Por Eliecim Fidelis
Este texto pode soar um tanto contraditório, já que o tema se situa no campo da ambiguidade. Nada de novo nesse advento eleitoral polarizado. Começo com “meus oito anos”, de Casimiro, em contraponto aos meus oitenta, para registrar que as incertezas da “aurora de minha vida” reacendem em seu ocaso.
Não sou militante partidário, mas não deixo de ser um cidadão da pólis. Não me considero mais um economista, mas o diploma da gaveta ainda pulsa e não foge das colunas econômicas.
Não há como negar os equívocos do governo, a visão segmentada que se explica mas não justifica. Não soube medir as consequências da perda de visão da sociedade como um todo. Está pagando o preço de não ter agido a tempo em iniciativas relevantes. Corre atrás do prejuízo.
O candidato líder das pesquisas passa a visão de que “entregará tudo” aquilo que parte da sociedade cobra do governo. Suas propostas, porém, não guardam coerência. Promete reduzir impostos, o que implica reduzir receitas. Ao mesmo tempo promete manter intocáveis os programas sociais do governo e até criar novas vantagens para o povo. E o ‘tesouraço’ anunciado de 250 bi recairá sobre o quê? Nada é claro.
Por outro lado, desde a publicação de “Como as Democracias Morrem” (₁), sabe-se que as democracias modernas não são derrubadas por golpes ou revoluções. São destruídas pelos próprios políticos eleitos. Para preservar a faixada democrática, tais líderes autoritários usam as próprias leis, o parlamento e o sistema eleitoral para enfraquecer as demais instituições, como o Supremo Tribunal, a imprensa e os órgãos de fiscalização. E tudo é feito de modo que não pareça haver uma quebra constitucional.
Dado o histórico do candidato, que, se eleito, poderá ter amplo controle das instituições, cabe a pergunta: será que seu suposto governo ficará apenas no autoritarismo disfarçado? Ou não tardará a buscar o desejo expresso no seio familiar? Para evitar notícias dúbias, recorri a uma das cinco ferramentas mais seguras da IA: Google Gemini. Pergunta: algum político brasileiro atual falou em novo AI-5 no Brasil? Se sim, qual foi o contexto? Resposta: “Sim, houve. O deputado federal Eduardo Bolsonaro mencionou essa possibilidade em uma entrevista concedida à jornalista Leda Nagle. Ao analisar as manifestações de rua que ocorriam no Chile e as chances de protestos semelhantes no Brasil, ele declarou: ‘Vai chegar um momento em que a situação vai ser igual ao final dos anos 60 (…). Se a esquerda radicalizar (…), a gente vai precisar ter uma resposta. E a resposta pode ser via um novo AI-5…’”.
O espaço não permite alongar, mas resta a questão:
Há algum indicador que garanta o contrário da volta do despotismo no Brasil?
(1)-Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Como as Democracias Morrem (2018).
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Escritor e psicanalista e escritorfidelis./eli@gmail.com
