Por Gildeci Leite
Edison Carneiro nos deixou há 54 anos. Sua partida ocorreu no Dia do Samba, em 2 de dezembro de 1972. Mesmo sendo um homem de seu tempo, o filho do engenheiro Antônio Joaquim de Souza Carneiro soube pensar para além do mais prestigiado circuito intelectual de sua época e tomar partido do povo negro e do axé.

Sobre Edison Carneiro, escrevi no doutoramento e, entre os autores que consultei, está o incansável Gilfrancisco. O baiano, radicado em Sergipe, com sua reconhecida capacidade investigativa, trouxe à luz, com maior solidez, outra face do intelectual negro. Ao resgatar páginas do jornal soteropolitano A Noite, foi possível reunir 31 poemas de Edison, publicados entre 24 de setembro e 27 de novembro de 1928, e dar ao conjunto o título de Musa Capenga. As contribuições de Gilfrancisco, assim como a obra de Gustavo Rossi, abriram caminhos para o meu estudo e, posteriormente, para a produção de Maria Carollina Santos Carvalho, para citar apenas alguns nomes.

Agora soube, pelo próprio pesquisador, residente no estado vizinho, que outro livro a respeito de Edison Carneiro, integrante do movimento literário Academia dos Rebeldes, encontra-se em preparação. Uma das ênfases, talvez a principal, será a contribuição do culturalista e poeta como tradutor de obras do inglês, do francês e do alemão.

Generoso em sua pesquisa, Gilfrancisco traz fontes oriundas de páginas de jornais, incluindo artigos escritos por Edison sobre importantes figuras da literatura baiana, como Jorge Amado e Sosígenes Costa. Ainda sem editora, o livro promete encantar tanto leitores especializados quanto curiosos interessados em nossa cultura. Para o ensino básico, a obra poderá ser de grande valia, desde que devidamente traduzida para a linguagem dos estudantes, tarefa que pode ser realizada com maestria por quem ocupa as salas de aula dos níveis fundamental e médio.

Enfim, aguardemos mais essa contribuição para o estudo de Edison Carneiro e para a cultura brasileira. A cada nova fonte recuperada, amplia-se a possibilidade de compreender a dimensão desse intelectual e sua importante atuação na valorização das culturas negras e de axé. Recuperar esses textos significa devolver ao presente uma parcela de sua trajetória intelectual. A publicação de novas pesquisas e fontes sobre sua produção amplia o debate sobre literatura, tradução, cultura e relações raciais no Brasil e reafirma a atualidade de um autor que dedicou parte de sua atuação ao reconhecimento das manifestações culturais afro-brasileiras. Eu já li os originais, gostei! Agora vamos esperar que alguma editora atenta adote a ideia e pague pela obra ou quem sabe teremos outra produção independente de Gilfrancisco à nossa disposição. Até mais!
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Escritor, Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), sócio do IGHB (Instituto Geográfico e Histórico da Bahia), professor do PPGEL –Uneb @gildeci.leite

