Por Joaci Góes
Para o amigo Carlos Ratis.
Em sua edição de 21/8, a Tribuna da Bahia publicou a determinação do Tribunal Regional da Primeira Região que obriga o Estado da Bahia a restaurar no curso dos próximos seis meses o Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, casarão por muitos títulos de notável importância histórica para o nosso Estado, incluindo pesadas multas diárias, para a hipótese de descumprimento, prova do descalabro a que chegou a administração estadual em matéria de preservação dos valores de nossa cultura, que vive o pior momento de sua rica História. Basta ver o que vem acontecendo com a preservação de nosso rico patrimônio arquitetônico que tem na morte da jovem paulista, esmagada pelo desmoronamento da cúpula da capela da Igreja de São Francisco, seu maior e trágico símbolo.
Já em 02/5/2019, entidades do porte da Academia de Letras da Bahia, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Universidade Federal da Bahia, Academia Baiana de Educação, Academia de Letras Jurídicas da Bahia, Academia de Letras e Artes do Salvador, Ordem dos Advogados do Brasil, Academia de Ciência da Bahia e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira decidiram apoiar a ideia de instalar na Chácara Boa Vista o Museu da Libertação, aduzindo, para tanto, entre outros, os seguintes argumentos:
1- A Chácara Boa Vista foi a casa onde, por mais tempo, morou Castro Alves – o maior poeta da língua portuguesa, a partir de 1858, quando seus pais para ali se mudaram, deixando a casa da Ladeira do Pelourinho, com o propósito de curar a tuberculose que, no ano seguinte, viria a matar sua mãe, D. Clélia Brasília de Castro Alves. Aí, portanto, foi onde Castro Alves amargou a maior dor de sua genial e sofrida infância;
2- Foi na Chácara Boa Vista onde Castro Alves concluiu seu livro Os escravos, quando ali se instalou, transferindo-se do Hotel onde se hospedara na praça que hoje leva o seu nome, com a atriz Eugênia Câmara, a grande paixão de sua vida;
3- Foi na Chácara Boa Vista que Castro Alves compôs alguns de seus mais famosos poemas, como A Boa Vista, Sub tegmine fagi, Quem dá aos pobres empresta a Deus, Ao dois de julho e outros poemas;
4- Comparadas às homenagens prestadas aos maiores nomes da literatura dos povos, as que a Bahia dedicou a Castro Alves são consideradas modestas, como o batismo com o seu nome de um município; a praça que o governador Seabra batizou com o seu nome, no dia 02 de julho de 1923, centenário da Independência definitiva do Brasil; o Teatro Castro Alves, no Governo Antônio Balbino e o Parque Castro Alves, em torno da casa onde nasceu, criado pelo secretário da Educação, Edvaldo Boaventura, nos governos Luís Viana e João Durval Carneiro, no hoje município de Cabaceiras do Paraguaçu;
5- Das cinco casas onde Castro Alves morou em Salvador, a primeira, no Rosário, à Avenida Sete, onde Júlia Fetal se constituiu na mais famosa vítima de feminicídio, com uma bala de ouro que lhe atravessou o coração, foi demolida para em seu lugar edificar-se um edifício destituído de qualquer significado; a segunda, na Rua dos Passos, é a única que guarda a memória da presença do poeta, dos oito aos onze anos, graças à dedicação dos seus proprietários; a última, ao lado do Museu de Arte Sacra, no Sodré, antigo Ginásio Ipiranga, onde morreu, às 15,30hrs do dia 06 de julho de 1871, aguarda quem lhe dê vida, lembrando o derradeiro suspiro do incomparável aedo;
6- Além de ser a casa onde Castro Alves viveu a maior parte de sua breve existência, a Chácara Boa Vista pertenceu, originariamente, a um dos maiores traficantes de escravos da história do Brasil, criando com o poeta da libertação curioso e atraente contraste. Só esta singularidade seria suficiente para instalar-se ali o Museu da Libertação, pagando-se uma pequena prestação do irresgatável débito que a Bahia contraiu com os nossos irmãos afrodescendentes;
7- Foi na Chácara Boa Vista, transformada em nosocômio a partir de quando a adquiriu o Estado da Bahia, onde passou internada, na mais completa e apaixonada loucura, Leonídia Fraga, a musa infeliz de Castro Alves, conforme título da obra biográfica sobre ela, escrita pela imortal e saudosa poeta Miriam Fraga. Leonídia Fraga, autodenominada a Noiva, trinta meses mais velha do que Cecéu, apelido do poeta, seu companheiro de infância, amou-o de modo tão apaixonado que enlouqueceu, a partir de sua morte precoce. Em O hóspede, considerado por muitos o mais belo poema lírico da língua portuguesa, Castro Alves deu voz, de modo inédito, ao amor não correspondido que Leonídia nutria por ele. Quando a já septuagenária Leonídia Fraga foi encontrada morta em sua cela, no antigo hospício Juliano Moreira, 57 anos depois da morte do seu amado poeta, a trouxinha da qual não se afastava para nada, continha o original dessa poesia única, bem como outras que a ela Cecéu dedicou, em papéis amassados que nosso desleixo para com a memória dos verdadeiramente grandes deixou que se perdessem.
O Governador sequer respondeu. Triste Bahia!

