MINHA VIDA TRANSCORREU NESTA CIDADE

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Por Eileser César

Minha vida transcorreu nesta cidade.
Então, como poderia não gostar
deste ambíguo lugar,
com sua beleza e sua fealdade,
se minha vida transcorreu nesta cidade?

Minha vida transcorreu nesta cidade
que me sorriu, comoveu,
alegrou e entristeceu,
e me deu um horizonte marinho
e um céu distante e estrelado.
Então, como poderia não gostar desta cidade?

Nas praias, nos largos, nas favelas,
nas igrejas que aprecio de longe
sem me animar a entrar
para olhar os vitrais, rezar e acender velas,
minha vida transcorreu nesta cidade.
Das mulheres desejáveis às que
somente integram a paisagem,
do tropeço no calçadão
à uma recorrente solidão,
minha vida transcorreu nesta cidade.

Toda cidade é a segunda mãe da gente,
enérgica e carinhosa,
afável ou espinhosa,
que despeja filhos pelas avenidas,
de leste a oeste, de sul a norte
e os entrega à própria sorte.
Assim também é esta cidade
por onde transcorreu a minha vida.

Aos poucos a cidade vai moldando
a forma do que somos
ou do que nos tornaremos.
Nesta cidade caminhei
entre um povo estridente,
e nesta barafunda (rasa e profunda),
jamais me senti indiferente.

Devo muito à cidade
em que transcorreu a minha vida,
e ela também me deve muito
do que perdi nas ruas,
distraído e nos dias subtraídos;
nestas ruas pelas quais caminho, agora,
já com uma cálida saudade
e nas quais recolho a iluminação dessa verdade:
minha vida transcorreu nesta cidade!
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Poeta, escritor e jornalista

(Foto: Maria Cecília)