O artista Luciano Rosa é a personificação de muitos artistas espalhados por este Brasil profundo ainda não alcançaram o reconhecimento merecido do mercado de arte, esta entidade quase abstrata que determina prestígio, preços das obras e alça os artistas a patamares impensáveis. Ele nasceu em Itabuna no dia oito de novembro de 1968 e com nove anos de idade seus pais mudaram para Itapetinga com quase duas dezenas de filhos. Seu pai Basílio Félix dos Santos um pequeno produtor de cacau perdeu suas terras em jogos de azar e sua mãe a pernambucana d. Maria Eutropia Freudenthal teve que enfrentar a vida juntamente com os filhos mais velhos para ter uma sobrevivência digna. Foi assim que sendo um dos mais novos Luciano Rosa Santos, este é o seu nome, passou a frequentar o Ginásio Agroindustrial onde alguns artistas costumavam desenhar e pintar. Entre eles estava o pintor João Félix que por uma deferência do prefeito de então permitiu que morasse no estabelecimento de ensino. Lá ele pintava suas paisagens urbanas e rurais e fazia as decorações de lojas, colégios, das festas do Natal, Carnaval e Juninas juntamente com outros artistas. Foi neste ambiente que o menino Luciano Rosa começou a prestar a atenção do uso das tintas e dos pincéis.

na cidade de Vitória da Conquista, Bahia.

Musicista, de 2020. Acrílica s/ tela.
Parecia fácil ficar olhando os adultos pintando, mas conta Luciano Rosa que “eles não gostavam de ensinar e tive que começar a desenhar pelo que conseguia ver e aprender”. Mas, com passar do tempo começou a ajudar e ganhar dinheiro com as decorações, pintura de faixas de propaganda comercial e e também passou a fazer alguns objetos de artesanato. Depois vieram as camisetas feitas de serigrafia utilizando o chamado filme de recorte, que é uma forma um pouco rudimentar da serigrafia e da transferência de imagens. “O filme de recorte termocolante (PU ou PVC) “é um material vinílico aplicado em tecidos via calor (150°C-160°C) por 10-15s, ideal para personalização detalhada com plotter de recorte. Pode ser usado sozinho ou combinado com serigrafia (base no silk, detalhes no filme) para acabamentos premium, como alto relevo, flocados ou metalizados”. Quando conversamos ele estava em seu ateliê e mostrou a mesa de serigrafia onde personalizava as camisetas e outros produtos.
FORÇA DA ARTE
Estudou a parte do primário na Escola do Lions Clube e na Escola Municipal Augusto de Carvalho, ambas em Itapetinga, sendo obrigado a parar de estudar para trabalhar. Frequentou durante alguns anos o Ginásio Agroindustrial, mas ia jogar bola e observar as pessoas lideradas pelo escultor João Félix pintar. Trabalhou muitos anos ao lado do pintor e escultor cujo nome verdadeiro era Júlio de Souza Barbosa, nascido vinte e um de março de 1927 na cidade de São Félix, no

composições com elementos geométricos.
Recôncavo Baiano, e ganhou este apelido de João Félix em Itapetinga onde chegou aos dezessete anos de idade. Era pedreiro de profissão e com o tempo e a sensibilidade natural se transformou num escultor popular a partir da década de 70. Veio a falecer aos 83 anos em 2011, numa morte trágica sendo esfaqueado por um casal de ladrões. Deixou várias obras no Parque da Matinha, em coleções particulares, praças, ruas e prédios públicos de Itapetinga. O Luciano Rosa também pintou ao lado de Villadônega Rodrigues natural de Euclides da Cunha, região Nordeste da Bahia, foi jogador meio campista do Vasco da Gama e do Atlético Mineiro, quando morou em Itapetinga era artista plástico, pintava painéis, letreiro de lojas e clubes sociais e fazia decoração de eventos com suas pinturas. Mas, foi com o pintor e escultor João Félix que Luciano Rosa mais trabalhou e se identificou.
Aos vinte anos Luciano decidiu que sua vocação era mesmo ser artista e intensificou sua busca por novos trabalhos. Ainda estudava no Ginásio Augusto de Carvalho, mas constituiu família e teve que deixar os estudos. Disse que trabalhou com afinco e pintou muito nos anos 80 e 90 para sustentar a mulher e filha, e que sua esposa Maria Gorete foi e ainda é uma grande incentivadora do seu trabalho plástico. Agora já maduro voltou a estudar e concluiu o curso ginasial. Sua arte foi se desenvolvendo através de leitura e com o surgimento das redes sociais confessa que passou a tomar conhecimento de outros estilos e conhecer a produção de artistas importantes.
Sem patrocínio, sem orientação e sem uma galeria para expor suas obras e lhe representar Luciano Rosa e centenas de artistas desde país afora lutam com muitas dificuldades para continuar se expressando. Muitos ficam pelo meio do caminho e abraçam outra atividade diante da necessidade de sobrevivência, mas tem outros teimosos que continuam a pintar paralelamente às outras atividades que exercem, e uns poucos persistem só pintando e terminam vencendo como é o caso do Luciano Rosa. Para completar seu portfólio ele passou também a fazer retratos e aprimorou sua técnica pintando em óleo sobre tela.
Disse que a tinta a óleo lhe permite detalhar mais os rostos das pessoas quando pinta e também é excelente para fazer o sombreamento através do esfumaçando ou esfumar que “é uma técnica artística que consiste em suavizar contornos, misturar cores ou transições de tons, eliminando marcas de pinceladas para criar um efeito difuso, nebuloso ou de sombra. O objetivo é fazer com que as linhas desapareçam gradualmente, assemelhando-se a fumaça, gerando profundidade e suavidade na obra.” Ele também disse que ao fazer retratos de pessoas cria fundos que combinem com os personagens que estão sendo retratados. Demora mais de duas semanas para concluir um retrato e é exigente com o resultado. Também costuma pintar suas obras com motivos geométricos usando tinta óleo ou acrílica sobre tela ,e outro detalhe é que e fabrica as telas que utiliza para pintar, procurando desta forma baratear os seus custos de produção.
TRAJETÓRIA

usando tinta acrílica sobre telas.
Como prova de sua saga em continuar se expressando Luciano Rosa está expondo trinta e uma obras no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, que ora é palco da VI Conferência Municipal de Cultura da cidade. São obras com composições geométricas, e o artista chegou a esta estilo depois de pintar paisagens rurais e urbanas. Atualmente utiliza uma paleta de cores variadas que trazem no seu conteúdo composições que trazem no seu conteúdo imagens plásticas bem resolvidas. Ao seu lado está expondo a artista Elaine Porto que trabalha com a arte têxtil contemporânea e macramê artístico, que é uma técnica de tecelagem “manual que utiliza nós e trançados para criar peças decorativas, sem o uso de agulhas ou máquinas. De origem turca (significando “franja” ou “trama”), é ideal para painéis, suportes de plantas e acessórios, utilizando barbantes de algodão e bases como madeira.”
O artista Luciano Rosa gosta de pintar figuras femininas, natureza-morta, retratos, animais, objetos variados e atualmente está expondo e continua pintando obras geométricas e abstratas. Falou que as obras geométricas são concebidas depois de um esboço numa folha de papel usando compasso, régua e até lápis de cor. Em seguida é que vai para a tela esboçar o trabalho e finalmente pintar escolhendo as cores. Por exemplo, recentemente viu uns peixes num lago na Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, e aquilo ficou em sua mente. Quando sentou para trabalhar lembrou das carpas que tinha visto na praça e já pintou várias telas com esta temática colocando peixes entre elementos geométricos. Portanto, os peixes da praça serviram apenas de ponto de partida, de um start para pintar uma série de obras dentro de suas características como pintor.
Na História da Arte encontramos importantes pintores que partiram da arte geométrica e abraçaram as correntes de arte do cubismo, Construtivismo e o Neoplasticismo. Coube a Pablo Picasso e Georges Braque no século passado a criação do cubismo com a geometrização das formas, fragmentação de objetos. O Construtivismo surgiu na Rússia entre os anos 1913 a 15, portanto antes da Revolução Comunista de 1917, como um movimento de vanguarda nas artes

equilíbrio de formas e cores.
plásticas e na arquitetura com os artistas Vladimir Tatlin e Alexander Rodchenko. Finalmente o Neoplasticismo movimento vanguardista europeu do início do século XX, fundado por Piet Mondrian, que defendia a abstração geométrica pura. Já o Luciano Rosa pratica um estilo misturando intuitivamente as formas geométricas e usando uma paleta dentro do seu gosto pessoal e das informações que consegue captar como bom observador que é. Não trabalha com o rigor dessas correntes da arte contemporânea, mas consegue se expressar e se comunicar com certa facilidade.
Disse por ser evangélico , gosta das músicas gospel e se deparou na internet com as músicas da cantora americana Mahalia Jackson. Ela começou sua carreira cantando em corais gospel nas igrejas em 1937. Quando completou vinte e seis anos gravou seu primeiro LP. Ela faleceu em 1972 aos sessenta anos de idade. Agora o artista está debruçado pintando um retrato da cantora através uma fotografia que encontrou nas redes sociais e pretende que seja o mais fiel possível. Acha que vai trabalhar por cerca de um mês neste novo retrato, isto porque desenha e depois vai aos poucos delineando os traços do retratado com paciência e busca da perfeição.

e o construtivismo.
Consta no seu currículo apenas duas exposições em espaços públicos sendo a primeira em 2025 na Casa Memorial Régis Pacheco, em Vitória da Conquista, Bahia, que deu o nome de Resiliência quando expôs trinta obras abordando os temas que continua até hoje. Disse que deu este nome Resiliência “É uma trajetória muito difícil. Tem horas que você corre atrás de uma coisa, corre atrás de outra. No mundo das artes plásticas, é bem difícil você ter um local para expor quando ainda não alcançou o reconhecimento. Por isso, eu agradeço a cessão desse espaço, a oportunidade e a valorização dos artistas. A Resiliência vem de lá do meu ateliê até aqui, de transportar os trabalhos, ter alguém para ajudar, ter cuidado com as obras.” Agora está expondo no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, também em Vitória da Conquista, juntamente com sua colega Elaine Porto que denominaram de Diálogos Geométricos Entre Cordas e Traços. Enquanto Luciano apresenta trinta e uma obras usando elementos geométricos, abstratos e retratos a Elaine Porto nos mostra obras de Fiber Art utilizando fios de algodão, palha e outras fibras naturais para criar relevos.



