Por Gerson Brasil
Telefonema anônimo sacudiu a letargia dos detetives Robson Almeida Filho, 54 anos, e Gaspar Mariano Martinetti, 55. A infame denúncia, um dos prazeres mais bem aquinhoados na praça das multidões, nos sussurros das cozinhas e pelos descendentes de Iago, e acatada sem refutação pelo mouro Otelo, agora escolheu uns metros de calçada, bem distante da delegacia. Ao que parece, o mundo e a birra tornaram-se amantes e, até o momento, não se chegou à resolução dos dois teoremas, nem qual deles é o mais odioso.
Embora os céticos tenham como guia a Bíblia, os dicionários e outrora a Enciclopédia Britânica —, hoje em visível desgraça, assim como “O Tesouro da Juventude” —, o vacui empanturra o medo. Criar figuras, gerar associações, erguer alegorias só acrescenta volume à angústia. No Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, a birra cabe no sujeito recalcitrante e renitente, sem que se saiba se foi escolarizado ou pego no laço. No Littré, o correlato Colère é um estado d’alma, “sentiment d’irritation contre ce qui nous blesse”. “Sentimento de irritação contra aquilo que nos fere.” E o mundo só existe porque inventamos, na falta do que fazer e por não nos atermos ao personagem de Jorge Amado — Navegação de Cabotagem —, que ficava cansado só de ver o amigo trabalhar.

O trânsito, a denúncia e o possível crime contribuíam para a maldição do dia, algemada aos detetives. Antes de chegar ao local, o cigarro havia falhado, tão gravemente como mexer na cena do crime, um dispositivo a sustentar a ciência forense, muitos cursos e seminários e saudações laudatórias em seguida encilhadas em tomos.
A medicina, na Santa Comunhão e sempre mais decisiva, abandonou “A Lição de Anatomia do Doutor Tulp” (Rembrandt), a prova, a garantia jurídica, e se concentrou no exame, no relatório e nas imagens. Médicos, residentes — “follow me” — e o computador compartilham das informações, num falanstério harmônico e audacioso, na circunvizinhança de Sherazade, com grande acerto.
As provas do crime cobrem uma pequena área, igualmente o veredito do júri. Antes de ser capturada pela lei, a prova tinha um frescor juvenil. “Les enfants vont passer les examens et ils n’ont rien à prouver.” As crianças vão fazer as provas e nada há a provar; trata-se de um exercício acadêmico, um ritual, uma cerimônia, l’épreuve da consciência. “Tenho uma tarefa a cumprir.”
Pouca gente se encontrava no local, contrastando com a avassaladora curiosidade e disposições para contar o que os olhos viram. Os detetives foram recebidos — é bom ressaltar, desavisados — com uns metros de calçada, papéis, embalagens plásticas, algumas manchas, uma miserável baga de cigarro e um chiclete, ou o que poderia ter sido.
Sem que fosse dada qualquer ordem, grudou na sola do sapato do detetive mais velho. Duplamente aborrecido — por ter danificado a prova e o solado do sapato, comprado recentemente —, retirou do bolso do paletó o celular e filmou o acidente.
Acionou o gravador do aparelho, colheu ao acaso Maria Almeida de Castro, 78 anos, que parecia nervosa, talvez por temer não ser alcançada como testemunha e por ter muito o que relatar.
— Vi, bem de perto. Estava do outro lado da rua. Não fiz as pazes com as unidades de medição, com as Mathesis, mas sei que havia uma distância e só enquadrei o perfil da ruiva. No exato momento, o ônibus nos deixou sem contato e, quando desapareceu, a ruiva o seguiu, ou alguém se antecipou ao ônibus. “Que faire”?
— A senhora tem certeza de que a mulher era ruiva? Aqui não é o centro da cidade, cheio de jovens descolados e cabeleiras coloridas. A senhora é daltônica e, para completar a cena, intuiu que a mulher era ruiva?
— Não! Não sou daltônica, fui à escola e não frequentei curso noturno. Talvez o senhor esteja querendo recuperar a intimidade com uma antiga colega de classe.
— Senhora, olhe bem para essas fotos e veja se identifica alguém ruivo. Por favor, não tenha pressa. Quer beber água, tomar um café, comer um pastel? São quase cinco horas da tarde e a sombra do almoço se avizinha.
— Não há ninguém ruiva nessas fotos. Cuidado, a charlatanice é crime.
— Senhora, deve estar acontecendo algo incomum: todas essas mulheres das fotos são ruivas. E todas resumidas desaguam na minha ex-mulher. Preste atenção: não são várias mulheres, apenas uma fazendo pose. Queria ser atriz, chegou bem perto. O circo estacionou a lona num terreno baldio; tinha vaga. Substituir a mulher que toda noite era serrada ao meio, estava de câimbra. A desconfiança a tomou de assalto, quis examinar o caixote e a serra, mas não foi possível; era segredo do ofício. Malgrado o infortúnio, aprendeu a lição, mudou-se para os Estados Unidos, trabalhou num posto de gasolina e hoje disputa espaço na New York Stock Exchange, a Bolsa de Nova Iorque. Ocupa cargo de chefia, mas não desistiu da pensão descontada do salário que recebo.
— Detetive, nunca vi sua mulher, não sei os motivos que a levaram a desobedecer os lençóis, mas vi a ruiva desaparecer. Se a Academia de Polícia ensina esses truques e charlatanices como parte do programa de elucidação de crimes, não tenho meios de contestá-la.
— Para modo de observação, prestei concurso para escriturária na Fazenda Pública, alcancei a quarta posição; a quinta coube a um professor de português da rede municipal. A terceira foi reservada para uma mulher, por ter escorregado em 25 décimos. Ficou furiosa. A segunda recebeu abraços da família, mas estava entediada. A primeira colocada nunca apareceu. Era loira, bonita, fumava, bebia uísque, se irritava em alemão e sempre usava meias e vestido comprido. Notava-se que não era da cidade, quem sabe a consequência de um extravio.
Dolores Massaranduba de Castro conseguiu mais do que os 25 décimos com o diretor da autarquia e supostamente se tornou amante — a maldade dessa gente é uma arte —. Não demorou muito e passou a ocupar o lugar de esposa e instituiu regime de terror. Ninguém mais podia se aproximar do diretor. Certa vez, recebeu fortemente uns tapas no rosto e ainda sorriu; a plateia quase foi demitida in totum, mas quem iria fazer os serviços? Massaranduba elaborou outra vingança: mulheres só de vestido ou calças; adeus às blusas decotadas e sutiãs fugidios. Não durou muito; o cargo era rotativo.
Desanimado, o detetive se dirigiu a uma moça, jovem, que mascava chiclete e estava escudada por outras moças a lhe incitar a narrar a aproximação dos fatos.
— Fale logo. A fama sempre aparece de repente, não há um método, e sim a coincidência, a fatuidade, a construção da inocência repentinamente. Foi a saia de Lúcia que a levou ao camarim. Lembre-se de Francis Ponge: “quem esconde seu louco morre sem voz”. Esse detetive só quer escutar mais uma história para colocar no relatório; será arquivado como muitos outros. Mas é uma oportunidade.
— Eu a vi, usava peruca. Tenho uma igual.
— Ruiva?
— Sim. Estava no décimo terceiro andar e não sou míope; visto do alto, todos ficam do mesmo tamanho. Levei os olhos para a praça e, quando voltei, tinha fugido ou desaparecido.
Três anos depois, os dois detetives voltaram ao mesmo lugar porque havia um homem estirado na calçada, ensanguentado. Alguém lhe aplicara uma surra, com eficiência magnífica.
— Qual o seu nome?
— Ainda não recordo.
— Tem documentos?
— Não.
— O endereço é fixo?
— Em Córdoba. “Onde estou, que lugar é este?”
— Você está na Avenida Rebouças, São Paulo. Vamos levá-lo a um hospital para receber atendimento médico. Você está bastante arrebentado. Quem fez isso? Foram várias pessoas?
— Não, foi uma ruiva. Mascava os insuportáveis chicletes, magra, misturava português, espanhol, italiano e francês, se irritava em russo e, na hora de beber café com leite, experimentava também café au lait e caffellatte.
— Uma troca ríspida de palavras e o murro fez o Meridiano de Greenwich tremer, e as pernas dobraram. O grosso salto de uma sandália completou o serviço; a maxila o conteve, mas creio que houve fraturas. Fiquei sem bússola por alguns segundos, mas consegui correr e não sei como vim parar aqui.
— Depois de medicado, vamos lhe dar uma passagem para Córdoba.
— Vocês estão loucos? Vou me declarar expatriado no escritório da ONU; se não der certo, entro para a Cruz Vermelha; se houver problemas, sigo direto para o inferno. Farei companhia às feiticeiras, com a vantagem de que estou obedecendo a Roberto Carlos. Não tiveram a mesma sorte.
Córdoba, nunca mais, há muitas ruivas por lá. Vocês deveriam importar algumas: são bonitas, sabem se defender e atacar, não consomem muito, mas a inquietude é abissal.

