Por Victor Pinto
O avanço das investigações envolvendo figuras baianas como o ex-deputado Uldurico Júnior (PSDB), primeiro suplente do MDB a federal, e o deputado estadual Binho Galinha (Avante) não é capítulo isolado da crônica policial. Menos que já se trata de assunto transversal indo além das páginas da polícia e invade política, justiça, comportamento e outros quadros mais. Há algo profundo em curso e ignorar isso é um erro recorrente do debate público.
O ponto central não é apenas a existência de suspeitas graves contra agentes políticos como é o caso de Teixeira de Freitas e Feira de Santana, porque isso, infelizmente, já faz parte do repertório institucional brasileiro. O que chama atenção é o padrão que se repete. Repare bem: a aproximação entre estruturas criminosas e o campo da política eleitoral, sobretudo em ambientes onde o controle territorial e a fragilidade do Estado se combinam nessa cruzada.
O caso de Uldurico sugere um tipo específico de atuação como o político fazendo papel de mediador. Inclusive, do que tenho lido da delação de Joneuma que implica outros atores, bomba publicada pelo Bahia Notícias, ele é o operador do meio de campo, é alguém que transita entre mundos distintos, oferecendo acesso, influência e capacidade de articulação. Ajudando a promover fuga de bandido em penitenciária para ter dividendo eleitoral.
Já o caso de Binho Galinha aponta para outra camada de quando o vínculo com o crime deixa de ser episódico e tem características estruturais, com base territorial e lógica contínua de funcionamento, como aponta o Ministério Público.
Na minha opinião, são duas faces de um mesmo fenômeno.
A política, nesses contextos, passa a funcionar como ativo estratégico, pois não se trata mais de disputar ideias, projetos ou visões de governo. O que estamos vendo é a tratativa de garantir presença dentro da máquina pública através de diferentes caminhos. Posso elencar o financiamento de campanhas, controle e coação de votos (algo que chamei na Band News esta semana do novo coronelismo), intimidação de adversários (já temos casos de candidatos impedidos de acessar determinas áreas) ou, simplesmente, ocupação de espaços institucionais.
O buraco é mais embaixo em nível local. Vejamos. Municípios e regiões com menor capacidade de fiscalização tendem a ser mais vulneráveis. Uma lógica de três premissas: 1 – o custo eleitoral é mais baixo; 2 – o controle social é mais direto; 3 – a distância entre poder político e território é praticamente inexistente. É nesse ambiente, com essas características, que essas relações se desenvolvem com maior facilidade.
Revela uma dinâmica que, aos poucos, vai tensionando os limites da própria democracia.
O risco não está apenas na corrupção ou na prática criminosa em si, que são fatos graves, importante frisar, mas está também na possibilidade de que decisões públicas passem a ser influenciadas por interesses que operam fora da legalidade.
O desafio não é apenas policial ou judicial. É também político e institucional. E exige uma leitura mais realista do problema, porque o que está em jogo não é apenas a responsabilização de indivíduos, mas sim a capacidade do sistema de se proteger de infiltrações que operam em formato de profissionalização do crime. Eu disse essa semana na Band e repito aqui nos escritos: se sacudir essa árvore vários nomes vão cair. Será?! A conferir.


