Por Roberval Santos
Quem me levou até Itamil foi Val… Numa tarde de domingo do ano de 1986, estava batendo uma gelada no Bar Panzuá, no Largo da Boa Viagem, Península Itapagipana, cidade de Salvador, tranquilo e calmo, num dia de muito sol, quando chegou o querido amigo Val (Florisvaldo), dizendo que eu tinha que fazer parte de um grupo, uma banda, gente muito querida e de sua profunda estima. Conheci Val através de um querido amigo de infância, o músico Jackson Dantas.
Aceitei o convite para conhecer o grupo e partimos para o bairro do Uruguai, localizado na mesma querida “Cidade Baixa”, apesar de resistir no começo, pois eles precisavam de um guitarrista, e eu só gostava de “bater a viola”¹. Não foi um primeiro encontro produtivo, estávamos regados e encharcados de cerveja e “coisa e tal”. Retornei na segunda para o ensaio na casa dos “Araújo”, e lá estavam Nusa, Marlon, Marcos, Fernando e Ito. Era a ‘Banda Voou’! Tocavam o melhor da nossa MPB. Fiquei assistindo ao ensaio, no meu canto, quando Itamil, em certo momento, me pediu para tocar numa velha guitarra verde, que guardo com carinho até hoje. Expliquei que poderia até me arriscar; contudo, minha praia era outra: dedilhar ao violão e cantar um pouco. Foi Arnaldo Almeida que inventou essa história de eu ser cantor… Itamil, que meu pai apelidou de “Artrami”, talvez para que eu não tivesse feito uma “viagem de balde”, solicitou que eu dedilhasse e cantasse.
Passou-se algum tempo, eu já integrado à banda e ao círculo de amizades da mesma, quando, num certo dia, “Artrami” veio com um comentário que me influenciou, em parte ou totalmente, no que sou: “Roberval, eu preciso lhe falar!”. Pelo tom, pressenti ser algo sério. E era! “Algumas pessoas adoram como você toca e canta, por ser diferente, ser autêntico. Você pega a canção e faz do seu jeito”. Que maravilha! Era somente isso? Sorri e enchi o peito. Não, não era somente aquilo; tinha algo mais delicado… E aí veio a revelação, que, para mim, caiu como uma bomba: “Porém”, completou, “tem uma parte da turma e de outras pessoas que frequentam as apresentações da banda que detestam a sua performance, por ser diferente demais. Eles gostam de você, mas preferem que a canção seja tocada e cantada como se fosse quase uma cópia do formato original”.
A primeira reação foi de espanto e decepção. Eu tinha apenas 21 ou 22 anos; não lembro a idade e a data específica, mas aquela observação, uma crítica legítima, mudou tudo em mim com o tempo, para melhor, eu acho, e eu nunca o agradeci por ele ter sido tão sincero naquele momento. Sinceridade é predicado dos amigos reais, de quem tem coragem. Aquele fato, aquela constatação, mexeu muito comigo, com a minha cabeça. Não é fácil se sentir, digamos, rejeitado, naquilo que começamos a pensar como algo que nos pertence e que decidimos fazer profissionalmente. Mas foi decisivo para mim.
Pensei em parar… E ficava pensando: “Quem é que não gosta da minha música?”. Foi uma cacetada na minha mente e no meu espírito²!
Não conversamos mais sobre o assunto, e eu não procurei ninguém para conversar ou desabafar. Não tinha noção do que era terapia ou algo parecido. Já tinha ouvido falar em Freud, mas nunca me interessei pelo assunto, e parecia algo muito distante do meu mundo. Continuei, mergulhei na música como nunca tinha feito antes e voltei a ler com mais frequência. E Nietzsche retornou… “Para além do bem e do mal” foi o primeiro livro desse alucinado filósofo. Meu interesse, ou descoberta, pela matéria veio com a chegada do amigo, grande compositor e professor de filosofia Ray Gouveia, quando eu ainda era adolescente, na transição para a fase adulta.
Comecei a estudar muito: teoria, prática musical e história da música, com as limitações impostas pelas dificuldades da época. Era muito difícil ter informações, acesso a livros, dissertações e teses. A grana era pouca e eu não pertencia ao mundo acadêmico. Então, tudo que encontrava, pedia emprestado; não perdia nenhum programa de música na TV ou especiais nas rádios, principalmente, ou unicamente, na “Rádio Educadora”. O conteúdo da programação desses veículos era muito melhor. Juntava dinheiro para comprar revistas ou publicações especializadas, ou pedia emprestado quando via na casa de algum amigo. Eu fico impressionado como hoje, com tanta informação em mãos, tudo na internet, pelo celular, livros, teses e dissertações para baixar, muita informação gratuita, tem uma galera da música que insiste no “não conhecimento”.
Naquele momento, raciocinar era preciso. E foi por tentar compreender que tudo está “para além do bem e do mal” que comecei a ter mais tranquilidade para seguir na minha estrada com firmeza. A interação com os amigos e amigas, sempre presentes, e novas companhias e amizades, foi fundamental. Principalmente pessoas mais experientes e com leitura mais ampla e complexa. Considero uma característica a ser aproveitada por quem faz “música”: ampliar e aproveitar as amizades que chegam com novas experiências e com lastro de conhecimento. Com o tempo, isso me fez entrar num certo eixo, e aquelas palavras, informação do amigo “Artrami”, foram fundamentais para uma não frustração muito maior, mais tarde, quando já estivesse com um longo tempo de profissão, e talvez muito mais prejudicial na minha existência enquanto músico e pessoa.
Com o passar do tempo, acho que quase aos trinta anos, ou exatamente aos trinta, formulei um pensamento que depois descobri que podia ser parecido com o “quadrado das oposições”, um sistema da “lógica aristotélica”. É muita pretensão, não é mesmo?
“Tem pessoas que gostam de mim e não gostam da minha música; tem pessoas que não gostam de mim, mas curtem a minha música; tem pessoas que gostam de mim e da minha música; e existem pessoas que não gostam nem de mim nem da minha música (dessas eu quero distância)”. Ou será outra lógica, uma não aristotélica? Não sei…
Isso me fez sedimentar um pensamento forte, absoluto quanto ao meu lugar no mundo. Com o tempo, já não me importava com quem não gostava nem de mim nem da minha música. Tirei esse peso! Se fazem questão da minha presença, estarei sempre presente, quando puder. Não me importam os outros, as outras… Cada um tem o seu lugar no mundo e é responsável pelas suas escolhas. Eu sou fruto do que plantei. Se eu estou na situação em que me encontro atualmente, é uma consequência das minhas escolhas. Tenho consciência da minha capacidade e sei das minhas deficiências, que são reais e me pertencem, porém, elas não me desqualificam enquanto músico. Eu não escreverei letras como Chico Buarque ou Cartola, nem melodias como Tom Jobim ou Pixinguinha, nem terei a velocidade e precisão do extraordinário Raphael Rabello. Mas, no que eu me proponho a fazer, eu procuro fazer com o máximo de excelência que me é permitida. E isso é o que importa!
Quando ouvi aquelas palavras do amigo, que eu considero irmão, “Artrami”, desencadeou-se uma procura dentro de mim para que eu tentasse ser mais feliz ao lado das pessoas que amo, fazendo o que gosto e falando o que penso, agradando ou não a quem quer que seja. E isso é muito bom! Ter amigos e amigas fiéis foi e sempre será uma construção, que tem como influência meu pai e minha mãe, que sempre tiveram bons amigos e amigas e que sempre fizeram questão da presença deles em suas vidas.
Obrigado, querido “Artrami”! Não tenho como me referir a você, meu amigo, de outra maneira, em memória do velho “Dervaziê”, que partiu há trinta anos!
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¹ Era como meu pai se referia ao ato de tocar violão.
² Espírito, no sentido filosófico.
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Músico


