Por Victor Pinto
Há uma dimensão da política que os manuais de campanha muitas vezes não codificam, mas que qualquer observador atento da política baiana reconhece de imediato no campo das sensações: o poder mobilizador da vingança. Não a vingança confessada, declarada em palanque, mas aquela que corre nas veias das estratégias, que acende olhos em reuniões fechadas, que converte a derrota passada em combustível para a batalha presente.
A sociologia das emoções políticas de Norbert Elias e Jonathan Turner nos lembra que as paixões não são ruídos, são os próprios processos de ações que podem desencadear escolhas e aqui faço o recorte eleitoral. A emoção é arma de ambos o lados. Daquele que quer o voto e daquele que vai votar. O eleitor e o político partilham da mesma natureza humana e nenhuma emoção é mais persistente, mais disciplinadora de energia, do que o ressentimento que amadurece em desejo de acerto de contas.
Vamos para alguns casos frescos na memória. A Bahia de 2022 tem um exemplo rico. Relembre aqui comigo: João Roma, recém-saído de um governo federal da era Bolsonaro e rompido em praça pública com ACM Neto, entrou na corrida ao Palácio de Ondina com a agenda do PL, mas também com o subtexto de quem queria, antes de qualquer vitória própria, ver o ex-prefeito de Salvador derrotado. Funcionou como gasolina, embora os resultados o tenham deixado a pé, mas ajudou a firmá-lo como nova liderança, mesmo regressando ao mesmo ninho atualmente.
Naquela mesma eleição de 2022, como forma de vingança por não ter sido o escolhido na vice, o atual prefeito de Feira de Santana, Zé Ronaldo, não teria se dedicado como se esperava. A vingança é um prato que se come frio, diz o povo. Venceu a prefeitura em 2024 de maneira sofrível, mas venceu, e esperou chegar 2026 para dar as cartas e reaver o prestígio que antes havia sido escanteado. Surtiu efeito.
Já Rui Costa tratou a campanha em diversas regiões do PP, o que diga cidades como Barra. Foi com a frieza cirúrgica de quem lembra cada voto dado ao adversário depois do rompimento com João Leão que buscou passar recados.
E então veio Bruno Reis em 2024. A vitória na prefeitura de Salvador foi expressiva, acachapante. Mas quem acompanhou a noite da apuração sabe que a euforia mais genuína da turma não era com o próprio primeiro lugar. Era com o terceiro lugar de Geraldo Júnior que havia sido ultrapassado por Kleber Rosa. A vingança tinha endereço e sobrenome para impor uma derrota histórica de quem fazia parte do seu grupo, rompeu, pirraçou e depois veio a lhe confrontar.
Para 2026, os focos de combustível estão postos em casos vistos a olho nu. Angelo Coronel deixou o PSD, migrou para o Republicanos e se colou ao bloco de ACM Neto. As leituras políticas de Otto Alencar e do próprio PSD são de uma traição. Otto não precisa dizer publicamente que quer ver Coronel derrotado, mas seus discursos deixam a entender isso e toda a sua estrutura vai trabalhar para tal, em silêncio produtivo. O recíproco vale: Coronel carrega o ressentimento de quem se sentiu descartado e vai tentar contragolpear.
Do lado do PT, o foco regional sobre Jequié tem nome de Zé Cocá, que aceitou ser vice de Neto mesmo diante das investidas do governo estadual. Para Rui Costa, que conhece aquela região, há uma conta aberta para tratar dessa desfeita.
Contudo, há um paradoxo nesses combustíveis de ressentimento. Em doses controladas, movem campanhas, enxergam janelas que a razão fecha. Em excesso, intoxicam. Quem cresceu assistindo Chaves guarda a sentença do Professor Girafales: “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.” A questão é saber quem vai usar o veneno como remédio e quem vai tomar uma dose além da conta na Bahia de 2026. A conferir.
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