A ARTE DA COMPRA DE VOTOS

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Por Biaggio Taleento

Certa feita um governador em ambiente descontraído, na presença de jornalistas, queixou-se que as eleições estavam “muito caras”. Dizia que tinha cabo eleitoral do interior da Bahia cobrando R$ 5 a 10 mil pelos cem votos da sua comunidade. Tempos depois, também em período eleitoral, voltando de Tucano, num ônibus intermunicipal lotado escutei a conversa animada de um grupinho de uma localidade chamada Entroncamento (existem tantos pelo interior do Brasil) que versava sobre o mesmo tema do citado governador. “Ah, tem aparecido muito candidato lá em Entroncamento, mas já falei que por menos de 5 mil não tem voto pra ninguém”. Eu, ingenuamente, fui perguntar a um representante do Ministério Público por que não se apurava a compra de votos e ele incontinenti respondeu que era difícil de provar. Será?

Houve um Procurador Regional Eleitoral rígido que me lembro na Bahia, Sidney Madruga. Era o terror dos maus políticos. Cometeu delito ele denunciava, jogava duro e quando o sujeito o procurava para contemporizar ele dizia sorrindo, “é, amigo, no seu caso não tem jeito não”. A compra de votos é tão escancarada que, em 2012, ocorreu na Bahia um daqueles casos dignos de integrar o Febeapá, o famoso Festival de Besteiras que Assola do País do saudoso Sérgio Porto, o inesquecível Stanislaw Ponte Preta e, quis o destino, que a Procuradoria Eleitoral fosse, na época, comandada por Madruga. Um candidato a prefeito foi acusado por 29 eleitores de ter comprado seus votos com cédulas falsas e cheques pré-datados sem fundo. Perplexo, o procurador explicou que os eleitores caloteados também seriam denunciados à justiça, mas poderiam ter suas penas atenuadas se colaborassem com a investigação.

Com os R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral, do dinheiro dos impostos (ou seja, do nosso dinheiro) distribuídos, este ano, para os 30 partidos políticos é desnecessário enganar os cabos eleitorais com dinheiro falso. Mas, certamente, como sempre vem ocorrendo nas últimas eleições, vamos presenciar, uma ínfima parcela dessa dinheirama, aprendida pelas autoridades atravessando os rincões do Brasil nas tradicionais malas e pacotes de cédulas. E, talvez, sejam revelados novos locais insólitos em que esses mensageiros da classe política tentam esconder a grana, como já o fizeram em cueca, livros falsos, motor de carro entre outros. Se alguém pergunta quando as coisas vão mudar no Brasil, me vem logo à mente aquele tipo de mudança escrita por Giuseppe de Lampedusa no seu livro Il Gattopardo, “é preciso mudar para tudo permanecer igual”.

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Escritor, jornalista e pesquisador