A literatura negra, de diferentes autores e gerações, será o grande destaque da Balada Literária da Bahia 2025, que acontece até 30 de novembro, em Salvador. Presente há dez anos no calendário cultural da capital, o evento realiza uma edição especial, homenageando o centenário de Mãe Stella de Oxóssi (1925-2018), através de seus principais livros. E estabelece um link entre o pensamento da yalorixá baiana com escritores que fazem e pensam a literatura negra contemporânea.
A abertura será na quinta-feira, às 19h, com uma edição especial do Sarau Bem Black no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro, saudando a religiosa que amava a literatura. Com as bênçãos de Mãe Ana de Xangô, nova comandante da casa, o sarau reúne poetas residentes e convidados e contará com um pocket show do Duo Korapoema – formado pelo cantor e compositor Juraci Tavares e pelo músico Rick Carvalho, que constroi e
toca a kora.
De sexta a domingo, a programação da Balada segue no complexo da Biblioteca Central dos Barris, com bate-papos, lançamentos de livros, exibição de filmes, rodas de poesia e performances artísticas. Um dos destaques desta edição é o lançamento baiano do filme Cadernos Negros, do cineasta Joel Zito Araújo.
As manhãs de sexta e sábado serão voltadas para o painel Odé Kaiodê, que irá debater os principais livros escritos por Mãe Stella. Primeira ialorixá imortal da Academia de Letras da Bahia, ela publicou vários livros, indo da reflexão sobre diferentes aspectos do Candomblé ao universo simbólico das histórias de orixá, sempre trazendo ensinamentos sobre a religião.
O painel reunirá seis estudiosos, que vão se debruçar sobre os livros Meu Tempo é Agora, E Daí Aconteceu o Encanto, Ososi: O Caçador de Alegrias, Owe – Provérbios, Epé Laiyê e Opinião – Artigos d´A Tarde. No primeiro dia, participam o sociólogo Fábio Lima, a historiadora Tomazia Azevedo e a pedagoga Iraildes Nascimento; no segundo, a jornalista Cleidiana Ramos, a professora Lindinalva Barbosa e a escritora Anajara Tavares.
“Eis que chegamos aos 10 anos de Balada Literária da Bahia, com honra e alegria em homenagear Mãe Stella de Oxóssi e integrar a programação de seu centenário, em parceria com o Ilê Axé Opô Afonjá. Ela e o terreiro simbolizam bem o empenho em nos mantermos de pé, respeitando a diversidade, porém preservando identidade própria. A Balada continua um palco para a palavra sem amarras e o diálogo das artes, com espaços efetivos para as expressões da negritude”, afirma o escritor Nelson Maca, que assina a curadoria da Balada.
O evento baiano é um desdobramento da Balada Literária de São Paulo, criada há duas décadas pelo escritor pernambucano Marcelino Freire e que esse ano conta com edições no Crato, Recife e no Piauí. Marcelino estará presente em duas mesas em Salvador e comandará uma oficina literária no dia 2 de dezembro, após a Balada.
Encontros e bate-papos – Com presença de cerca de 30 autores baianos e de vários estados, a Balada amplia o debate, com mesas que vão tratar do próprio conceito de literatura negra, do acesso e combate ao racismo nas letras, ou das vozes e corpos divergentes na literatura nacional. Entre os autores de fora, estarão presentes Esmeralda Ribeiro (SP), Cristiane Sobral (DF), Juliana Correia (RJ), Jéssica Balbino (MG) e Paulo Scott (RS). Entre os baianos, estarão Samuel Vida, Hamilton Borges, Jairo Pinto, Anajara Tavares, Vércio, Fábio Mandingo e Jocélia Fonseca. Nos três dias, no início da tarde, haverá rodas de poesia, e após cada mesa, sessões de autógrafos.
A literatura também está no eixo central do filme Cadernos Negros, que será exibido em primeira mão em Salvador. O documentário, que venceu o prêmio do público na 49a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, conta a história da publicação homônima, criada nos anos 70 para dar voz à poesia e prosa de escritores e escritoras pretas. A sessão acontece na Sala Walter da Silveira, às 10h, no último dia da Balada, com as presenças do diretor e roteirista Joel Zito e da escritora Esmeralda Ribeiro, uma das responsáveis pela publicação, que no ano passado chegou à edição 45. A sessão contará com bate-papo mediado pela cineasta Camila de Moraes.
“Cadernos Negros é parte de um desejo e esforço meu em contribuir para uma cartografia audiovisual da cultura negra brasileira, dando visibilidade a coisas fundamentais ignoradas pelo mainstreaming. Nele, buscamos mostrar a pujança da literatura negra brasileira, e da cena paulistana nos últimos quarenta anos”, afirma Joel Zito sobre o filme, que traz depoimentos de importantes nomes da literatura negra, como Esmeralda Ribeiro, Cuti Silva, Miriam Alves, Conceição Evaristo e Oswaldo de Camargo.
A Balada Literária da Bahia 2025 tem apoio da Secretaria de Cultura do Estado, através da Fundação Pedro Calmon, e parcerias com o Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia e Borboletas Filmes.
OUTROS DESTAQUES DA BALADA 2025
Escarro Início – O ator Leno Sacramento apresenta o monólogo Escarro Início, terceira parte da trilogia Encruzilhadas, na qual ele fala das mortes, reais e simbólicas, do povo negro. Com texto do próprio Leno e direção dele e de Roquildes Júnior, o espetáculo será apresentado no Quadrilátero da Biblioteca dos Barris. Após a performance, ele conversa com a escritora, atriz e dramaturga brasiliense Cristiane Sobral, com mediação da jornalista Ana Cristina Pereira. Dia 28, às 19h30.
Direito à leitura – Autor de vários romances e livros de poesia, incluindo o premiado Marrom e Amarelo, o gaúcho Paulo Scott traz à Balada outra faceta de seu trabalho. Paulo, que também é advogado, participa da mesa Direito, Antirracismo e Literatura, com o advogado e professor baiano Samuel Vida e mediação de Nelson Maca. Paulo vai falar do livro Direito Constitucional Antirracista (Thomson Reuters), que lança no evento. Dia 28, às 17h.
Balada da Memória Afetiva – Sessão de cinema com quatro filmes: Fàmóra: A Bahia Abraça Vera Lopes e Construindo Poesias – Juraci Tavares, de Ricardo Soares. Vera Lopes e Juraci Tavares foram homenageados em edições anteriores da Balada baiana; Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico e SP : Solo Pernambucano, de Wilson Freire, um recorte sobre as vidas do poeta Miró da Muribeca e do escritor Marcelino Freire. A sessão será seguida de bate-papo com Ricardo Soares e Wilson Freire, mediado pela cineasta Camila de Moraes. Dia 29, às 19h30.
Lançamentos – A Balada será o palco de lançamento de produções recentes, na prosa e na poesia: a jornalista mineira Jéssica Balbino traz o elogiado Porca Gorda (Barraco Editorial), uma autoficção que expõe a violência da gordofobia contra mulheres; a carioca Juliana Correia lança Malungos e Outras Histórias (Letramento), seu primeiro livro para o leitor adulto; e a escritora e defensora Julia Baranski, paulista radicada na Bahia, apresenta Prostitutas vos Precederão no Reino dos Céus (Nós), vencedor do Prêmio Balada Literária.
Show de encerramento – A Balada termina ao som de três cantores, compositores e instrumentistas, que representam a diversidade da música brasileira: Del Irerê, que traz a força da canção e dos ritmos envolventes do Recôncavo, o reggaeman baiano Prince Áddamo, e o piauiense Emerson Boy, com suas misturas sonoras, que vão do repente ao samba rock.
PROGRAMAÇÃO
SÁBADO 29/11
10h – Painel Odé Kaiodê – Parte 2 – Cleidiana Ramos, Lindinalva Barbosa e Anajara Tavares
15h – Gira, Deixa a Poesia Girar, com Anajara Tavares e convidados
15h30 – Mesa Verso e Prosa Divergentes em Vozes e Corpos Diversos – Jocélia Fonseca, Jéssica Balbino e Vércio
17h – Mesa Apresento meu Amigo – Paulo Scott, Lima Trindade e Marcelino Freire. Participação especial de Julia Baranski, autora do livro As Prostitutas vos Precederão no Reino dos Céus, vencedor do prêmio Balada Literária e publicado pela Editora Nós
19h – Sessão de cinema Balada da Memória Afetiva, com os curtas-metragens A Bahia Abraça Vera Lopes e Construindo Poesias, de Ricardo Soares; Preto Pobre Poeta e Periférico e SP Solo Pernambucano, de Wilson Freire, seguindo de bate-papo com Ricardo Soares e Wilson Freire. Mediação de Camila de Moraes. Sala Walter da Silveira
DOMINGO 30/11
10h – Sessão de cinema: Lançamento do documentário Cadernos Negros, com as presenças do diretor, Joel Zilto Araújo, e da escritora Esmeralda Ribeiro, com bate-papo mediado pela cineasta Camila de Moraes. Na Sala Walter da Silveira
15h – Gira, Deixa a Poesia Girar, com Nelson Maca e convidados
15h30 – Mesa: Prosa e Poesia Preta – Fábio Mandingo, Esmeralda Ribeiro e Juliana Correia
17h – Mesa: Assim Pintou Pernambuco – Adrianne Myrtes, Wilson Freire e Marcelino Freire
19h – Show de encerramento com Del Irerê, Prince Áddamo e Emerson Boy (PI)
FICHA
Evento: Balada Literária da Bahia 2025
Quando: de 27 a 30 de novembro
Onde: Terreiro do Ilê Axé opô Afonjá, no São Gonçalo do Retiro, e Biblioteca Pública dos Barris e Sala Walter da Silveira
Entrada gratuita

