Por Eliecim Fidelis
O Espaço Moebius realizou em 31 de agosto passado uma atividade em comemoração aos cem anos do texto de Freud, A questão da análise leiga, de 1926, coordenada pela psicanalista Sônia Raquel Oliveira. A importância do tema destaca-se, na atualidade, pelo crescimento da oferta de cursos de psicanálise e psicoterapias e, até, pela busca de tratamentos psicológicos em chatbots da inteligência artificial, cujas consequências precisam ser avaliadas.
Trata-se de um dos textos canônicos da psicanálise. Nele, Freud apresenta as bases da formação do psicanalista, sua definição, critérios e matérias específicas, confirmando a ideia do seu artigo de 1919, Sobre o ensino da psicanálise nas universidades, onde ele delineia os três pilares obrigatórios, o conhecido ‘tripé da psicanálise’.
Diferente das obras em que o autor dedicou anos de pesquisa, visando enquadrar sua nova doutrina nos cânones da ciência, o texto em foco foi escrito em trinta dias e nasceu muito mais da experiência, da lealdade e, sobretudo, da coragem de Freud para enfrentar a comunidade médica vienense.
Em meio ao movimento contrário à psicanálise que então jorrava do corporativismo médico, um jovem iniciante, Theodor Reik, foi acusado de charlatanismo por praticar a psicanálise sem possuir o diploma de medicina, ou seja, por ser um praticante leigo. Mas não era essa a visão do pai da psicanálise. Para ele, o médico pode conhecer anatomia, fisiologia e doenças orgânicas, mas isso não significa que conheça os segredos por trás das palavras e que saiba escutar e interpretar os processos psíquicos inconscientes.
Os conceitos de ‘leigo’ e ‘charlatão’, definidos no texto, são logo destronados por Freud. Ele vai além do aspecto legal. Sua tese principal não se prende ao diploma. O importante para ele é o fato de o analista ter recebido ou não a formação especial para a prática analítica. Freud não desqualifica a profissão do médico e, hoje, podemos acrescentar, do psicólogo. Tais formações têm valor indiscutível, mas não preenchem, por si sós, a condição suficiente para a prática clínica e, portanto, não podem reivindicar esse monopólio.
Então, qualquer pessoa pode ser psicanalista? Não. A prática analítica não é tarefa fácil. O trabalho é árduo e a responsabilidade é grande. A defesa da análise leiga veio acompanhada da exigência da formação específica para o psicanalista, que acrescenta ao curso básico outros ramos do conhecimento: a história da civilização, o estudo da evolução, a ciência da vida sexual, mitologia, sociologia, psicologia da religião e a ciência da literatura. E com o retorno a Freud, feito pelo psicanalista francês Jacques Lacan, acrescente-se ainda: a linguística, a lógica, filosofia e topologia. Além disso, o tripé de formação contempla a arte da interpretação de sonhos, o combate às resistências e o lidar com a transferência. E assim, diz Freud, qualquer um que tenha realizado tudo isso não é mais um leigo no campo da psicanálise.
O momento inicial da defesa freudiana da análise leiga teve como destinatários algumas pessoas pontuais, em especial o amigo Reik e a filha Ana Freud. Mas é importante destacar que Freud aproveitou o ensejo para avançar, procurando estender o assunto para o campo geral da psicanálise, generalizando os princípios obrigatórios da formação do analista, o já mencionado ‘tripé da psicanálise’: a análise pessoal, as disciplinas a serem cumpridas, a supervisão dos casos conduzidos pelo iniciante, além de seu engajamento em uma instituição de psicanálise, onde, junto aos pares, poderá testemunhar sua prática.
Escritor e psicanalista – – fidelis.eli@gmail.com

