A Polícia Federal (PF) vai realizar uma perícia sobre os US$ 55.175 e 33,5 mil euros apreendidos em endereços ligados ao líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), para verificar a origem dos recursos e analisar se o montante é compatível com a justificativa apresentada por ele. O valor equivale a R$ 482 mil em valores atuais.
Wagner afirmou que o dinheiro é resultado de diárias acumuladas em viagens oficiais ao exterior. Os números, porém, contam uma história diferente: o senador recebeu R$ 337 mil em diárias do Senado Federal entre 2019 e 2026, valor 43% inferior ao montante apreendido pela PF.
A versão do senador
Em entrevista à BandNews TV logo após a operação, Wagner negou qualquer irregularidade. “Eu várias vezes viajei para o exterior. De 2019 para cá, recebi aproximadamente US$ 70 mil em diárias para viagens internacionais. Em outras ocasiões, também comprei dólares e euros no Banco do Brasil, onde mantenho conta, para custear deslocamentos ao exterior. Não tenho nada a esconder sobre esse dinheiro”, declarou o senador.
A assessoria do parlamentar divulgou nota no mesmo sentido, afirmando que os valores encontrados são resultado de “diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais”. Posteriormente, o gabinete acrescentou que parte do montante corresponde a moeda estrangeira comprada pelo próprio Wagner com recursos próprios, sem detalhar qual parcela se enquadra em cada categoria.
Os registros que contradizem a justificativa
A versão apresentada pelo senador enfrenta questionamentos com base nos próprios dados oficiais do Senado. Os registros do Portal da Transparência indicam que todos os pagamentos de diárias foram realizados por ordem bancária, e não em dinheiro em espécie ou em moeda estrangeira, o que contrasta diretamente com a explicação do parlamentar.
A contradição é ainda mais evidente no caso dos euros. Wagner realizou apenas quatro deslocamentos para a Europa desde 2019: duas missões à Itália, uma viagem a Lisboa e outra a Glasgow, na Escócia. As diárias referentes às viagens europeias somam aproximadamente 5,1 mil euros. Os 33,5 mil euros apreendidos pela PF superam esse total em mais de seis vezes.
O “RG do dinheiro”
Para desvendar a origem das cédulas, a PF vai analisar a numeração de série de cada nota, que funciona como uma espécie de identificação individual do dinheiro e permite determinar o ano de emissão e o lote de impressão. O objetivo é cruzar essas informações com os registros de pagamentos de diárias recebidos pelo senador ao longo dos anos.
A maior parte do dinheiro foi localizada em Brasília, onde agentes apreenderam US$ 49 mil em espécie num quarto do hotel Brasília Palace, endereço habitual de Wagner na capital federal. Em Salvador, foram encontrados outros 33,5 mil euros e US$ 6.175 num endereço ligado ao senador.
O contexto da operação
As buscas ocorreram na quinta-feira (19) durante a 9ª fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A operação investiga suspeitas de favorecimento ao Banco Master.
Na decisão que embasou as buscas, Wagner é apontado como possível “beneficiário central” de vantagens econômicas supostamente concedidas por integrantes do Banco Master em troca de atuação parlamentar em temas de interesse da instituição financeira. Entre os benefícios citados pela PF estão o suposto custeio de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves particulares e ingressos para um show em Los Angeles.
O senador nega irregularidades e ressalta que não é réu no processo. “Não fui denunciado nem acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados”, afirmou em nota divulgada após a operação.

