Por Victor Pinto
Há uma tentação recorrente em Brasília que é simplificar derrotas complicadas e chamativas apontando um culpado único. Depois dos reveses recentes no Congresso, com a rejeição do nome de Jorge Messias para o STF e a derrubada do veto da dosimetria, esse papel recaiu, quase automaticamente, sobre o senador e líder do governo Jaques Wagner (PT). É compreensível, pois ele ocupa a vitrine da articulação no Senado, mas, na minha opinião, é uma leitura apressada e conveniente demais.
Repare bem. O que aconteceu não foi um erro isolado de condução política, mas a exposição de um ambiente legislativo que mudou de natureza. O Congresso atual não responde mais aos antigos comandos lineares. A lógica é outra: está mais fragmentada, mais personalizada e com forte autonomia dos blocos. Nesse terreno, a articulação não depende apenas de habilidade individual, mas de uma engrenagem mais ampla, que envolve ministérios, liberação de agendas e, sobretudo, capacidade de coordenação política contínua.
Wagner virou o foco porque está no posto mais visível e isso se explica pela lógica de que a derrota no caso Messias já indicava um desalinhamento entre a expectativa do governo e o humor real do Senado. A votação da dosimetria, no dia seguinte, apenas consolidou esse diagnóstico de que o governo ainda não estabilizou sua base em temas sensíveis.
É aí que mora o equívoco das críticas mais duras: porque mirar exclusivamente em Wagner, ignora-se que a articulação política não se faz de forma isolada, ela é compartilhada, difusa e, muitas vezes, atravessada por disputas internas no próprio campo. Não tem lugar que exista liderança capaz de garantir resultado quando o ambiente institucional empurra na direção contrária.
Além disso, é preciso colocar Wagner no seu devido lugar na história recente. Ao lado de Rui Costa, ele é uma das principais engrenagens do lulismo no Nordeste. Um quadro com densidade política acumulada, testado em diferentes funções e com trânsito reconhecido no Congresso e essa trajetória não desaparece por duas derrotas.
Entendi que a cobrança pode até ser legítima, sempre será. Mas, convenhamos, transformá-la em tentativa de isolamento político beira o erro estratégico. Chegam, nas redes sociais, até a pedir expulsão do galego do PT. Me bata um abacate! No fim das contas, enfraquecer quem articula não resolve o problema da articulação. Apenas aprofunda. A conferir.


