Por José Armando Nogueira
Evidente que nada contra o cinema. Assistindo agora a um desconhecido telejornal, numa emissora pouco vista:Brasil News, fiquei inquieto com a manchete: “Ítaca espera mais turistas depois de Odisséia.” O poema de Homero tem mais de 2.800 anos, após ser transmitido oralmente, conforme tradição, por alguns séculos. Só ganhou o papiro, aproximadamente um século depois de sua criação.
Daí flutua até a modernidade do papel. Graças a Gutemberg e sua engenhoca, o poema chega até nossos dias, com a evolução gráfica e editorial, em variadas e copiosas tiragens. Ilustradas, coloridas, e preto e branco, em I ou II tomos. Então, era de se esperar que a tradição da leitura se tornasse a grande força propulsora da motivação de conhecer Ítaca, na Grécia.
Que nada! Os moradores dessa épica ilha botam fé no cinema de Nolan. Como se orassem ao deus Pôseidon pela ventura das barcas turísticas chegarem ao panteão da glória do comércio. Eu acho estranho que o cinema passe à frente da literatura como 📖 agente motivador. Quando nada, por esta que é reverenciada como a obra prima da Humanidade literária.
Ah! Se Homero, como o fez Odisseu, pudesse voltar do Hades, quem sabe ele, em vez de procurar um cíclope para queimar seus olhos, ficaria apenas triste. Contaria choroso, nos braços do amigo Eumeu, que levara décadas compondo o poema, e tudo que queria era promover sua Ítaca. Em palavras declamadas.
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Escritor e publicitário
