Por Antônio Lins
Há poetas que publicam apenas poemas. Há poetas que publicam a própria alma. Maria da Conceição Paranhos, poeta baiana, pertence a essa segunda e rara espécie, aquela que não precisa fazer barulho para deixar sua voz ecoando na eternidade da literatura.
A Bahia, tão pródiga em talentos e tão econômica no reconhecimento de alguns deles, tem em Maria da Conceição Paranhos uma de suas expressões mais altas.
Sua poesia não é um enfeite de salão, desses que agradam aos ouvidos e morrem na saída. É palavra que pensa, sentimento que se rebela, inteligência que procura, na intimidade do verso, compreender os mistérios da existência.
Maria da Conceição é uma dessas escritoras que honram a língua portuguesa, colocando a poesia baiana em diálogo com a grande literatura de nosso idioma.
Ao lado de Mírian Fraga, outra extraordinária poeta da Bahia, ocupa um lugar que merece ser mais conhecido, estudado e celebrado.
Duas mulheres, duas sensibilidades, duas maneiras de enfrentar o mundo pela palavra. Ambas demonstram que a poesia não é um luxo de gente desocupada, mas uma necessidade humana, uma forma de resistência contra a vulgaridade dos dias.
E, no entanto, há uma pergunta que incomoda: por onde anda Maria da Conceição Paranhos?
Sua ausência das publicações deixa um vazio que não se preenche com discursos acadêmicos, homenagens protocolares ou solenidades de ocasião.
A literatura precisa de seus poetas vivos, escrevendo, criando, surpreendendo. Precisa dessa inquietação que transforma a experiência humana em linguagem e faz do verso uma janela aberta para o infinito.
Não sei quais razões levaram Maria da Conceição a se afastar das publicações. Mas sei que o silêncio de uma poeta dessa dimensão não pode passar despercebido.
Afinal, quando uma grande voz se cala, não é apenas a escritora que perde espaço: é também o leitor que fica privado de novas descobertas.
A poesia brasileira já sofre demais com o esquecimento, com a indiferença editorial e com a mania de transformar o efêmero em celebridade, enquanto obras de verdadeiro valor esperam pacientemente por leitores.
Maria da Conceição Paranhos merece outra sorte. Sua obra precisa continuar circulando, provocando interpretações, despertando emoções e conquistando novas gerações.
Porque a literatura não se mede pelo número de aparições públicas, mas pela força com que uma obra permanece dentro de nós.
E a Bahia, que tantas vezes se orgulha de seus escritores depois que o tempo os consagra, deveria aprender a reconhecê-los também enquanto ainda podem oferecer ao mundo novas páginas.
Que Maria da Conceição Paranhos volte a publicar, se assim desejar. Que sua poesia encontre novos caminhos e que seus leitores possam reencontrar essa voz singular.
Não se trata de cobrar produtividade de uma artista, mas de reconhecer a importância de uma obra que merece permanecer viva.
Afinal, há silêncios que pertencem à vida privada; outros, quando envolvem uma poeta de grandeza, tornam-se motivo de saudade coletiva.
E nós, leitores da poesia baiana, sentimos falta de Maria da Conceição Paranhos.
Sentimos falta de sua palavra, de sua inteligência, de sua maneira particular de transformar a vida em literatura.
Que a poesia não seja obrigada a pedir licença para existir.
E que a Bahia não deixe no esquecimento uma de suas grandes poetas.
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Poeta, escritor, jornalista e dramaturgo
*ARTIGO PUBLICADO EM 2006, NO JORNAL DE POESIA

