Dos livros que li

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Por Victor Pinto

Em 2025, em meio a agendas apertadas, prazos que se acumulam e a sensação permanente de que o tempo tá voando, a leitura seguiu sendo, para mim, um hábito quase disciplinado. Ler, quando tudo cobra velocidade, é um modo silencioso de desacelerar o mundo ainda que por alguns minutos ao dia.

Não falo aqui de metas ambiciosas, listas infinitas ou da ansiedade por “dar conta” de pilhas de livros. Falo de leituras possíveis, encaixadas entre compromissos profissionais, deslocamentos, noites cansadas e manhãs apressadas. Ler, em 2025, foi sobretudo permanecer atento ao que ainda nos humaniza em meio as inteligências artificiais.

Alguns livros chegaram como acolhimento. Vou te Receitar Outro Gato, de Ishida Syou, da Intriseca, reafirma essa delicadeza cotidiana. São histórias simples, quase domésticas, em que gatos funcionam como mediadores de escuta e cuidado. Não oferecem soluções grandiosas, mas lembram que pequenas pausas também curam.

Outras leituras pediram mais atenção e silêncio. Uma Ilha, de Karen Jennings, da editora Record, é um desses livros que não se apressam em explicar. Com poucos personagens e uma atmosfera de vigilância constante, a narrativa constrói uma alegoria sobre poder, isolamento e autoritarismo. É um livro que dialoga com o mundo contemporâneo.

Há também os livros que ensinam a olhar para dentro de estruturas sociais aparentemente bem organizadas. A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, da Companhia das Letras, desmonta a ideia de que inteligência, sensibilidade e pensamento crítico pertencem apenas às elites visíveis. Com humor sutil e referências filosóficas, o romance mostra como a vida pode ser mais profunda justamente onde menos se espera.

A literatura brasileira apareceu com força nesse percurso. Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli, da Cia das Letras, mistura memória, identidade e realismo mágico para tratar de pertencimento e esquecimento. Já Motel Mustang, de Marcus Vinícius Rodrigues, da P55, parte de uma tragédia real para explorar personagens comuns atravessados pelo acaso e pela perda, lembrando que o jornalismo informa, mas a literatura aprofunda.

Também houve espaço para a memória e o riso. Em Riso Choro, da Edufba, Mário Kertész alterna humor e emoção para narrar bastidores do jornalismo e da vida pública. E, no teatro, reli O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, que reafirma como o humor popular segue sendo uma ferramenta poderosa de crítica social e observação do comportamento humano.

Ao final de 2025, a constatação é simples: ler não me afastou das obrigações, ajudou a enfrentá-las com mais clareza. A leitura ainda é um dos poucos lugares onde o tempo não gira rápido. É ali, entre páginas, que seguimos aprendendo a pensar, sentir e, sobretudo, permanecer humanos.