O Observatório Poético de Roberval Pereyr

         



Por GILFRANCISCO
Os primeiros poemas que li do poeta Roberval Pereyr foram publicada nas décadas de setenta e oitenta nas revistas Hera sob a direção de Pereyr e Antônio Brasileiro, Atos, dirigida por Fernando Hora e Olga Venturelli e Serial, dirigida por Antônio Brasileiro, todas editadas em Feira de Santana (BA). Dos colaboradores das referidas revistas, eu já havia escrito sobre vários deles, Antônio Brasileiro, Carlos Cunha, Carlos Anísio Melhor Damário Dacruz Fred Souza Castro, João Carlos Teixeira Gomes, Jozailto Lima, Maria da Conceição Paranhos, Myriam Fraga, Rui Espinheira Filho e há muito apreciava a poesia de Roberval Pereyr, mas faltava um volume maior de poemas para uma avaliação considerável.

                Em 1998, após participarmos de uma exposição do poeta amazonense Thiago de Mello, na Ordem Terceira de São Francisco, em Salvador, belíssimo projeto organizado pelo poeta Geraldo Maia, após o encerramento do evento, nos reunimos num bar na Rua João de Deus – Pelourinho, para conversarmos e tomarmos algumas cervejas: Rui Espinheira, Antônio Brasileiro e companheira alguns jornalistas e Pereyr, que me presenteou com dois livros seus, O Súbito Cenário (Edições Cordel,1996) e Concerto de Ilhas (Versal – Casa de Livros, Capinas –SP, 1997). Esses foram os primeiros livros que li do poeta baiano do município de Antônio Cardoso, Roberval Pereyr.

                Recentemente, em visita à cidade de Aracaju para participar do lançamento do livro Viagem na Argila do amigo Jozailto Lima, nos reencontramos e a convite do homenageado almoçamos no Restaurante do Camilo. Aproveitamos o dia para falarmos de tudo, principalmente poesia. Se a poesia de Roberval Pereyr já me conquistara, o homem não me fascinou menos. Ele, que tem formação intelectual e experiência adquirida na cidade de Feira de Santana que sempre foi reduto da intelectualidade baiana e dela saíram muitas personalidades de vários segmentos da cultura baiana ou vieram de cidades circunvizinhas, procuraram a Princesa do Sertão no intuito de obter uma formação educacional: Antônio Laranjeiras, Olney São Paulo, Godofredo Filho, Eurico Alves, Edivaldo Machado Boaventura, Vicente Barreto, Carlos Pita, Chico Pinto, Juracy Dórea, Jozailto Lima, Raimundo Oliveira, Ildásio Tavares, João Falcão e outros.

 

                Mirantes, que Roberval Pereyr nos apresenta, Prêmio 2012 - Braskem, Academia de Letras da Bahia e Editora 7 Letras, capa de Juraci Dórea, abas de Alexei Bueno, 104 páginas, 2012 é o percurso poético do poeta e a trajetória acadêmica que se revela hoje magistralmente, será o inovador de amanhã, e de depois de amanhã. Uma poesia que abre as portas de uma viagem cheia de componentes rítmicos e lirismo carregado com outras dimensões da própria vida. Percebe-se  desde o inicio da leitura que o livro é revelador, aborda grandes temas de nossa época, do caráter destrutivo das civilizações, tornando nossa vidas um labirinto sangrento ou matadouro coletivo na busca de salvação. Tudo está vivo em Mirantes, tudo fala ou produz signos.

               

O seu Mirante, ponto elevado de onde se descortina um largo horizonte, o poeta observa sua iniciação, que abre perspectivas de criatividade pura, descobrindo em si próprio uma nova experiência, revelação da proximidade de uma nova aurora. Para ele a poesia é uma forma de conhecimento, uma paixão do conhecimento, e toda poesia maior é um ato de rebeldia, pois viola os códigos estabelecidos, rearranja a tradição literária, ofende os bem-pensantes, assumindo o risco e aguentando a barra. Semelhante à queda dum enorme meteorito vindo de outra esfera alterar a face da terra, como Bendengó, a pedra que caiu do céu no sertão baiano em 1784 e conservado no Museu Nacional do Rio de Janeiro desde 1888. Quem hoje na Bahia ousaria seguir os caminhos indicados pelo Grupo Hera? Basta consultar a edição Hera (1972-2005) fac-similar, publicada em 2010 pela Universidade Estadual de Feira de Santana.

                              

Roberval Pereyr, como homem de ação literária, fez muito ou quase tudo – e tudo o que fez veio bem feito. Sua contribuição como editor da revista Hera e das edições de livros através da coleção Tulle, dedicadas a autores emergentes e consagrados da literatura baiana, só foi possível essa realização porque esteve sempre fora da relação perigosa entre poesia e política. Roberval queria mais, queria outras coisas e foi procurar na sala de aula, ensinando aos jovens acadêmicos a “poética aristotélica”, por isso continua influenciando e ajudando meio mundo de gente. Por definição, o poeta Roberval Pereyr é um coletor de realidades – físicas psi-físicas, antropossociológicos, político-sociais, econômicas, educacionais, mas também é um poeta de sonhos, apreende a palavra desintegrada de seu contexto normal, e encaixa até o ponto da ruptura no contexto verbal, imprimindo-lhe então. Sua competência poética permite-lhe detectar desse observatório poético, o ambiente intelectual que se oferece aos olhos do promissor poeta, quando nele começa a manifestar-se a vocação literária.

 

Seus livros vão se escrevendo lentamente e, em algum momento estão prontos, sem pressa de publicá-los, cresce lentamente, sem insistência, sua obra e seu público leitor universitário. A seleção dessas preciosidades foi pinçada como um ourives em meio a outras raridades. São poemas de um poeta que a vida ensinou a sorrir e a transmitir-nos uma seleção de amor. A tudo isso se acrescente o encanto da poesia, que tem de ser encarada como um acontecimento literário de primeira grandeza, que nos abre uma larga porta para os amantes da boa poesia, uma porta pela qual é preciso sempre passar com humildade e franqueza. Mirantes é um livro de poesia que enriquecerá a cultura contemporânea.

 

São muitas as perspectiva que se podem escolher para descrever o desenvolvimento de sua poesia, o jogo poético que se apresenta com o ritmo compensado e orgânico da natureza como a respiração, nesse exercício espiritual, cosmopolita consegue permanecer em terra firme, como apaixonada testemunha para descobrir a existência dos demais. Parece ser a tentativa de entender suas particularidades, dilemas e esperanças de um poeta que não quer ver a vida passar. Ao final da leitura a gente percebe a grata surpresa, satisfação, a sensação que tive e terá o leitor de Mirantes, ao entrar em contato com os versos simples que estão em suas páginas, mas construídos de forma a dar uma estrutura consistente ao poema. É um campo aberto para sentir sua amplidão nas situações mais diversas. Como disse o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que o objetivo de sua obra é “levar a poesia à porta do homem moderno”. Assim é a arte do poeta Roberval Pereyr, forte e boa poesia pessoal.

 

 

 

 

CONFISSÃO

 

Que o meu erro sou eu

no meu deixar de ser eu

mesmo.

 

E meu enredo me anula:

é solidão calcinada

na caminhada obscura

pelo Outro e seus ermos.

 

O meu enredo é o meu erro

em que me desfaço e afundo.

 

É onde o meu ser inteiro

depõe o mundo.

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Jornalista e escritor