Pelo aumento prudencial da meta de inflação para 4,5 %

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Real Moeda brasileira

Por Ricardo Berzoini e Adroaldo Quintela


O Conselho Monetário Nacional tem reunião agendada para o dia 23 de julho próximo para definir a meta de inflação.Trata-se de decisão estratégia para o futuro do país e procuramos explicar de forma transparente nas linhas a seguir.

Como sabemos, a taxa básica de juros condiciona uma série de variáveis da economia. Como exemplos mais destacados, podemos citar o financiamento da política habitacional e de saneamento básico de um país carente nas duas áreas citadas. E também os financiamentos para a política de reindustrialização do Brasil e os arranjos financeiros para a renovação e ampliação da infraestrutura nacional, tão defasada em relação ao mundo e às nossas necessidades. Errar na avaliação das condições conjunturais que fundamentam a decisão sobre a meta pode ser fatal para este governo e para o futuro do país.

O Banco Central, como sabemos, adota modelos que calibram a taxa SELIC a partir da meta inflacionária. Se em cenário mais tranquilo o Banco Central não conseguiu fazer a inflação convergir para o limite superior da meta de 3%, praticando a maior taxa de juros do planeta, o que será do comportamento dos preços, do mercado e dos agentes econômicos ante o tarifaço político de 50%, anunciado por Trump a ser implementado a partir do primeiro dia de agosto?

É fato que após o anúncio de 9 de julho, a queda da Bolsa de Valores e o aumento do dólar foram menores do que era de se esperar. Esse movimento se explica em parte, porque o mercado financeiro acredita que Trump está blefando. Assim, pode voltar atrás como ocorreu em relação à outros países que tinham superávit comercial com os Estados Unidos.

Entretanto, nos setores exportadores mais afetados pelo tarifaço já se antevê possível aumento de custos dos produtos industriais, derivados da aceleração da produção e pagamento de horas extras visando se antecipar ao 1° de agosto, mês do desgosto.

As tarifas dos EUA sobre os produtos brasileiros, europeus, canadenses, mexicanos e outros abrem nosso período de incertezas que não nos permitem metas demasiadamente ousadas e vão requerer uma flexibilidade maior do CMN para não se aferrar a uma meta só para não desagradar o “mercado”.
Convém destacar que a medida de Trump não contém racionalidade econômica. Diferentemente de outros países onde voltou atrás após negociação, o caso brasileiro é inteiramente distinto.

Pode ser que Trump recue, mas pode ser que resolva endurecer politicamente, até como forma de atacar os avanços projetados pelos acordos do Brasil no âmbito dos BRICS. Então, a decisão do Conselho Monetário Nacional – CMN, constituído pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central, ocorrerá neste cenário de incerteza provocado por uma decisão política do ciclotímico presidente dos Estados Unidos.

Portanto, é prudencialmente decisivo aumentar a meta de inflação para 4,5%, a fim de dar maior margem ao governo, aos setores impactados e à economia brasileira para enfrentar os efeitos colaterais do anúncio de Trump. E retirar do COPOM os argumentos questionáveis para uma política monetária tão nefasta quanto às incertezas da conjuntura mundial neste momento. Coragem, ministros.}

Parafraseando Guimarães Rosa, o que a conjuntura quer de vocês é coragem.
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Ricardo Berzoini, ex-ministro, ex-deputado federal e ex-presidente do PT.
Adroaldo Quintela, Economista, fundador da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia, presidente do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (IDENE).