A rachadura anunciada ao vivo

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Por Mário Kertész

Durante 21 anos, Salvador não escolheu quem a governasse. De 1964 em diante, o prefeito da capital era nomeado: o governador indicava, os militares homologavam, e a cidade recebia. Não havia campanha, não havia palanque, não havia derrota. Havia despacho de gabinete.

Isso terminou em 1985. Com a eleição indireta de Tancredo Neves, as capitais recuperaram o direito de escolher seus prefeitos. Eu me candidatei, já rompido com ACM e já no PMDB, e ganhei.

Ao final daquele mandato de três anos, quis eleger meu sucessor. Meu primeiro nome não foi Fernando José. Foi Gilberto Gil.

Gil estava ali, à mão, meu auxiliar que coloquei presidindo a Fundação Gregório de Mattos. Popular sem ser demagogo, culto sem ser antipático. Salvador teria eleito prefeito um compositor negro no auge da obra, 24 anos antes de ele virar ministro. Waldir Pires não quis. Não achou graça nenhuma. Gil desistiu e rompeu com o governador. Partido não escolhe o que é bonito; escolhe o que é controlável.

Veio então Fernando José, o homem do Balanço Geral, que a cidade ouvia todo dia. Escolhi, banquei e botei na rua contra o candidato do governador, que era do meu próprio partido e apoiava Virgildásio de Senna, recém-saído do PMDB para fundar o PSDB. Virgildásio reuniu a esquerda inteira e a máquina do estado. Perdeu, em 15 de novembro de 1988.

Entreguei a prefeitura e, em menos de três meses, ele já me havia traído. Chegou a me processar. Péssimo prefeito. Abriu a porta para Lídice da Mata, que também não se saiu bem, enfrentou a pesada máquina carlista, e o pêndulo voltou: Imbassahy eleito e reeleito com a máquina carlista no auge. E aqui começa o que interessa.

A sucessão de Imbassahy encontrou o carlismo dividido. ACM escolheu César Borges, ex-governador da Bahia, candidato à prefeitura. Escolheu sozinho. Não conversou com o governador Paulo Souto. Não conversou com o prefeito Imbassahy. Anunciou numa entrevista que eu fazia com ele, no meu programa da Band. Terminado o programa, ACM me pediu que o ajudasse junto a Souto e a Imbassahy. Eu era o rompido de 20 antes, chamado para costurar o que ele mesmo rasgara ao vivo. Não deu. Souto e Imbassahy cruzaram os braços. Não trabalharam contra: bastou não trabalhar. E João Henrique, deputado medíocre, chegou ao Thomé de Souza por vácuo, não por virtude.

Quando o chefe manda, ninguém desobedece e ninguém cumpre, o chefe já não manda. Dois anos depois, Jaques Wagner derrotou Paulo Souto no governo da Bahia. Trataram aquilo como terremoto. Não foi. O terremoto tinha sido em 2004, na eleição municipal, e quase ninguém quis ouvir o barulho. Há ainda uma ironia final. Desde 1985, o PT teve candidato a prefeito de Salvador em todas as eleições, próprio ou aliado. Nunca ganhou. Conquistou o estado sem nunca conquistar a capital, o que diz mais da fragilidade dos adversários do que da força do vencedor. Foi assim que a Bahia mudou de mãos: não por uma derrota, mas por uma rachadura anunciada ao vivo, num estúdio de televisão, diante de um entrevistador que já sabia o que aquilo significava.

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Escritor, radialista, apresentador e ex-prefeito de Salvador
Do Metropole