Por Gerson Brasil
“Quase frívola, e com muitos dedos grandes e chatos, era difícil empanturrá-los com sapatos; os poucos disponíveis emitiam um chiado, à proporção de quem tenta abrir um portão de ferro azedado. Mas era Stefania Nepomuceno María de los Remedios de la Santísima Trinidad. Uma companhia na fronteira entre amante e cortesã de pouco crédito. Era difícil lhe organizar as finanças, assim como as de Beatriz, que desfrutava do cobiçado posto de esposa, reverenciado pela vizinhança, pela família e por outras entidades estabelecidas, sem haver contestação. Ao menor barulho, seguir-se-iam admoestações e um fervor imaculado a praguejar-me o inferno.
Stefania fazia Ruthe desaparecer, na imitação dos mágicos de circo, recebendo aplausos da plateia por transformar numa dançarina uma mulher corpulenta, com pelos irascíveis nos sovacos. Não havia intempéries do tempo, nem horas de relógio, ou compromisso imperdível. Tudo se resumia a uma pausa coalescente, ditada pelos maestros às orquestras. A hora da volta para casa era um rascunho.”

— Alice, veja esta carta de papai, com a candura de quem pode ter produzido seres que estão por aí extraviados. Nenhuma inquietação, arrependimento ou pedido de perdão. Parece que escreveu sentado numa cadeira a indicar uma rotina, como fazem os escritores e os suicidas. É a nossa vida, a minha, a sua e a de mamãe, enfeixadas num relato diplomático, cru, como se estivéssemos numa peça e, de repente, a cortina fechasse o espetáculo.
— Passe-me. A vida sempre tem dissabores; os da família são piores do que os crimes. Sempre é possível recorrer à polícia, mostrar indignação, ser parabenizado pelos vizinhos. No materno, o pior vem dos parentes distantes, a quem odiamos, mas somos compelidos a lhes soletrar os nomes, como se, bobamente, estivéssemos decorando a árvore genealógica, quando a intenção é terminar a frase e, se for possível, lavar a boca com água e sabão.
Mas não se trata de uma carta; você se enganou. Veja: são muitos almaços de papel, onde caberiam novelas ou folhetins. Nunca o vi escrevendo algo ou respondendo a uma carta; essa tarefa cabia à minha mãe, que julgava falta de educação não dar ciência de algum recebido. Até bilhetes eram honrados com cerimônia.
Mas note: aqui, na oitava dobra, a escrita se refere a apontamentos encontrados na casa de Stefania, escritos em espanhol e atribuídos a um entregador de encomendas com incrível capacidade de narrar fatos plausíveis, mas possivelmente inventados ou mentirosos, os quais, diz papai, faziam a delícia de muita gente e, ao mesmo tempo, ajudavam a vender mercadorias perecíveis, embora suficientes.
“Comprei uns almaços que descreviam com nitidez, dispensando a luz do sol, os almoços e o tédio de Alice e do irmão, quase dândis, mas ambos com diploma universitário; melhor seria vender a um charlatão, teria melhor serventia. Ruthe de Almeida Campos e a família aristocrata haviam falido e levado à desgraça centenas de trabalhadores, entre eles meu pai. Não me recordo de quando descobri essa faceta; senti-me ludibriado.”
— Alice, estou perplexo. Na página 12 há referência a uma tal de Débora: “cujos olhos mitigavam qualquer preocupação, mesmo que proveniente da casa que eu habitava, entupida de móveis. Um dia pensei em vendê-los para ressarcir meu pai e os empregados da Indústria de Confecções Imperial. Talvez o sofá e o colo de Débora tenham tornado a atitude descabida e inapropriada, mas não fiquei convencido; havia algo fugidio. Quando o aborrecimento me assaltava, ouvia, como uma espécie de consolo, Débora cantar:
Siempre que te pregunto
Que cuándo cómo y dónde
Tú siempre me respondes
Quizás, quizás, quizás
Estás perdiendo el tempo
Assoviava e repetia a frase em modulações acanhadas, como flores venenosas.
Mas pouco importam a sopa, os vestidos e a benevolência agostiniana — poderiam ser um enfeite, como aqueles usados pelas cortesãs —; tornavam as tardes e os banhos pirilampos sagazes. O quarto acomodava a harmonia, uma espécie de desaforo quando eu estava na Rua Ortiz e Lopes, número 343.”
— Querido irmão, papai era um rufião. Acontece, como aconteceu de ter-me escapado beijar Julio Assis, porque tenho 1,65 e ele, 1,92. Fiquei com raiva e me contentei com Gaspar Montenegro, orgulhoso, de família vasta e tola, à espera de que pudesse ser exibido como médico, mas não passou no exame. Tentei ensinar-lhe química, mas a juventude, a insuficiência e o dinheiro foram parar no auxiliar de escritório da Los Passos y Passos. Nunca gostei da Passos y Passos; as pessoas dão um passo e depois outro, cada um num ritmo desejado, até o dia em que me esfreguei em Júlio Soares. Impossível descrever o desastre.”
— Mas há alguma coisa errada, Alice. Papai não era um rufião; sempre falava baixo, não assoviava nem dava gargalhadas, e todos os domingos a família ia à missa. Mamãe acompanhava a liturgia em latim; papai chegou até a decorar, mas dizia tratar-se de uma inutilidade.
Nas outras igrejas isso não acontecia; pareciam ter chegado ao amadurecimento, e havia aquelas em que o padre rebolava tocando guitarra. Aqui, porque a família de mamãe erigira a capela, tornou-se uma dívida rezar a missa em latim.
Penso que a dívida se transformou em provocação, lembrança urdida para fazer reluzir para sempre o modo ordinário da família de mamãe, que não engolia funcionário público, mas foi obrigada a aceitar, porque a respeitabilidade de papai, subchefe da alfândega, serviu de anteparo às críticas dirigidas aos aristocratas da rua. Era uma humilhação, mas engraxava os sapatos e mantinha o xale sobre os ombros femininos, infelizes e raivosos.”
Alice, veja o que encontrei na página 32: “Alfredo, estou lhe enviando estes almaços para dirimir dúvidas; parecem ter sido escritos na minha vizinhança. Certa vez perguntei ao entregador de encomendas se ele tinha escrito esses possíveis testemunhos. Pausou, moveu os lábios e respondeu que não: ‘Servem de calço para equilibrar as caixas no caminhão. Algumas empresas não os utilizam mais; porém, Almeida y Almeida conserva essa técnica. Transportamos louças, vidros, taças de cristal, e os almaços são bem-vindos.
Ouvi dizer que algumas pessoas foram acolhidas por mapas raros, escritas em forma de poema e descrições semelhantes a acontecimentos distantes e próximos. Certa vez, uma mulher por pouco não matou a cunhada. Desconfiou tratar-se de uma alcoviteira. Já tentei obter uma prova de como foram escritos, mas não foi possível.’
Alfredo, tente obter algum certificado de onde, como e por quem foram elaborados os almaços. Há muito interlúdio, e, quando isso acontece, a má-fé acompanha, mas induz também a desculpas, por terem se extraviados ou porque a cena não é capaz de desnudar, por completo, a alma, a paisagem, os caminhos e as famigeradas formigas, na integridade das mordidas, ferozes e implacáveis, muito mais do que o inferno — no esforço, é possível colocá-lo entre parênteses. Mitigar a estranheza e sustentar a defesa de mentiras verídicas.”
————————-
Jornalista e escritor

