Por Victor Pinto
Os grandes centros são cruciais para a construção basilar das campanhas do governo, mas, sozinhos, não são garantidores do êxito. Para tanto, o grande número de cidades de pequeno porte ajuda a contrapor a concentração eleitoral. Essa proporção sempre é levada em conta quando analisamos o desempenho de ACM Neto (UB) e Jerônimo Rodrigues (PT), por exemplo, na disputas de 2022. Cidades como Vitória da Conquista, Itabuna e Ilhéus sempre exerceram papel estratégico na montagem das vitórias para o Palácio de Ondina. É justamente por isso que duas crises locais merecem atenção especial.
Em Vitória da Conquista, o racha entre a prefeita Sheila Lemos (UB) e o vereador Diogo Azevedo (PSDB) ultrapassou há muito tempo uma divergência administrativa. A disputa nasceu da formação das chapas proporcionais para 2026 e ganhou contornos ainda maiores quando Diogo rompeu com o União Brasil, aproximou-se do deputado Tiago Correia (PSDB) e passou a enfrentar judicialmente questionamentos sobre sua mudança partidária. Do outro lado, Sheila trabalha para consolidar o projeto eleitoral do marido, Wagner Alves (UB). O conflito expôs uma divisão dentro do próprio campo liderado por ACM Neto e colocou em lados opostos dois grupos que, em tese, deveriam estar somando forças.
Na região sul, o roteiro é semelhante, embora os personagens sejam outros. O atrito entre o líder do governo na Assembleia, deputado Rosemberg Pinto (PT), e o prefeito de Itabuna, Augusto Castro (PSD), que tem a esposa Andrea Castro (PSD) como pré-candidata, também nasce da disputa pelos espaços de poder e pela montagem das chapas proporcionais. Ambos integram o mesmo campo político do governador Jerônimo Rodrigues, mas divergem sobre a condução do projeto regional e sobre quem exercerá protagonismo nos próximos anos.
Há um ponto em comum entre as duas histórias. Nenhuma delas tem origem na disputa pelo governo da Bahia. O centro do conflito está na eleição para deputado estadual e deputado federal. São interesses locais que acabam produzindo efeitos estaduais.
A experiência política da Bahia mostra que esse tipo de tensão não é novidade. Em diferentes momentos da história, candidaturas majoritárias foram obrigadas a administrar conflitos internos provocados pela disputa por bases eleitorais. O problema é que essas disputas consomem energia, dificultam a mobilização das lideranças e, muitas vezes, confundem o eleitor.
Nem Jerônimo Rodrigues nem ACM Neto têm interesse em assistir seus aliados brigando em regiões consideradas estratégicas. Vitória da Conquista representa um dos principais redutos da oposição no interior. Itabuna forma um polo eleitoral indispensável para o grupo governista.
No fim das contas, as campanhas para governador costumam ser construídas a partir de grandes discursos, mas podem ser enfraquecidas por pequenas guerras domésticas. Em alguns contextos, o adversário mais perigoso não está do outro lado da rua. Muitas vezes, ele ocupa a sala ao lado. E é justamente esse tipo de fogo amigo que exige mais habilidade dos candidatos ao governo do que qualquer ataque vindo da oposição. A conferir.
