Os vendedores de fumaça

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Por Biaggio Talento

No período eleitoral deste ano os brasileiros imaginaram que, com a terrível sessão do STF do dia 15 de setembro convocada para discutir a possibilidade de se abrir uma investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes por suas supostas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, o país tinha chegado ao fundo do poço. Presenciou-se ali o esgarçamento de uma instituição fundamental para manter a estabilidade da vida nacional. Mas o primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, realizado ontem mostrou que a política ainda é capaz de cavar mais fundo diante do festival de acusações e agressões mútuas e propostas difíceis de se acreditar sem o mínimo de detalhamento de como serão efetivadas.

Em pleno 2026, sentenças, provérbios e máximas registradas há séculos e milênios por pensadores clássicos podem ser resgatados para permear o que se viu no debate e na própria atividade política atual. Fiquemos primeiramente no item “promessas”. Maquiavel, na sua obra “O Príncipe”, considerado uma espécie de manual político, publicado em 1515, recomendava ao governante ou ao aspirante ao cargo de chefia descumprir suas promessas a depender das circunstâncias. “Um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavra, quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desaparecem as causas que o levaram a empenhá-la”. Isso autoriza o lançamento no ar das propostas mais mirabolantes que o público deseja ouvir. Mas, quando a realidade se impõe, ensina Maquiavel que “jamais faltarão a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra”. Ensinamento seguido à risca até os dias de hoje pela classe política.

Bem antes de Maquiavel, Catão (político romano da Antiguidade) tinha como dístico “pouca fé se deve dar a quem muito fala”. Contemporâneo de Catão, Terêncio já avisava que “nada é mais fácil que falar”, o avô do nosso conhecido “dizer é fácil, fazer é que são elas”. Horácio, outro pensador romano pretérito reforçou: “não se confia em quem muito promete”. Helenita Hollanda registrou no seu tratado “Como diz o ditado” uma versão brasileira: “quem muito fala, muito mente”. Se o cartaginense Apuleio presenciasse o embate de ontem, talvez soltasse uma de suas máximas famosas, que os candidatos estariam “vendendo fumaça”.

Em relação ao festival de acusações mesmo que os dois adversários as negassem com ar de indignação, alguma coisa sempre fica pairando. O grego Plutarco, que viveu no primeiro século depois de Cristo ao afirmar quer “calúnia ousada, sempre alguma coisa fica pegada” contou a recomendação de Médio, um adulador de Alexandre Magno: “atacar e morder sem medo com calúnias” pois, mesmo que a vítima conseguir curar a ferida, “de qualquer modo fica a cicatriz”.

Se o debate teve a função de ajudar quem ainda não escolheu um candidato, depois do que se viu ontem à noite, não será surpresa se o índice de indecisos aumentar no segundo turno.
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Escritor, jornalista e pesquisador