Um novo velho problema para o governo

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Por Victor Pinto

A população carcerária da Bahia cresceu 11,8% em apenas um ano, mais que o dobro da média nacional de 6,3% entre 2023 e 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Um problema antigo, uma bola de neve. Tema sempre mantido a margem do debate da opinião pública. Hoje o que é novo é que o problema parou de ser discreto.

Por exemplo: o ex-deputado federal Uldurico Júnior foi preso preventivamente pela Operação Duas Rosas, do Gaeco do Ministério Público da Bahia. Assunto amplamente notificado. Sempre bom relembrar que a investigação aponta ter negociado R$ 2 milhões com facções para viabilizar a fuga de 16 detentos do Conjunto Penal da cidade em dezembro de 2024. Dentro da unidade, segundo o MP, traficantes tinham acesso livre a eletrodomésticos, refeições diferenciadas e às chaves das próprias celas. As relações amoras e políticas são dignas de enredo de uma série dos streamings.

O caso ultrapassou as fronteiras da Bahia e ganhou repercussão nacional e não apenas pelo perfil suspeito e sim pelo que o episódio joga luz. O Brasil tem mais de 70 facções atuando dentro do sistema penitenciário, conforme monitoramento do Ministério da Justiça, e o Estado parece ter perdido o controle sobre espaços que deveriam ser sob sua custódia exclusiva e a Bahia não foi e nunca será um exceção.

Pesquisadores já haviam documentado esse caminho. Pesquisadores da UFBA e da UESB mostraram, em estudo publicado na Tempo Social, que as gangues prisionais baianas se consolidaram justamente nas brechas da omissão estatal crescendo à medida que o encarceramento aumentava sem estrutura correspondente. A reclusão massiva, como reconheceu o senador Rogério Carvalho (PT-SE) na CPI do Crime Organizado, amplia o recrutamento por facções e não o contrário.

Para o governo Jerônimo Rodrigues (PT), o caso Uldurico representa uma mudança de natureza no problema. Para além de uma crise de gestão (superlotação, falta de vagas, estrutura precária…) tratam-se de permeabilidade e permissividade institucional em meio a suspeita de que o poder político pode ter servido de passagem para o poder criminal, algo que comentei na semana passada aqui nesse espaço.

Tratar o sistema prisional como um mero apêndice da segurança nas ruas é um erro. O governo Jerônimo está diante de um risco que vai além da reputação. O próprio governador enviou à Assembleia Legislativa um projeto de lei para criar uma política estadual de alternativas à prisão, reconhecendo a necessidade de superar a crise prisional. A iniciativa é acertada, importante frisar.

Em suma, sistemas prisionais abandonados viram quartéis-generais do crime. A Bahia sabe disso e, como já disse aqui, existem pesquisadores que documentaram bem essa escala e analisam esse problema. A questão saiu do subsolo e o que emerge às claras cobra resposta política, com custo real para quem governa. A conferir.
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Jornalista// twitter: @victordojornal