Por Antônio Lins
Há poetas que escrevem versos. Há outros que escrevem para a eternidade. Vinicius de Moraes pertence a essa segunda categoria.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1913, e falecido em 1980, Vinicius construiu uma das obras mais singulares da literatura brasileira. Começou muito jovem na poesia, publicou O caminho para a distância em 1933 e, ao longo da vida, transitou com extraordinária liberdade pela poesia, pelo teatro, pela crônica, pela diplomacia e pela música.
Mas é na poesia que encontro o Vinicius essencial: o homem diante do amor, da morte, da solidão, da mulher, da passagem do tempo e dos mistérios da existência.
Vinicius sabia que a vida é breve. Talvez por isso tenha procurado transformar cada instante em eternidade. Seus versos falam de sentimentos que não envelhecem. O amor que ele cantou continua sendo o mesmo amor de todos nós: contraditório, apaixonado, luminoso e, muitas vezes, doloroso.
Seus sonetos são uma demonstração extraordinária de domínio da língua e da forma poética. A Academia Brasileira de Letras destaca justamente o lugar especial do soneto em sua obra e a força de sua linguagem lírica.
E há uma razão para Vinicius continuar tão presente entre nós: ele conseguiu fazer da poesia uma experiência popular sem diminuir sua grandeza literária.
Foi capaz de aproximar o livro de poemas da mesa de bar, o soneto da canção, a literatura erudita da voz do povo. Ao lado de grandes músicos, participou decisivamente da transformação da música popular brasileira e tornou-se um dos nomes fundamentais ligados à bossa nova.
Sua poesia também conheceu diferentes fases. O jovem Vinicius carregava inquietações religiosas e metafísicas. Depois, sua escrita se aproximou cada vez mais do cotidiano, do corpo, do amor e das experiências humanas. Essa transformação não diminuiu sua poesia: tornou-a ainda mais próxima do coração das pessoas.
É impossível falar de Vinicius sem lembrar seus sonetos, suas elegias, Pátria minha, A rosa de Hiroshima, A arca de Noé e tantos outros poemas que atravessaram gerações. Sua bibliografia revela uma obra extensa, que permanece viva e continuamente reeditada.
Vinicius foi chamado muitas vezes de “poetinha”, expressão que, embora afetuosa, não dá a dimensão de sua grandeza. Como observou o crítico Ivan Junqueira, é preciso reconhecer a condição de grande poeta daquele que soube levar sua experiência pessoal para uma dimensão universal.
E talvez esteja aí o segredo de sua imortalidade.
Vinicius não escreveu apenas sobre o amor que viveu. Escreveu sobre o amor que todos nós conhecemos. Não escreveu apenas sobre a morte que um dia o alcançaria. Escreveu sobre a angústia de todos os homens diante do tempo.
Por isso seus versos continuam caminhando pelas ruas, pelas salas, pelos livros e pelas canções.
O poeta morreu, mas a poesia ficou.
E enquanto houver alguém apaixonado, alguém sofrendo uma despedida, alguém contemplando uma noite estrelada ou simplesmente procurando palavras para dizer aquilo que sente, Vinicius de Moraes continuará vivo.
Porque alguns homens passam pela vida.
Os verdadeiros poetas permanecem.
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Poeta, escritor e dramaturgo.
*Artigo publicado na FOLHA DE S.PAULO, em Dezembro de 1980

