Por Zulu Araújo
Os últimos crimes cometidos por jovens brancos da alta classe média brasileira de forma perversa e premeditada, assustaram o país. E mesmo com a rede de proteção e privilégios que foi montada em torno deles (por seus familiares e amigos), o assunto não sai de pauta e a justiça está em andamento.
O assassinato a socos e pontapés do adolescente Rodrigo Castanheira (16), ocorrido em Brasília, no último dia 7 de fevereiro, após 16 dias em coma e cometido pelo jovem Pedro Turra (19), um jovem rico da elite brasiliense, (agora preso), após uma emboscada armada por ele e outro menor de 17 anos, é apenas um dos inúmeros casos de violência que vem assolando o país.
Como são praticadas por jovens brancos da elite brasileira, tem sido tratada como coisa de moleque travesso ou algo episódico.
Exemplo nesse sentido, foi o estupro coletivo, cometido por quatros jovens da classe média alta carioca (Bruno Felipe dos Santos Allegretti, 18 anos; Vitor Hugo Oliveira Simonin, 18; Mattheus Verissimo Zoel Martins, 19; e João Gabriel Xavier Bertho, 19)(todos presos) também realizado após uma emboscada de um adolescente de 17 anos, vitimando uma adolescente de 17 anos.
Detalhe importante: Ao que tudo indica, essa era uma prática corriqueira da “turma” e executada contra colegas de escola (Colégio Pedro II – frequentado pela elite carioca).
Ou seja, o uso da violência como divertimento.
Nos dois casos, foi impressionante a omissão e conivência ativa dos familiares desses jovens criminosos, bem como dos seus amigos mais chegados. Em nenhum momento, vimos, lemos ou ouvimos qualquer manifestação, por mínima que fosse, de solidariedade para com as vítimas.
Foram tratados como os verdadeiros “filhinhos de papai”.
É bom lembrar, que foram crimes bárbaros, cometidos com requintes de crueldade, de forma covarde, sem que as vítimas tivessem a mínima condição de defesa. Crimes cometidos à vista de todos/as, seja presencialmente ou por meio das câmeras.
Mas ainda assim, os familiares dos criminosos, todos adultos, bem posicionados socialmente, ocupando cargos de poder e relevância na sociedade, não demonstraram qualquer repúdio aos atos cometidos por seus pimpolhos.
Ainda bem, que temos as redes sociais. Ainda bem que parte da sociedade brasileira, em particular as mulheres, se indignou. Ainda bem que temos jornalistas, que não deixaram barato e cobraram justiça.
Não fosse essa grita, não fosse o fato das vítimas também serem brancas e de classe média e a impunidade teria sido normalizada, bem ao gosto dessa elite formada por “gente boa”.
Como diria a ativista Cida Bento, Doutora em Psicologia pela USP, em seu emblemático livro – – “Pacto da Branquitude”:
Esse comportamento representa a “posição de privilégio estrutural, social, econômico e simbólico ocupada por pessoas brancas na sociedade brasileira, resultante de uma herança histórica da escravidão” e que não foi superada até hoje.
É bem verdade, que são comportamentos, muitas vezes praticados de forma inconscientes, mas que mantem acordos implícitos de proteção mutua, desde que preservem seus privilégios raciais dentro da sociedade. Lamentável.
Esperemos que a atitude da sociedade denunciando e da justiça punindo, sirva de exemplo para que superemos esse estado de brutalidade colonial/patriarcal que ainda vivemos.
Toca a zabumba que a terra é nossa!
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Arquiteto, Mestre em Cultura e Sociedade e Doutor em Relações Internacionais pela UFBA. Ex-presidente da Fundação Palmares.

