Por Eudo Freitas
Este artigo explora a trajetória histórica e cultural da tradicional Lavagem de Arembepe, localizada no município de Camaçari, Bahia. Desde suas origens humildes na década de 1930 como uma procissão religiosa de pescadores em devoção a São Francisco de Assis, a celebração evoluiu significativamente, incorporando elementos de festas populares baianas e transformando-se no grandioso Festival de Arembepe. A pesquisa detalha a transição de um ato de fé local para um evento de grande porte, analisando as mudanças em seu percurso, participantes e significado cultural ao longo de mais de sete décadas.
A Lavagem de Arembepe representa um fenômeno cultural e religioso de grande relevância no cenário das festas populares da Bahia. Nascida da profunda fé de uma comunidade pesqueira, esta celebração transcendeu suas raízes devocionais para se tornar um dos eventos mais aguardados do litoral norte baiano. Este estudo propõe uma análise diacrônica da Lavagem de Arembepe, desde sua concepção na década de 1930 até sua configuração contemporânea como um festival que atrai dezenas de milhares de pessoas. Serão abordados os aspectos religiosos, sociais e culturais que moldaram sua evolução, destacando a permanência de elementos tradicionais em meio à modernização e comercialização da festa.
A história da Lavagem de Arembepe remonta à década de 1930, período em que Arembepe era uma pequena e isolada vila de pescadores. A vida da comunidade era intrinsecamente ligada ao mar, e a fé desempenhava um papel central na busca por proteção e prosperidade. Foi nesse contexto que os pescadores locais iniciaram procissões em louvor a São Francisco de Assis, o padroeiro da localidade. Embora São Pedro seja universalmente reconhecido como o padroeiro dos pescadores, no Litoral Norte da Bahia, São Francisco de Assis é amplamente venerado pelas colônias pesqueiras, simbolizando a proteção à natureza e aos animais. As primeiras manifestações da Lavagem eram atos de fé simples, consistindo em caminhadas religiosas pelas ruas da vila. Após as procissões, os pescadores e suas famílias se reuniam para confraternizar, com música de charangas (bandas de instrumentos de sopro), cantos e danças. A Igreja de São Francisco de Assis em Arembepe, fundada em 1902 e mantida por doações da produção pesqueira, servia como um dos pontos centrais dessas celebrações. O percurso tradicional da procissão iniciava na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na comunidade da Volta do Robalo, e seguia até a Igreja de São Francisco de Assis, na Praça das Amendoeiras, percorrendo aproximadamente 2 km.
Ao longo das décadas, a Lavagem de Arembepe passou por um processo de evolução que a transformou de uma procissão religiosa em uma festa popular de grande envergadura. A partir dos anos 1970, a festa começou a incorporar elementos mais seculares, com a introdução de trios elétricos e a participação de grandes bandas, o que marcou uma descaracterização do caráter bucólico original . Arembepe, que já havia ganhado notoriedade internacional na década de 1960 como a Aldeia Hippie, atraiu um público diversificado, incluindo turistas e hippies, que se juntaram aos nativos nas celebrações.Um dos marcos da festa era o“Baile dos Coroas”, realizado na segunda-feira após a lavagem. Este evento, que acontecia na Praça dos Coqueiros, era um momento de confraternização romântica e familiar, com serestas e danças. Atualmente, embora ainda exista, o baile tem visto uma mudança no perfil de seus frequentadores, com a presença crescente de jovens e uma menor formalidade nas vestimentas e comportamentos.
A Lavagem de Arembepe insere-se no rico calendário de festas populares da Bahia, marcando tradicionalmente o encerramento do ciclo de lavagens de Camaçari e do verão baiano, geralmente em março, cerca de 15 dias após o Carnaval. Este ciclo é caracterizado por uma forte presença do sincretismo religioso, onde elementos católicos se entrelaçam com manifestações de matriz africana. O cortejo da Lavagem de Arembepe, por exemplo, incorpora a presença de baianas, que realizam a lavagem das escadarias com água de cheiro, além de grupos de afoxé e charangas, enriquecendo a dimensão cultural da festa. As lavagens, em geral, são celebrações que refletem a diversidade cultural e religiosa da Bahia, com procissões que muitas vezes se transformam em cortejos festivos, unindo fé e folia. A participação de blocos como os Filhos de Gandhy, embora não explicitamente mencionados como parte da Lavagem de Arembepe em sua origem, é um elemento comum em festas populares baianas, simbolizando a resistência e a tradição afro-brasileira.
Nos dias atuais, a Lavagem de Arembepe transcendeu sua identidade original para se tornar o ponto alto do Festival de Arembepe, um dos maiores eventos da região, atraindo um público massivo que pode variar de 80 mil a 200 mil pessoas por dia. Essa transformação trouxe consigo um impacto significativo na economia local, movimentando o comércio, mas também gerando desafios como a inflação dos aluguéis e a saturação da infraestrutura da vila durante os dias de festa. Apesar da massificação e da comercialização, a festa ainda mantém uma atmosfera que, para muitos, preserva o espírito hippie e rústico de Arembepe, resistindo por gerações e permeando suas ruas e a identidade de seus moradores e visitantes. No entanto, a procissão religiosa original, que era um ato de fé e devoção, por vezes é ofuscada pela presença de políticos e seus correligionários, buscando prestígio local, e as charangas foram substituídas por trios e mini trios, com palcos multiplicados para acomodar a multidão.
A Lavagem de Arembepe é um exemplo notável da dinâmica cultural brasileira, onde a tradição religiosa se encontra e se transforma com a efervescência das festas populares. Suas origens na devoção dos pescadores a São Francisco de Assis na década de 1930 lançaram as bases para uma celebração que, ao longo do tempo, incorporou novos elementos e se adaptou às demandas de um público crescente. A festa hoje é um complexo mosaico de fé, cultura, música e economia, que reflete a rica tapeçaria social de Camaçari e da Bahia. Compreender sua evolução é fundamental para valorizar não apenas a história de Arembepe, mas também a capacidade de adaptação e ressignificação das manifestações culturais populares no Brasil.
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Escritor, pesquisador e engenheiro
