BARULHINHO

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Por Marcelo Albert

Tudo começou com ele.

Foi notado há mais de mês, sem ser dada a devida atenção, pois, na nossa avaliação, estava apenas situado em algum lugar do conjunto que dá suporte ao pneu.

_ Tem um barulho no rolamento. Me disse Miloca, que é tão entendedora de carros como eu.

Sim, estou falando de barulhinho no carro.

Eu tenho a mania de baixar os vidros da frente quando vou estacionar o japonês com sigla na garagem do nosso prédio, tal ato me ajuda na manobra, uma vez que invariavelmente entro de ré (lá ele 1.000 vezes!!!) na nossa vaga.

Comecei a nota-lo várias vezes na garagem. Era verdade, então, tinha algo no rolamento, vaticinei.

Se o ‘Casal Quatro Rodas’ afirmou que era problema no rolamento, então, ERA PROBLEMA NO ROLAMENTO, vamos deixar claro.

Só que………

Percebi mais adiante – depois do ocorrido, passei a baixar os vidros dianteiros antes de sair, algo que nunca fazia por conta dos prazeres musicais do DJ Pockye nas caixas internas – que ele se fazia presente antes do carro andar. Nasce daí a pergunta lógica:
‘Que porra de mágica é essa que faz o rolamento chiar antes da roda rodar?’

Que rolamento estranho……Pelo jeito, o Casal Quatro Rodas estava errado. Ao que tudo indica, esse casal domina as lógicas automobilísticas tal qual domina mandarim. Que absurdo.

Tenho, pois, a terrível missão de informar minha sofrida (por morar comigo) companheira que o probleminha do barulhinho estava, na verdade, no motor. Música de drama, please!

E agora? Levar o bichinho na concessionária que te oferece recepcionista malhada, vendedores com camisa colada, água gelada e cafezinho e depois rouba todas as suas economias? Melhor não, né? Hora do olé.

Minha primeira ‘solução’ foi entrar em contato com o sábio mecânico magrelo de alcunha ‘Gato Mestre’, que conseguiu fazer meu Pálio – ano 2.000 – funcionar depois de estar parado por quase 3 anos na garagem quando das tratativas da sua venda. Para mim, um mágico. Solução logo barrada pela pessoa de patente mais alta em casa. O quesito ‘referência’ foi fatal. Injustiça da zorra.

Ok, quem poderia então dar uma olhada – PODERIA, ressalte-se – seria o antigo mecânico de confiança do meu sogro – na verdade, meu também, afinal, fez meu Pálio deslizar por Salvador durante anos – e logo surgiu a dúvida:
‘Será que ele sabe futucar em carro automático, desses que não passam/trocam marcha?’

Lógico que quando você dá esse ‘up’ fica um tanto fresco. Resquícios de uma cultura bem brasileira em que o fudido acha que é rico, especial. Vamos a busca, ora pois!

Havia muito mais de ano que eu não entrava em contato com ele. Alheio a tecnologia, um tanto arisco, ruim de achar, só restava um número de telefone fixo na minha agenda do celular. ‘Esse telefone não existe’, aquela mulher desconhecida repetia.

Fudeu, pois.

Não, lembrei! Eu o tinha indicado para o meu irmão da vida Toinho Medrado uma cacetada de tempo lá atrás. Liguei pra ele:

_ Tonho, você ainda leva seu carro lá? Tem o contato dele?

_ Não, mas sempre passo por lá quando levo Marina no colégio. Deixa comigo, Pockye!

Quem tem amigo, tem tudo. Número novo de celular na mão em 2 dias.

De ‘Esse telefone não existe’, para ‘Deixe sua mensagem’, para finalmente ouvir o som de chamada foi uma via crusis. 485 tentativas depois, passando pelas tais fases, finalmente atendeu.

‘Diga, meu querido! Quanto tempo! Você, por acaso, mexe com motor Honda?’

‘Fala, doutor, quanto tempo! O que ele tem?’

‘Um barulhinho’.

‘Traz aqui’.

Capítulo 2 – BARULHINHO

Me programo, vou. Chego por volta de 10:30 de um dia qualquer.
‘Funciona aí! Ok, o barulhinho vem daqui’. 1 hora para desmontar as peças do lado de onde vinha o danado. Penso: ‘O cara é foda para desatarraxar as coisas…….’.

‘Marcelo, a peça que quebrou é o tensor da correia, tô vendo daqui de cima’, achou.

‘Tenho que comprar essa porra na Honda?’

‘Que nada, a gente pega no O Baratão, é beleza, é rapidinho. Agora é só desmontar até chegar nela, preciso tirar a correia também’.

Detalhe, nessa oficina trabalham 3 mecânicos. Perto de nós – e já tendo atendido 2 carros nesse lapso de tempo – está o que vou chamar de Zagueiro do Ipiranga, pelo porte físico.

Passa-se mais ou menos, uma hora e meia e finalmente ele consegue chegar na correia e tensor. Zagueiro do Ipiranga, um tanto curioso pelo tremendo tempo de trabalho do colega, vem olhar o que está acontecendo.

Novo diagnóstico e, infelizmente, nova saga. ‘Olha isso, o tensor está intacto, sem nenhum problema. O que aconteceu foi que o parafuso que segura o tensor quebrou na engrenagem, deixando o tensor batendo no motor. Agora essa cabeça de parafuso está presa nesta engrenagem’. O que fazer?

Zagueiro do Ipiranga diz: ‘Ou trazemos um torneiro mecânico aqui – e o único que conhecemos, morreu – ou tentamos tirar essa cabeça de parafuso com broca’.

Essa tentativa é iniciada. Por, literalmente, horas. Perguntei se tinha alguma lanchonete ou mercearia na rua (na verdade, uma ladeira). Não, apenas lojas de serviço (oficinas e lava-jatos na imensa maioria). Bebo um copo d’água com o agradável gosto de água de privada, faço 2 xixis. Estou ali, sem saber o que fazer.

Milena liga algumas vezes para saber do andamento da coisa. Ônibus, caminhões, carros, brocas ao fundo não ajudam em absolutamente nada a nossa ali péssima comunicação, que, por óbvio, começa a ficar pesada. Os 2 estão putos e com medo do desenrolar dos fatos.

Por volta de 16:00, Zagueiro do Ipiranga – que não se aventurou nas brocas (finas, médias, grossas), de banho tomado, vai embora. Surge, então, o terceiro sócio da oficina, que passo, para facilitar a compreensão do texto, a denominar Cara de Boneco. Estava também curioso com o tempo que o meu outrora mecânico de confiança estava levando com aquele carro.
‘Posso ajudar?’

Não posso negar que a minha grande torcida naquele momento era a de que o Cara de Boneco fosse um grande expert na coisa.

Broca, broca, broca. Quebra broca, troca broca. 17:00, parece que conseguiram chegar na cabeça do parafuso e tirar. Mas, meu querido mecânico diz que é melhor eu voltar para casa e retornar no dia seguinte, uma vez que ele achava que não daria tempo para fazer tudo e montar o carro até anoitecer.

O que fazer? Pedi o Uber.

Voltei muito puto, com fome, assado na telha da oficina, todo vermelho. Pior, com motorista bozolóide.

Chego em casa. Crise no Vasco! Crise no estúdio CP 1402! Tenho que falar a verdade. Acho que ele pegou um serviço maior do que ele conseguiria fazer.

Capítulo 3 – BARULHINHO

Pela parte da manhã, entro em contato com ele, pergunto sobre tudo, lógico. ‘Já fui na Baixa de Quintas e comprei 2 parafusos, que não serviram. Estou com um terceiro aqui, esse vai dar. O senhor pode chegar aqui por volta de 16:00 para pegar o carro’.

Como não nasci ontem, nem anteontem, mas há 10.000 anos atrás, 15:00 horas estava no Uber a caminho de lá. Chego e ainda o vejo trabalhando debaixo da roda. Aquilo me dá um calafrio. Na minha cabeça, uma teoria já estava formada: de tanto usar a broca, o lugar tinha perdido a rosca e não dava para prender mais parafuso nenhum. Eu, sinceramente, torcia para estar errado.

Pergunto com todo cuidado: ‘Ainda não rosqueou o parafuso?’. Ele faz uma cara feia, daquelas em que você sabe que está dando tudo errado. Passa a não responder o que pergunto. Começo a ficar mais puto do que estava antes e com medo de falar algumas coisas presas na garganta. Pondero:
‘Melhor não. É a mesma situação do garçom ou comissário de bordo que pode, sem nenhum pudor, cuspir na sua comida/bebida’.

Sem me dar satisfação, ele começa a subir e descer a ladeira, penso eu, em busca do parafuso ideal. Simplesmente some do meu visor.

Cara de Boneco passa por mim, aproveito e pergunto o que ele achava que estava acontecendo (em cima daquela minha teoria de perda de rosca do local). Me responde mal e sai andando. Penso:
‘Ué, pode meter a broca no meu carro e depois não me responder sobre?’

À partir desse momento, viro o personagem Cara de Mamão. O otário em pessoa. Se eu fosse o Charles Bronson, várias pessoas tinham morrido naquela ladeira. Mas como sou o Pocotó, tomei um sorvete sabor ‘isopor com açúcar’ de um vendedor ambulante que subia a ladeira e aceitava pix.

17:00, ele me informa novamente que não daria tempo de entregar o carro aquele dia. Não digo uma palavra sequer, apenas puxo o ar que quase me faltava, me viro, saio de perto dele.

Ligo para Milena e informo que, à partir dali, era melhor eu não tratar mais com ele. Eu faria/falaria alguma merda.

Sociologicamente falando, estava quase engraçado até aquele momento, pelo fato de eu me divertir muito internamente com todas as figuras com que me bati na ladeira durante essas intermináveis horas. A graça acabou ali.

Peço o Uber, o cara erra a entrada da ladeira, vejo o carrinho pelo aplicativo do celular mambembe, volta para a avenida. Mais 12 minutos:

‘PUTA QUE PARIU, CARAAAAAAALHOOOOOO, PORRAAAAAAA!!!’

Cara de Boneco, que pensava em entrar no carro no qual eu estava encostado, recua, volta pra dentro da oficina. Acho que, por alguns segundos, virei um bicho e ele, levemente franzino, notou.

Capítulo 4 – BARULINHO

Conto toda a minha saga para o motorista do aplicativo – que pensou em desistir da corrida quando errou a entrada da ladeira, mas, que, sabe-se lá o porque, voltou – e o cara, como um enviado dos céus, consegue me acalmar. Me narra alguns acontecimentos negativos na sua vida e diz que encarou tudo como ‘um livramento’.
‘O senhor escapou de algo ruim, pode acreditar em mim!’

Essa viagem até me fez bem, mas…..
Não acalmou a minha companheira de vida, logo:
Crise no Vasco! Crise no estúdio CP 1402!
Era uma situação praticamente sem solução. Não tínhamos como mandar o Diniz embora. Quem foi o culpado da coisa toda escalar daquele jeito?

O que eu podia fazer naquele momento era assistir mais um filme do Darin e esperar nosso algoz ligar no dia seguinte – PARA A MILENA – com a notícia boa. ‘Enroscou!’

E assim aconteceu.

Capítulo 5 – BARULINHO

Obviamente, não a deixei ir sozinha. Convocados, almoçamos juntos e pedimos um Uber (ela só anda naqueles que têm ventinho frio). O carro era um avião. BYD, com câmeras em todos os pontos, sensor para tudo que era lado, teto com persiana que abria num comando de voz, um silêncio monumental. O motorista disse que passou, mais ou menos, 4 dias estudando todas as ferramentas digitais do carro.

‘Vamos vender o Honda e comprar um desses?’

A felicidade voltou para o casal, o Vasco agora lidera o campeonato da Champions League!

Chegamos. O carro, finalmente, pronto. Ligamos, com a tampa aberta, nada de barulho. Evitei, de todas as maneiras, o contato. Por incrível que pareça, continuo o achando um baita mecânico e gostando muito da sua personalidade e habilidade com motores. O que aconteceu foi, na minha opinião, algo muito diferente, fora da normalidade.

Pagamos, no caminho de volta falamos da Honda, da BYD, do Darin.

Chegamos. Manobrei, estacionei.

Ele, junto com a gente, do nada, voltou.
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Escritor, advogado e DJ