Um sintoma para chamar de meu

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Por Caroline Severo

Nos últimos anos, assistimos a uma importante desmistificação da saúde mental. Os transtornos psicológicos que eram objeto de rechaço, vergonha e depreciação passaram a ser vistos e reconhecidos, o que favorece tanto a identificação dos sintomas quanto a busca por tratamento. Ao mesmo tempo que falar sobre esse tema é esclarecedor, há um novo fenômeno: o ritual em se reconhecer pelo nome de um distúrbio mental específico. Essa nomeação pela doença pode se constituir, sobretudo para os jovens, numa tentativa de responder, ou até de se defender, das exigências da sociedade contemporânea.

O comportamento nas redes sociais é um bom exemplo do apelo à idealização da imagem e à doença como estilo de vida. O diagnóstico, muitas vezes, é vivido ao pé da letra, com rigidez e alienação, delegando a questão à ciência, que geralmente propõe respostas universais, quando, em verdade, o que está em jogo são soluções que só existem no caso a caso.

Há algo muito peculiar nos sintomas contemporâneos quando se refere à relação que se tem com a imagem corporal. Estes passam a ocupar o lugar onde se inscrevem as ilusões e desilusões da vida: TDAHs, Bordelines, dismorfias, TAGs e tantas outras siglas tentam traduzir sempre o problema, com alguma debilidade, identificando, no saber médico, o impossível de ser dito.

Ainda nas redes sociais, há comunidades virtuais que traduzem esse cenário complexo. É o caso dos grupos e movimentos “pró-ana” e “pró-mia”, que promovem a naturalização dos transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. Nesses espaços, há uma  verdadeira inflação do ‘eu’ diante do espelho, em que o sintoma e a existência se misturam a ponto de não se identificar onde começa um e termina o outro.

Na experiência clínica, embora muitos pacientes busquem tratamento, os vínculos terapêuticos e a continuidade do cuidado se tornam cada vez mais frágeis, marcados por interrupções frequentes. Perturbar as defesas de alguém que acredita, por exemplo, que a vigorexia representa apenas um cuidado legítimo com o corpo significa tocar em uma forma de organização sintomática que, muitas vezes, parece ser o único modo possível de funcionamento para aquele sujeito.

Um dos desafios do vínculo terapêutico reside justamente em encontrar formas de introduzir a dialética onde hoje impera a literalidade do diagnóstico, que parece “grampear” numa identificação rígida o mal estar que toma o corpo — literalidade que, ao se deparar com os desdobramentos da vida, pode produzir efeitos devastadores.

A aposta no tratamento parte, portanto, de um movimento cauteloso, aquilo que popularmente se denomina “comer pelas beiradas”. Trata-se de encontrar caminhos que permitam alcançar o núcleo das amarrações sintomáticas com delicadeza, com luvas de pelica, tocando feridas que até então estavam encobertas pelo ritual do sintoma e construir uma reinvenção possível.

O trunfo do trabalho clínico reside em recolocar o discurso em cena diante da avalanche de imagens que, na maior parte das vezes, alienam os sujeitos em experiências coletivizantes, sustentadas por certezas absolutas, mas incapazes de tratar aquilo que, em última instância, diz respeito aos nós singulares de cada um.
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Psicóloga e coordenadora de Residência Terapêutica da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria