Por Victor Pinto
Toda eleição produz uma enxurrada de análises sobre pesquisas, alianças, marqueteiros e estratégias. São discussões importantes, mas quase sempre insuficientes. A política é consequência de um país que mudou na forma de consumir, de se informar, de conviver e de enxergar o poder.
Por isso, quem deseja compreender a eleição de 2026 talvez devesse começar por quatro livros que, à primeira vista, não tratam exatamente da mesma coisa. Lidos em conjunto, porém, ajudam a explicar o Brasil que chegará às urnas.
Começaria por Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, do geógrafo Kauê Lopes dos Santos, publicado pela Editora Fósforo. O livro rompe com a visão simplista de que o crédito é apenas uma ferramenta financeira. Mostra como o parcelamento, o boleto e o endividamento passaram a organizar a vida de milhões de brasileiros. O voto não nasce apenas das convicções ideológicas; ele também é influenciado pela experiência cotidiana de quem vive fazendo contas para fechar o mês.
Na sequência, vale mergulhar em Brasil no Espelho, do cientista político Felipe Nunes, publicado pela Globo Livros. A grande virtude da obra é desmontar caricaturas. O Brasil não cabe mais nas velhas divisões entre direita e esquerda, ricos e pobres, litoral e interior. Com base em pesquisas, Felipe mostra um eleitor mais complexo, mais contraditório e menos previsível do que costuma aparecer no debate público. É um convite para abandonar certezas fáceis e observar o país como ele realmente é.
Mas entender o eleitor não basta. É preciso compreender também o ambiente em que ele está inserido. Nesse ponto, Todos Contra Todos – O ódio nosso de cada dia, do historiador Leandro Karnal, publicado pela Editora Leya, oferece uma reflexão valiosa. O autor mostra que a polarização não surgiu do nada. As redes sociais aceleraram conflitos que já existiam, transformando ressentimentos e divergências em parte da rotina política. Isso ajuda a entender por que o debate público parece cada vez mais emocional e menos disposto ao diálogo.
Por fim, Os Engenheiros do Caos, do escritor e cientista político Giuliano da Empoli, publicado pela Editora Vestígio, explica como campanhas e lideranças aprenderam a explorar esse novo ambiente. Dados, algoritmos, redes sociais e emoções deixaram de ser ferramentas auxiliares para se tornarem parte central da disputa política. Hoje, muitas campanhas não procuram convencer. Procuram mobilizar, provocar e manter seus eleitores permanentemente engajados.
Separados, são quatro excelentes livros. Juntos, formam quase um manual para interpretar o Brasil contemporâneo. Kauê ajuda a entender como vive o brasileiro. Felipe Nunes explica como ele pensa. Karnal analisa como a sociedade passou a conviver. Da Empoli revela como a política aprendeu a operar nesse novo cenário.
Quando a campanha eleitoral começar oficialmente, tudo isso já estará em campo. Afinal, a urna apenas registra escolhas, pois elas são construídas muito antes, na sociedade que cada um desses autores ajuda a compreender. Vale a leitura. A conferir.
