Por Gerson Brasil

Estávamos no meio, o casamento acabou antes, até as formigas reclamaram da perda de tempo, perda de tempo; Glória e Sandoval não só concordaram com a multidão, como percorreram todas as pragas. Algumas queriam fugir, mas logo foram admoestadas e distribuídas gratuitamente. Houve quem se servisse quatro vezes. Os lacônicos, porra. Era de graça, no momento apropriado, sem que houvesse necessidade de falar baixo, proceder a conluio ou espertamente combinar com alguém, como Madaleine Amora de Castro, vigiada por um vestido de cetim, pérolas nas orelhas, o famoso anel da família e a implacável tessitura de palavras inapropriadas para falar com motoristas insolentes. “São muitos, parece que não leram a Bíblia ou não sabem urinar”.
— Que chova, Deus!
Foi o suficiente. Nem os sets de filmagens poderiam encenar melhor. A claridade cedeu. O buffet, bem situado a noroeste dos granulados potes de flores e próximo de um carro de madeira contendo pequenas mudas, talvez pertença ao esquecimento do jardineiro, ou queria participar da festa, ou insistiu com o narrador, oferecendo um enquadramento inarrável, ou porque tratava-se de um carro de madeira e as mudas chegaram depois e, como não tinham para onde ir, permaneceram quietas, amedrontadas e felizes por estarem no lugar certo?
Antes tivessem coberto o local do casamento com uma lona. Confiaram na natureza. Um teto baixo, de chumbo e de muita chuva, sem pressa de desfigurar os cabelos e impingir uma surra nos vestidos e nos ternos, acenava de todos os lados; parecia divertir-se na companhia dos ventos, borrifava frio e consistente. Naira de Almeida Prado se esforçava para manter a dignidade do vestido.
— Deus tenha piedade. Como vou devolvê-lo à loja de madame Florentina? E veja como estão as flores: choram. É uma situação a elidir descrição, não se compara à doce solidão, triste daqueles lugares não habitados pelo Senhor, a guardar lembranças impiedosas, vulgares, destemidas, de súbitas afrontas e calientes.
— Foram dois mil dólares. Vou repetir, dois mil dólares, quem sabe alguém enseje em escrever um artigo, um paper, receba aplausos e comece a carreira de escritor numa revista, ganhe um travestimento, milhões de dólares e se dedique a fabular orientações que possam pausar a raiva e o processo de madame Florentina. As desculpas não serão suficientes, mesmo que o vestido seja refeito na lavanderia da Sra. Ching Lee, a todo vapor.
Algumas pessoas tentavam se proteger com as toalhas arrancadas do buffet, mas o vento as tornava um joguete, as empurrava para o norte, noroeste, escandia um sul de lágrimas, lamúrias. O zumbido e as rajadas de água fina tornaram as taças desprezíveis, agora agonizando no chão, quebradas, na companhia do bolo de 1 metro. Tombou. Tentou resistir, mas um vento cruzado o golpeou como se fosse um boxeador amador que teria visto a tentativa de Floyd Patterson resistir a Muhammad Ali, no Las Vegas Convention Center, em 1965. Perdeu no 12º assalto.
Um terreno ao lado da casa da senhora Guss ofereceu a poeira, obrigando as pessoas a fechar os olhos, colidir umas contra as outras e dispensar as imprestáveis empadas, encomendadas há três meses. Exibia um certificado de uma école de gastronomia. Como o casamento foi pensado em comunhão com a natureza, não havia como as pessoas se defenderem: era a santa humilhação e a humilhação santa. Era como sentar a beleza no colo e amaldiçoá-la. Não havia possibilidade de acordo. Estava posto.
A quase unanimidade era o ardente desejo de encontrar Maria Zamora. Não escreveu carta, como fazem os suicidas, os grandes escritores, os apaixonados e gente que não tem o que dizer, mas se acha na condição de perpetrar o écrit. O título de doutor às vezes é insuficiente, como também o posto de presidente, as vestes sacras da irmandade e do clube cultural.
Pernas finas e longas, parecia estar fixada num quadro, mas o carpinteiro errou as medidas, substituiu o retângulo por duas paralelas de 1,80 metro, separadas por 29,8547630 centímetros, com vestido encolhido, monolítico, ocre, mangas curtas, como também a paciência. Qualquer que fosse a situação, não argumentava. A intervenção era sempre curta e direta.
— Je ne sais pas.
Era querida pelo clube, isto é, as pessoas que frequentavam o restaurante e bar La Lune, nas noites e nos almoços. As mesas traziam toalhas e bebia-se de tudo, e em qualquer quantidade. Dispensavam o zelo pela saúde ou o medo de o sapato não se fixar bem na calçada. Mas não se podia fumar; o dono do estabelecimento contraiu tuberculose e a culpa recaiu sobre o cigarro. Não sabia explicar como chegou a tal conhecimento, se por conta própria ou se leu em algum livro de medicina, ou algum tratado antigo do século XVI, ou simplesmente leu no jornal na coluna “Infância e velhice de mão dadas, maldosamente”. Não era assinada, a irritar mais ainda o leitor. Trazia conselhos como, não beba, mas dificilmente conhecerás as volumosas coxas de Margarida Elizabeth Torreão, motivo de orgulho e cobiça; você nem entrará na fila. Parvo. Se afaste das gorduras e da carne, mas ouça a performance de Salomão, escolhido por Deus para ser rei, possuiu mil mulheres, sendo 700 esposas e 300 concubinas.
Mas dono e sabedoria bastavam. Havia uma vantagem. O batom das mulheres, especialmente o de Zamora, se postava hirsuto, por mais que se bebessem várias doses de uísque; o vinho tinha presença discreta, às vezes o Martini dava as boas-vindas. O ex-futuro marido, George Gurgel, tinha sido aconselhado por Ester Dias Flores a não compartilhar estadia com Zamora. Olhou para a inveja e seguiu em frente. Colheu ensinamento aleatoriamente e o dividiu em vários módulos para melhor apreensão, já pensando em usá-lo posteriormente, quem sabe com júbilo ou desastre; mesmo escandido na vizinhança, não traria sabor de amoras bem escuras, colhidas entre setembro e dezembro.
— Não é a desilusão que dói; alguns uísques, batatas grelhadas, costela de porco assada e o tédio do mar e das nuvens adormecem a carne. Percorrer o caminho até a desgraça exige ideias bem elaboradas e parvas sobre o destino do trem, quando nem mesmo há ferrovia.
Maria Zamora e o isqueiro de Parma foram encontrados na casa de Odette Cruz de Almeida. O cigarro havia sumido, muita dificuldade para encontrar a carteira. Almofadas voaram, olhos percorreram as estantes, o sofá, as poltronas; teria se escondido na bolsa? Era grande, um elefante bem fatiado se acomodaria a contento.
— De que vale a vontade de fumar se não há cigarro? O isqueiro teria melhor utilidade nas mãos das crianças, acendendo e apagando, melhor do que as histórias contadas pelas avós. Se o cigarro não consegue ser eficiente, um casamento com todas as felicidades aguardadas não abole o poste. Maria Zamora, neurocirurgiã, caminhou até a esquina, subiu no ônibus e leu as paisagens, como se estivesse vendo o álbum de fotos do casamento, um pouco amarelado.
— O fotógrafo fora desleixado.
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Escritor, jornalista e historiador
