O número de mortos nas devastadoras enchentes e deslizamentos que atingiram a região da fronteira entre o Nepal e a China já ultrapassa 800. A tragédia, provocada por fortes chuvas e pelo colapso de uma geleira no Himalaia, deixou ainda mais de 3 mil pessoas desaparecidas e mobiliza milhares de agentes em uma corrida contra o tempo para localizar sobreviventes.
No Nepal, as autoridades registraram centenas de mortes e cerca de 2,5 mil desaparecidos. Na região do Tibete administrada pela China, foram confirmadas 16 mortes e outras 546 pessoas continuam desaparecidas. Entre os desaparecidos no lado chinês estão 261 estrangeiros de 23 países.
As autoridades nepalesas informaram que quase 20 mil integrantes das forças de segurança foram mobilizados para as operações de busca, resgate e assistência. Milhares de pessoas já foram retiradas das áreas atingidas, enquanto helicópteros e equipes terrestres tentam alcançar comunidades isoladas pela destruição de estradas, pontes e outras estruturas.
O desastre atingiu principalmente áreas montanhosas do Nepal e do Tibete, onde uma enorme quantidade de água, gelo, lama e pedras desceu pelos vales, arrastando casas, veículos, pontes, escolas e instalações de projetos hidrelétricos. O fenômeno também provocou grandes danos em importantes rotas de ligação entre os dois países.
As operações de resgate enfrentam condições extremamente difíceis. O mau tempo, o terreno acidentado e o risco de novos deslizamentos e inundações dificultam o acesso das equipes às regiões mais afetadas. No Nepal, centenas de trabalhadores de projetos hidrelétricos continuam desaparecidos, muitos deles possivelmente presos em túneis atingidos pela lama e pelos escombros.
Neste domingo, equipes de resgate conseguiram avançar em uma das áreas mais críticas, onde centenas de trabalhadores podem estar presos em túneis de uma usina hidrelétrica em construção. Máquinas pesadas foram transportadas por via aérea para auxiliar na retirada dos escombros. Dois trabalhadores já haviam sido resgatados, enquanto as equipes se preparavam para entrar em um dos túneis com equipamentos de oxigênio e câmeras.
No lado chinês, as autoridades informaram que 261 estrangeiros estão entre os desaparecidos. Eles são de países como Nepal, Índia, Letônia, Estados Unidos e Reino Unido. Pequim informou que as respectivas embaixadas e consulados foram comunicados sobre os desaparecimentos.
A dimensão da tragédia também criou uma crise para a identificação e conservação dos corpos. No Nepal, centenas de cadáveres foram encaminhados para hospitais e centros de atendimento. Como as estruturas de armazenamento disponíveis não são suficientes, autoridades começaram a realizar sepultamentos temporários depois da coleta de amostras de DNA e do registro das vítimas. A medida busca preservar os corpos até que parentes possam ser localizados e a identificação concluída.
Em um dos pontos mais atingidos, no distrito de Chitwan, cerca de 250 corpos aguardavam identificação, enquanto equipes preparavam valas para sepultamentos provisórios. A situação provocou forte comoção no país, especialmente porque os procedimentos tradicionais de despedida das vítimas estão sendo dificultados pela dimensão do desastre.
A Cruz Vermelha estima que mais de 90 mil pessoas tenham sido afetadas pela catástrofe. Além das mortes e desaparecimentos, dezenas de escolas, unidades de saúde, casas, estradas e pontes foram destruídas ou danificadas. O impacto sobre a infraestrutura energética também é significativo, com vários projetos hidrelétricos atingidos.
O desastre reacendeu ainda o debate sobre os efeitos das mudanças climáticas no Himalaia. Cientistas e autoridades vêm alertando para o aumento da instabilidade de geleiras e do risco de deslizamentos e inundações provocados pelo aquecimento da região. A causa exata e a sequência dos eventos que levaram à catástrofe ainda estão sendo investigadas.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, classificou o episódio como o mais grave desastre transfronteiriço registrado entre os dois países nos últimos anos. Segundo autoridades chinesas, a dimensão da destruição e as condições do terreno transformaram as operações de busca e resgate em uma das missões mais complexas já realizadas na região.
Enquanto as equipes continuam procurando sobreviventes, famílias permanecem diante de hospitais, necrotérios e centros de assistência em busca de informações sobre parentes desaparecidos. Para muitas delas, a esperança de encontrar sobreviventes convive com a angústia provocada por uma tragédia que transformou comunidades inteiras do Himalaia em cenários de lama, escombros e destruição.

