Por Victor Pinto
O MDB ligou o sinal amarelo. E não foi por medo. Foi por leitura fria do tabuleiro depois que a novela Angelo Coronel finalmente teve um desfecho no PSD. Quando um problema some, outro aparece. E, na política, quase nunca há vácuo: alguém ocupa o espaço, alguém perde terreno e se não tiver defesa, aí que o terreno sai do controle.
O MDB e suas lideranças fazem questão de registrarem em letras maiúsculas o próprio comportamento nos últimos meses. Enquanto a crise envolvendo Coronel se arrastava, o partido ficou quieto. Não fez bravata, não esticou a corda, não colocou faca no pescoço do governo. Apostou na lealdade ao grupo e na ideia de que, em algum momento, o bom senso prevaleceria. E mais: tem repetido, internamente e fora dos holofotes, que a derrota de Geraldo Júnior em Salvador não pode ser debitada na conta do MDB. Foi uma decisão política tomada lá atrás, com a digital clara de Jaques Wagner, e o partido apenas entrou no jogo.
Durante o auge da confusão no PSD, o MDB tentou ajudar. Ofereceu a vice como saída honrosa, uma forma de acomodar a crise sem criar amarras futuras com a família Coronel, mesmo sendo isso um provocador de cizânia com Otto Alencar. Era uma solução pragmática, quase cirúrgica para a base. A proposta foi recusada. Coronel preferiu outro caminho. O problema saiu de cena. Ponto final. Como gosta de dizer Geddel, o MDB não pode ser acusado de ter sido obstáculo. Pelo contrário, tentou apagar incêndio.
Agora, a conversa nos corredores é sobre a continuidade ou não da vice com a legenda. Geddel já vocaliza o desconforto e fala abertamente em hostilidade se o MDB perder o espaço que hoje ocupa na chapa. Lucio Vieira Lima escala e fala de estupro eleitoral. Existem perguntas simples e incômodas: qual seria a justificativa política real para entregar a vice ao PSD? A musculatura do MDB é suficiente para fazer se segurar nesse jogo?
Alguns setores do governo e aliados mais próximos ao PSD defendem a tese de que seria um gesto de reconhecimento a Otto. Um aceno pela fidelidade do PSD diante das pressões nacionais, especialmente depois de toda a turbulência envolvendo Kassab, Coronel e os movimentos externos. Na lógica desses interlocutores, reforçar o PSD seria uma forma de blindar a base, carimbar de vez o partido na chapa de Jerônimo.
Mas essa conta não fecha facilmente para o MDB. Primeiro porque o partido não criou problema algum. Segundo porque abrir mão da vice sem um argumento sólido soa como punição a quem se manteve fiel. E, terceiro, porque não há, até aqui, um nome do PSD que, sozinho, resolva mais do que crie novos ruídos. A não ser que Jaques Wagner e cia estejam pensando em aplicar um novo contra golpe no núcleo netista e a gente ainda não percebeu.
O MDB se sente ameaçado, mas não está disposto a assistir calado. Já começou a fazer barulho, a marcar posição e a lembrar o histórico de serviços prestados ao grupo. Seja como defesa, seja para vender caro o deslocamento. E, convenhamos, lealdade não pode ser sinônimo de passividade eterna.
O almoço da última quinta com o conselho político do governador entra nesse contexto. Oficialmente, o cardápio seria resolver pendências, reorganizar a base, mas não foi o que aconteceu. Reunião para marcar reunião e fazer um realinhamento dos atores que estavam se sentido alijados das discussões atuais. Na política, nem todo mundo digere bem quando o prato muda sem aviso.
Ou fica com o MDB ou trata de acalmar os caciques da legenda para traçar outros rumos, até porque a nominata de deputado federal é o que interessa ao diretório nacional. Enquanto não tiver uma batida de martelo de vez esse estica e puxa vai continuar. A conferir.
Adendo: aproveitar o ensejo do artigo e desejar votos de muita saúde ao senador Otto Alencar que assustou toda a classe política com uma cirugia neste fim de semana para colocação de marca-passo. Como sua assessoria confirma que está tudo bem, a gente espera o pronto restabelecimento do senador e sua volta ativa para as agendas políticas. Que o Senhor do Bonfim proteja.
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Jornalista / twitter: @victordojornal

