Por Marcelo Albert
Um determinado personagem humorístico da nossa TV aberta afirmava peremptoriamente e várias vezes: ‘Eu não sou maluco!’.
Minha companheira da vida adquiriu um aparelhinho num aplicativo de compras, já tem um tempo, para instalar no banheiro que mais uso. Especificamente, o que tomo banho. Foi baratinho, menos de R$100,00, mesmo assim, parcelou em 3 vezes.
Eu tenho o enorme privilégio de possuir todos os set’s do melhor e mais modesto DJ do universo. Estão armazenados tanto no meu celular, como no PC. Simples afazeres, tais como lavar louça, fazer barba, lavar o banheiro da estonteante Linoca, dirigir, caminhar, comer um espeto acompanhado de uma gelada (com a permissão do dono do espaço), tomar banho………sim, tomar banho (guarde isso), sem exceção, eles são agora obrigatoriamente para mim atados à sublime sensação que a super pinçada fileira de músicas do afetado selecionador proporciona.
O bluetooth é acionado na caixa e o prazer iniciado com o play. Quase nada interrompe esse deleite. Algumas mensagens de zap por vezes dão uma pequena e breve diminuída no som, mas o gozo continua, não há uma grande perda.
Apenas uma ligação telefônica interrompe esse regalo……
Não existe explicação plausível, mas a perigosíssima pessoa citada no segundo parágrafo, ao que tudo indica, parece não gostar muito do DJ Pockye. Esse absurdo inenarrável, poderia se basear na infindável exposição de sons e contato diário com os quais ela se submete estando perto do personagem (ele é insuportável e arrogante, apesar de humilde). É uma suposição.
O pequeno aparelho, de nome Detector de Banho, a avisa que alguém começou a banhar-se há alguns minutos.………e ela, acreditem………faz a ligação telefônica………
Pode estar no trabalho, no carro, no Uber, num passeio com a Lina, na casa da mãe (minha adorável sogra)………Ela recebe o comunicado do DB e, sem nenhum pudor, liga………Hannibal Lecter é um gatinho perto dela………
Eu, geralmente ensaboado, rebolando minhas formas e viajando nos exultantes sons, sou subitamente pego, óbvio, molhado e completamente frustrado com a interrupção. Me seco com todo o cuidado do mundo, teclo para atender:
‘Tá tudo bem por aí? Não é nada, não’.
‘Olha, estou voltando, té já, um beijo’.
‘Lina fez pumpum, agora deitou no gramado’.
‘Pensa em alguma coisa para pedirmos no IFood mais tarde’.
‘Tem algum filme bom em algum streaming? Hoje tem NBA?’.
‘Não esqueça de pegar a Linoca na creche, estou no caminho’.
‘Minha mãe disse que leu sua última bobagem e deu risadas’.
‘O trânsito está horrível, estou ouvindo Reinaldo Azevedo’.
A vida nunca volta a ser a mesma depois de uma interrupção abrupta de set. Maldito Detector de Banho!!!!
A Polícia Federal já fez 3 varreduras no meu banheiro e ainda não o achou, mas eu tenho certeza de que ele está lá!
Eu não sou maluco, porra!
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Escritor, advogado e DJ
