Por Victor Pinto
O rompimento do senador Angelo Coronel com o PSD e com a base do governador Jerônimo Rodrigues não foi um ato isolado, nem fruto de um rompante. Foi um processo. Lento, calculado, cheio de recados indiretos, pressões silenciosas e movimentos de bastidor. Quem acompanha a política da Bahia há mais tempo sabe reconhecer esse roteiro. Ele já foi usado outras vezes. E, no fim de semana, chegou ao seu capítulo decisivo.
É importante dizer: essa crise não nasceu no Palácio de Ondina. Ela explodiu no colo do governo, mas foi gestada dentro do próprio PSD. O partido viveu, nos últimos meses, uma disputa interna clara por protagonismo. De um lado, Otto Alencar, fundador, líder histórico e presidente incontestável da sigla na Bahia. Do outro, Angelo Coronel, que cresceu politicamente dentro do partido, chegou ao Senado, construiu musculatura própria e passou a testar os limites dessa relação.
Coronel nunca escondeu o incômodo com o fato de não ser tratado como protagonista absoluto. Queria mais espaço, mais garantia, mais centralidade na chapa de 2026. O problema é que, no PSD baiano, essa equação sempre passou por Otto. E quando Coronel começou a sinalizar que poderia mudar o alinhamento do partido, acendeu o alerta vermelho ou azul (pra combinar com a cor do partido).
A ida de Coronel a Gilberto Kassab, em São Paulo, foi o ponto de inflexão. Mesmo que oficialmente não tenha havido uma tentativa explícita de “tomar” o partido, o gesto foi interpretado como isso. A leitura interna foi simples: Coronel buscava reorientar o PSD, afastando-o do eixo Jerônimo–Lula e aproximando-o de ACM Neto. Era tudo o que Otto precisava para agir.
Mas Otto não agiu no grito. O movimento foi outro: pressão contínua, isolamento progressivo e sangramento político. Um convite para sair que não é verbalizado, mas construído. O objetivo era claro: fazer Coronel perder a paciência e pedir para sair. Foi exatamente o que aconteceu.
Houve, é verdade, tentativas de mediação. E elas partiram muito mais de Diego Coronel do que de outros membros da família. Diego tentou construir pontes, reduzir danos, manter o PSD unido. Mas o ambiente já estava contaminado demais. A disputa não era mais apenas eleitoral; era de comando, de controle e de futuro, como já escrevi em outro artigo.
Do lado do governo, o desgaste era evidente. Manter Coronel significava sustentar uma instabilidade permanente. A reunião deste fim de semana após o anúncio do rompimento entre Rui Costa, Otto Alencar, Jerônimo Rodrigues e Jaques Wagner (que eu apelidei de “reunião dos Thundercats”, porque buscava ter “visão além do alcance”) pariu um entendimento de ganhar tempo, deixar a poeira baixar e permitir que futuramente movimentos fossem feitos já sem o peso da novela Coronel. Ali se estabeleceu um prazo de decantação.
Ao sair, Coronel resolve um problema do governo, mas cria outro para a oposição. Para ACM Neto, o cenário é ambíguo. De um lado, seria uma vitória completa neutralizar o PSD e atrair Coronel para sua base. Isso não aconteceu. Agora surge um desafio enorme: acomodar Angelo Coronel, sua família e suas expectativas numa chapa ao Senado já congestionada.
Agora, a prioridade da família Coronel será preservar o que sempre exibiu como trunfo: a estrutura de prefeitos. Só que esse capital político também será testado. A debandada pode já ter começado, ainda que silenciosa. Prefeitos seguem poder, orçamento e perspectiva de vitória. E essas três variáveis estão, hoje, do lado do governo.
Como testemunha ocular da história, já vi esse jogo acontecer. Em 2022, escrevi que o PP havia sido convidado a se retirar do governo. À época, muitos torceram o nariz. Meses depois, o roteiro se confirmou. Coronel não saiu do PSD por acaso. Ele foi conduzido até a porta. E, no fim, fez exatamente o que se esperava: pediu para sair. A novela que antes passava no canal do governo agora será sintonizada no canal da oposição. A conferir.
——————————————————–
Jornalista / twitter: @victordojornal
