Por Paula Dione
O ano de 2026 já começa com uma polêmica envolvendo a divulgação, por parte de uma ‘produtora e atriz de conteúdo adulto’ – como ela se autodenomina -, de que teria gravado cenas eróticas com seu filho, que já ele vinha atuando como cinegrafista de suas filmagens anteriores. Para incrementar a situação, a mesma personagem postou fotos em que seu traje remete à figura de uma santa, com a cabeça coberta por um manto e legendas fazendo menção à Maria Madalena.
A palavra “incesto” significa, literalmente, “não casto”, impuro. Segundo a antropologia, é a proibição da prática sexual entre parentes que marca o início da civilização, no sentido de uma passagem do ser humano de um estado “natural” (instintivo) para a cultura e a vida em sociedade. Dessa forma, a noção de incesto é capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo: marcar o “horror” com que a prática passa a ser vista a partir do momento em que a cultura a interdita, e, paradoxalmente, sinaliza que, se há necessidade de proibir, é porque alguém queria (ou quer) fazer.
Genericamente falando, espera-se dos pais (principalmente da mãe) demonstrações de amor assexual e devocional por seus filhos, desvelando-se o cuidado e o amparo adequados ao desenvolvimento de uma criança, e, consequentemente, de uma sociedade. Da mesma forma, o entendimento geral é de um olhar não passional dos filhos em direção aos pais, entidades sacrossantas por quem se deveria cultivar gratidão pelo dom da vida. A subjetividade de cada um, entretanto, é bem mais complexa do que “aquilo que deveria ser”, de modo que as possibilidades quanto ao que vai alimentar o erotismo e as fantasias sexuais de uma população são extremamente vastas. Um artigo recente, que lança um olhar psicanalítico sobre o consumo de pornografia, aponta justamente a recorrência do tema incesto entre os títulos dos vídeos mais acessados, com destaque para as menções à mãe, madrasta e irmã.
Para além de discussões de cunho moral, no campo da clínica psiquiátrica, importa entender o que há de sintomático: se há sofrimento, para quem é o sofrimento, se há consciência do que se pratica, quais as consequências de cada ação ou omissão. Todo atendimento médico (assim como todo ato social) envolve questões de ética, que precisam necessariamente considerar o contexto de cada indivíduo, sendo importante contemplar a complexidade da subjetividade humana e propiciar espaços de diálogo aprofundado, ajudando o indivíduo a entender de onde vem e, principalmente, para onde pode ir o seu desejo.
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Psiquiatra do Programa de Sexualidade da Clínica Holiste / @holistepsiquiatria
Foto: Joilson Pereira – Divulgação
