Por Antônio Lins
A Bahia é uma terra tão generosa que consegue construir até aquilo que não existe.
Durante anos, prometeram uma ponte ligando Salvador a Itaparica. A ponte virou promessa, a promessa virou contrato, o contrato virou dinheiro — e a ponte continuou sendo uma espécie de miragem baiana.
Agora, em 2026, começaram os primeiros passos efetivos da obra. A previsão é que fique pronta somente em 2031.
Mas o dinheiro, esse, não esperou pela ponte.
Segundo relatório referente a 2025, o Fundo de Aporte da Ponte movimentou cerca de R$ 730 milhões.
E aí começa a verdadeira comédia.
Porque ponte que não existe já movimenta centenas de milhões de reais. Imagine quando existir!
É o milagre da engenharia financeira: primeiro movimenta-se o dinheiro; depois, se der tempo, constroem-se os pilares.
O projeto nasceu há muitos anos, atravessou governos, discursos, promessas e adiamentos, até chegar ao governo Jerônimo.
Wagner prometeu.
Rui administrou a promessa.
Jerônimo recebeu a promessa.
E o baiano recebeu… a espera.
A pergunta que não quer calar é muito simples: onde está cada real empregado nesse projeto?
Não estou dizendo que houve desvio. Isso cabe aos órgãos de controle, à auditoria e à Justiça apurar.
Mas dinheiro público não pode ser tratado como dinheiro de ninguém.
O governo informa que os recursos têm finalidade específica e que o fundo serve para garantir as obrigações da parceria público-privada.
Muito bem.
Então que se mostre tudo.
Quanto entrou?
Quanto saiu?
Quem recebeu?
Por quê?
Quanto rendeu?
Quanto ainda existe?
E qual é o custo final que o contribuinte baiano terá de pagar?
É o mínimo que se espera numa democracia.
Porque o povo pode até esperar cinco, dez ou quinze anos por uma ponte.
O que não pode é esperar eternamente pela prestação de contas.
E assim seguimos nós, baianos, atravessando a velha ponte da esperança.
De um lado, Salvador.
Do outro, Itaparica.
No meio, a Baía de Todos-os-Santos.
E, por cima de tudo, uma pergunta monumental:
Afinal, onde foi parar a ponte que o pariu?
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Poeta, escritor e dramaturgo
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