taxa de ocupação de leitos, tudo indica que na próxima semana poderá voltar a alegria de um jantar acompanhado; da busca das academias para recuperar desconfianças narcísicas guardadas, bem como a corrida às casas de beleza, em busca de autoimagens até então escondidas por trás de vídeos pausados, em reuniões on line.

Parece, enfim, que o velho normal deixa-se emergir ao fim do túnel, enquanto o novo começa a envelhecer. Trata-se da ânsia pelo retorno a uma vida comum. Se, antes, os planos de muitos incluíam um jantar acompanhado no Sublimotion (Ibiza, Espanha), no Le Meurice (Paris), no D.O.M (São Paulo) ou no Restaurante da Preta (Ilha dos Frades), no Origem, no Egeu, no Camarada Camarão ou no Coco Bambu Bahia, hoje ficamos muito satisfeitos se podermos, mesmo mascarados, usufruir de qualquer casa de refeições, pizzaria, quitanda, barraca de praia ou de ponta de rua.

E isso nos faz lembrar da antiga parábola do bode na sala, que até dizem ser de origem chinesa, mas, por via das dúvidas, prefiro enfeitar a seguinte versão: Um lavrador vivia com mulher e filhos em uma pequena e modesta casa; a esposa, prenha, vivia reclamando das condições e do desconforto; os filhos exigiam melhorias e diziam ser impossível acomodar o novo irmão. O marido/pai, que pouco ligava antes, começou a ficar impaciente, pois bastava descansar a enxada, lá vinham as queixas de todo dia. Mesmo compreendendo os reclamos, sabia que não tinha como resolver a situação. Foi procurar o padre da Paróquia local, a quem narrou os fatos.

- Deus te abençoe, filho. Você tem como conseguir um bode?

O homem ficou surpreso e confuso, mas respondeu que sim.

- Coloque o bode na sala e volte semana que vem.

Sem precisar descrever a situação, ao retornar no prazo combinado o vigário perguntou:

- As coisas melhoraram em casa?

- Muito pior, padre. Acho que o Senhor errou na receita. Ninguém suporta tanto fedor, desarrumação, quebra-quebra e sujeira. Antes, éramos bem mais feliz. Pelo amor de Deus, do jeito que está todo mundo vai enlouquecer! O que faço?

- Filho, volte para casa, retire o bode da sala e veja o que acontece.

Que alívio! Os meninos agradeceram e devolveram o heroísmo ao pai; prometeram ajudar e não mais reclamar de nada. A esposa, enquanto alisava os cabelos encaracolados do marido, convidava-o para sentir o feto se mexendo na barriga, e prometia arranjar um lugarzinho para bem acomodar o futuro bebê.
A metáfora do bode na sala pode ser aplicada à situação atual de algumas plagas deste país. Não é novidade a precária forma de vida da maioria do povo brasileiro; sempre enfrentaram as dificuldades decorrentes do desemprego, pobreza e distribuição de renda desigual, para ficar só nos aspectos econômicos. Os mesmos que sempre viveram espremidos em cubículos e nunca puderam sentar-se à mesa de um bom restaurante, frequentar uma academia ou um salão de beleza continuam sem poder. Mas, a todos, a retirada do bode da sala poderá trazer alegria e felicidade. Pelo menos, por enquanto.
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Escritor e psicanalista