Por Hieros Vasconcelos
A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) completa 96 anos no próximo dia 17 de agosto carregando uma história que atravessa boa parte da vida política, social e cultural da Bahia. Criada em 1930, em um período de profundas transformações no país, a entidade acompanhou mudanças de regime, momentos de autoritarismo, processos de redemocratização e as sucessivas transformações pelas quais passou o jornalismo. Ao longo de quase um século, também viu os jornais impressos dividirem espaço com o rádio, a televisão, a internet, os portais, as redes sociais e, mais recentemente, a inteligência artificial.
A comemoração deste ano ocorre ainda sob um marco que modifica a própria história da entidade. Pela primeira vez desde sua fundação, uma mulher ocupa a presidência da ABI. A jornalista Suely Temporal assumiu o comando da instituição para o triênio 2025-2028 e conduz a entidade a seis anos de seu centenário, previsto para agosto de 2030. Mais do que uma mudança na composição da direção, a chegada de uma mulher ao principal posto da associação representa, para ela, o resultado de uma trajetória construída por diversas gerações de jornalistas que ajudaram a consolidar a imprensa baiana.
A ABI nasceu em 17 de agosto de 1930, quando jornalistas se reuniram em Salvador para criar uma entidade voltada à defesa da categoria e da liberdade de imprensa. Pouco tempo depois, o país mergulharia em um período de forte instabilidade política. Nas décadas seguintes, a instituição atravessaria diferentes momentos da história brasileira, mantendo entre suas bandeiras a defesa da liberdade de expressão, do direito à informação e da democracia. Hoje, aos 96 anos, a entidade precisa lidar com desafios que sequer existiam quando foi criada.
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Para Suely, é justamente a capacidade de atravessar essas mudanças sem abandonar seus princípios que explica a permanência da ABI. Em entrevista à Tribuna da Bahia, a presidente fala sobre a trajetória da instituição, os desafios impostos pelas redes sociais e pela desinformação, a responsabilidade do jornalismo, a importância da pluralidade, a chegada de uma mulher à presidência e os projetos que pretende deixar encaminhados para que a ABI chegue aos 100 anos fortalecida.
Liberdade de imprensa como compromisso histórico
Ao avaliar o papel desempenhado pela ABI ao longo de quase nove décadas e meia, Suely destaca que a instituição atravessou períodos democráticos, momentos de autoritarismo, crises políticas e profundas transformações sociais e tecnológicas. Em diferentes circunstâncias, segundo ela, a entidade assumiu a responsabilidade de defender a liberdade de imprensa e o direito à informação como elementos essenciais para a democracia.
“Quando a liberdade de imprensa é ameaçada, é a sociedade que perde o direito de conhecer, questionar e fiscalizar aqueles que exercem o poder”, afirma Suely. Para a presidente, a defesa da imprensa não deve ser entendida apenas como uma pauta corporativa dos jornalistas. O acesso à informação interfere diretamente na capacidade do cidadão de acompanhar decisões públicas, cobrar autoridades, conhecer seus direitos e participar da vida democrática.
A avaliação da presidente também passa pela independência da instituição. Segundo ela, a maior contribuição da ABI ao longo de sua história foi justamente manter uma posição de independência e vigilância diante dos diferentes períodos políticos. A entidade, conforme Suely, precisa defender a liberdade de imprensa, mas sem deixar de cobrar dos próprios profissionais o cumprimento de princípios éticos.
“A instituição tem o dever de defender a imprensa, mas também de lembrar que a liberdade vem acompanhada de responsabilidade e ética”, afirma. Para ela, não existe defesa efetiva da liberdade sem compromisso com a qualidade da informação, com a apuração e com o respeito ao cidadão que recebe aquela informação.
A posição ganha ainda mais relevância em um momento em que a relação entre imprensa, poder público e sociedade é marcada por disputas políticas e ideológicas. Suely defende que a liberdade de imprensa não pode ser apropriada por nenhum campo político. “A liberdade de imprensa não pertence à esquerda, à direita ou ao centro. Ela pertence à democracia”, afirma.
O jornalismo diante da desinformação e da polarização
Se os princípios permanecem, os desafios mudaram. A ABI fundada em 1930 não poderia prever a velocidade com que uma informação seria capaz de alcançar milhões de pessoas ou a dimensão que as redes sociais assumiriam na formação da opinião pública. Hoje, uma notícia produzida por uma redação disputa espaço com vídeos, mensagens, postagens e conteúdos produzidos por pessoas que não necessariamente passaram por qualquer processo de apuração.
Para Suely, a missão histórica da ABI continua atual, mas precisa ser exercida diante de um ambiente de comunicação completamente diferente. A velocidade, a circulação massiva de conteúdos e a desinformação exigem, segundo ela, uma atuação que fortaleça o jornalismo profissional sem recorrer ao controle das opiniões.
“A resposta da ABI não pode ser a censura e nem a tentativa de controlar opiniões. Ao contrário: precisamos de mais liberdade, mais jornalismo profissional, mais educação para a informação e mais responsabilidade na produção e no compartilhamento de conteúdos”, afirma.
A presidente também chama atenção para uma distinção que considera fundamental: divergência não pode ser confundida com ataque. O jornalismo, segundo ela, precisa ter liberdade para investigar, questionar e criticar governos, empresas, instituições e pessoas que exercem funções públicas. Essa liberdade, entretanto, exige que o jornalista também esteja submetido ao rigor da apuração e à responsabilidade profissional.
Em um ambiente de polarização política que também alcança os profissionais de imprensa, Suely defende que a ABI cumpra uma função de espaço de diálogo. “Não precisamos pensar todos da mesma maneira para defender princípios comuns”, afirma. A entidade, em sua avaliação, deve ser capaz de reunir diferentes posições sem transformar divergências políticas em obstáculos para a defesa da liberdade de imprensa.
Essa preocupação se relaciona também ao compromisso do jornalismo com o interesse público. Para Suely, uma imprensa forte é aquela que ajuda o cidadão a compreender a realidade, fiscaliza as instituições, dá visibilidade a problemas que muitas vezes permanecem invisíveis e amplia o espaço para diferentes vozes da sociedade. A ABI, segundo ela, pode contribuir ao criar oportunidades para o debate, a denúncia e a crítica, permitindo que o jornalismo seja exercido com liberdade, segurança, qualidade e responsabilidade.
Tradição, renovação: com a primeira mulher no comando, ABI fez a diferença
A longevidade da ABI também está relacionada à capacidade de acompanhar as transformações da comunicação. Ao longo de 96 anos, o jornalismo passou pelo fortalecimento do rádio, pela chegada da televisão, pela expansão dos grandes jornais, pela internet e pelas plataformas digitais. Agora, enfrenta as mudanças provocadas pela inteligência artificial e por novas formas de produção e consumo de informação.
Para Suely, preservar os valores da instituição não significa mantê-la parada no tempo. “A imprensa hoje não é mais aquela de 1930. É muito diferente. Mas, os princípios fundamentais continuam os mesmos: liberdade de imprensa, liberdade de expressão, defesa da democracia, valorização do jornalismo e preservação da memória da imprensa baiana”, afirma.
A presidente entende que a ABI precisa acompanhar as mudanças sem perder sua identidade. “O que muda são os instrumentos, as linguagens e os desafios de cada época”, diz. A entidade passou por diferentes momentos justamente porque conseguiu adaptar seus instrumentos às novas realidades, sem abandonar os princípios que orientaram sua criação.
Essa combinação entre tradição e renovação também está presente na proposta de uma ABI mais plural. Suely afirma que a instituição precisa aproximar diferentes gerações, profissionais que trabalham em plataformas distintas, estudantes, pesquisadores e a sociedade. “Temos uma história que precisa ser respeitada, mas o nosso compromisso maior é com o futuro”, afirma.
É nesse processo de renovação que aparece um dos marcos mais importantes da atual gestão. Suely é a primeira mulher a presidir a Associação Bahiana de Imprensa. Para ela, ocupar o cargo representa uma conquista que ultrapassa a dimensão pessoal e está ligada à trajetória de mulheres que construíram suas carreiras na imprensa baiana, muitas vezes enfrentando obstáculos adicionais para ocupar espaços de liderança.
“Não chego sozinha a esse lugar. Há uma história de mulheres que trabalharam e ainda trabalham, muitas vezes enfrentando obstáculos adicionais (ainda enfrentam), para conquistar seu espaço no jornalismo”, afirma. A presidente espera que sua presença também estimule novas gerações de jornalistas a enxergar espaços de comando como possibilidades concretas.
“Que meninas e jovens jornalistas possam olhar para a presidência da ABI e compreender que os espaços de liderança também lhes pertencem”, diz. Para Suely, entretanto, uma gestão conduzida por uma mulher não precisa ser definida exclusivamente pelo gênero. A diversidade de experiências, segundo ela, é que pode ampliar a capacidade da instituição de discutir temas como inclusão, participação, renovação e diversidade.
O desafio de manter a ABI de pé até o centenário
Chegar aos 100 anos não depende apenas de preservar uma história. A própria sobrevivência institucional é apontada por Suely como um dos principais desafios dos próximos anos. A entidade precisa manter sua estrutura, ampliar sua atuação e encontrar fontes capazes de garantir sua sustentabilidade financeira.
A presidente afirma que uma das frentes de atuação é a negociação com a Prefeitura de Salvador, que é inquilina do edifício-sede da ABI. Segundo Suely, o valor do aluguel está congelado há 11 anos e a entidade tem buscado atualizar o contrato. Paralelamente, a direção trabalha para aumentar a base de associados e ampliar as receitas próprias.
“Uma entidade com a história e o patrimônio da ABI precisa encontrar formas de garantir sua manutenção e, ao mesmo tempo, ampliar sua capacidade de atuação”, afirma. A busca por apoio no setor privado também faz parte da estratégia, especialmente diante dos custos relacionados à preservação do patrimônio histórico e documental.
A questão financeira está diretamente ligada à responsabilidade que a ABI carrega sobre sua memória. A instituição não guarda apenas documentos de interesse corporativo dos jornalistas. Seu acervo registra acontecimentos, personagens, debates e transformações que fazem parte da história da Bahia. Preservar esse material, segundo Suely, exige recursos, organização e uma política permanente de conservação e digitalização.
Por isso, o centenário de 2030 já está no horizonte da atual gestão, mesmo que o mandato da presidente termine antes da data. Suely reconhece que provavelmente não estará à frente da instituição durante as comemorações, mas considera que preparar a ABI para esse momento faz parte de sua responsabilidade.
“Como o mandato é de três anos, é possível que eu não esteja mais presidente da ABI nos festejos do centenário. Entretanto encaro como minha tarefa preparar a entidade para que ela consiga chegar lá e celebrar dignamente esse marco tão importante”, afirma.
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Da Tribuna da Bahia
