Damário Dacruz, Poesia & Poética

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Por Gilfrancisco

                                        Todo Risco

A possibilidade

    de arriscar

      é que nos faz homens.

                          Voo perfeito

                            no espaço que criamos.

                                 Ninguém decide

                     sobre os passos que evitamos.

                Certeza

                         de que não somos pássaro

           e que voamos.

     Tristeza

         de que não vemos

                            por medo dos caminhos.

                                               Damário Dacruz

                Damário Dacruz escreve como quem aprende as primeiras letras, a sensação de aventura através do desconhecimento, a perplexidade ante o mistério do contínuo desvendar, a multiplicar-se em novos mistérios. Assim aprendeu a amar e a tentar compreender a vasta produção literária baiana. Damário Dacruz é acima de tudo, um poeta em dia com o tempo, o seu e o dos outros, o da terra e o da humanidade e durante toda sua vida, vive e respira poesia, fruto do amor e do sofrimento, da conflagração mundial, por isso o poeta sofre porque não lhe é permitido solucionar o grande problema. Participante, de certa forma comprometido com os problemas nacionais e internacionais, sua obra reflete essas intervenções, apesar de não interferir nas tendências uniformes ou interações do processo criador: numa visão panorâmica seguindo a linha ascendente que os sofrimentos e a experiência conferiram ao homem e ao próprio poeta, em constante amadurecimento e participação.

Escrever sobre Damário Dacruz é uma tarefa difícil. Sua criação goza de fama internacional, por isso é natural o desejo de descobrir algo novo, ainda não estudado, desde os campos da consciência e da experiência individual e social do homem, até os aspectos técnicos de suas composições, apesar dos versos curtos, incessantemente complexas.

Com um modo nove de ver as coisas e o sentido trágico, em sua total desmistificação da descrença, onde o coração é mais visto que o próprio mundo, cabendo talvez todas as suas dores, traz dentro de si a crença no homem. Na busca da poesia pura, daquela que se basta a si mesma pela própria realidade objetiva que surge, transformando-se numa vivência subjetiva, o desejo de chegar ao desconhecido, falar o indizível e a consciência da impossibilidade de realizar plenamente este desejo, levam vários poetas a fragmentar de tal forma sua linguagem que, muitas vezes seus poemas atingem uma total incomunicabilidade poética. É fácil deixar-se atrair pela elegância, pela clareza de sua linguagem crítica, numa tradição de claridade de humildade perante o texto, onde a marca e o sentido do seu percurso é que o levam ao limiar do tema, que giram em torno do próprio fazer poético, a profissão de fé que infelizmente não tem sido a mais comum.

Reagindo ao isolamento que lhe é imposto, apesar de ser a solidão a principal característica da poesia atual, Damário Dacruz passa a se debruçar continuamente sobre os problemas da criação poética, para chegar a essência de si mesma e do mundo que ela quer representar procurando o mais profundo de seu íntimo e enxergar os objetos cotidianos que a circundam.

Sua poesia entre em nosso estágio e se deixa marcar fortemente por uma indefectível liberdade de expressão, reagindo contra o esmagamento do ser, como vemos o poema-cartaz Todo Risco, relançado pela Versarte Editora, em 4ª edição, impondo com especial maturidade crítica, elevando-se para o plano histórico social a nível de contexto e de discurso. Pela singularidade da experiência poética e poemática que revela, o poema nos norteia e ilumina, para ligar-se ao sonho à suprema realidade perdida, entre a sombra do inferno e a sombra da vida.

Mesmo numa época em que a intolerância cultural e ideológica pontifica ainda, em Damário respira-se uma maior liberdade do poema e sua formalização, porque esta é a palavra-chave de toda criação artístico-literária: todos devem ter um lugar ao sol. Pertencente a geração dos anos setenta, jornalista e poeta tem dois livros publicados, Sábado 13 horas, 1978 e Observatório Central, 1987. Seus poemas incessantes, breves, íntimos e desnudos, quase sempre curtos como um arpejo, é uma obra presente, sem verbos, substantiva e qualificativamente que revelam uma consciência de verticalização criadora, no que há de mais representativo no fazer literário moderno, a procura de valores plásticos livres de qualquer conotação na estrutura dos elementos criados. Todo Risco é um liberto de contingências humanas, uma alegria para os corações da terra, que caminha passo a passo recolhendo imagens remanescentes.

Taí. Uma poesia em que se banha em absoluta liberdade, rompendo todos os vínculos com a realidade e normas pelas quais o homem é conduzido significativamente nos caminhos retos de um mundo legislado. Porque o poeta é responsável por cada palavra avaliada rigorosamente no plano metafísico-existencial numa criação artística, feita com a substância verbal em cada verso. Porque o cenário cultural onde vive o homem, passou a determinar a própria qualidade de sua vida e a traçar as suas perspectivas de futuro e para os escritores da nova fase d literatura baiana, o cenário maior é sem dúvida a nossa própria circunstância.

Seu pensamento criador e fecundo, de aguda percepção e profunda sensibilidade, demonstra entre outras qualidades de igual dimensão, alguns aspectos vitais de seus projetos iluminados pela luz intensa d razão, no brilhante exercício de integração intelectual que é esta “poesia & poética”. Por isso, faz ver como o poema organiza uma visão nova e fantasmática do universo. Seus versos povoam o silêncio num constante desafio ao tempo, para reinventar o universo, extenso painel de nossos dias sofridos e delirantes.

O poeta Damário Dacruz deu vida ao amor impossível ao traduzir em realidade expressiva a realidade silenciosa do mundo sensível, destacando-se no consenso da crítica, como a mais vigorosa presença na poesia baiana. Sua obra, em construção certamente ficará marcada, ou como disse o poeta cubano, José Marti: “a poesia é durável quando for obra de todos… Para sacudir todos os corações com vibrações do próprio coração, é preciso receber da humanidade os princípios e inspirações”. [1]

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                Post-scriptum

Nascido em 27 de julho de 1953, no bairro de Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador e falecido em 21 de maio de 2010, nesta cidade em decorrência de câncer de pulmão (ele sempre fumou). Seu corpo foi velado no prédio da Câmara de Vereadores em Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano, que adotou e que lhe deu o título de cidadão em 2005. Seu sepultamento se deu no Cemitério D’Ajuda.

Conheci Damário entre 1965/1969, quando fomos colegas no curso ginasial, do Instituto de Educação Isaias Alves. Juntos participamos de algumas atividades culturais e esportivas, patrocinada pelo Grêmio. Visitei sua residência por várias vezes, que ficava próximo ao IEIA, para apreciarmos do Largo de Santo Antônio a paisagem da Baia de Todos os Santos, no fim de tarde.

Nos separamos ao concluirmos o ginasial. Eu seguir para Centro Integrado Luiz Tarquínio, na cidade baixa e ele para a Escola Técnica Federal da Bahia, onde foi eleito presidente do Grêmio estudantil em 1973. Formado em Comunicação na Universidade Federal da Bahia (1974-1978), época em que funda o jornal Uni-Verso (1977), publicação de artes: contos, poesia, fotos, cartuns, entrevistas.

Em 2003, Damário Dacruz lança Segredo das Pipas, que faz parte da coleção de autores baianos, patrocinada pelo Banco Capital. Dividido em cinco partes, com sete poemas cada, o livro surpreendeu os leitores pela boa qualidade de sua poesia.  Sete meses após o falecimento do escritor Damário Dacruz (2010), foi lançado “Bem que te Avisei”, Fundação Pedro Calmon/Universidade Estadual de Feira de Santana, 82 páginas, 54 poemas inéditos, com fotos do arquivo familiar, desenho do ilustrador Suzart e editado pelo artista plástico Fernando Oberlaender.

 Lançado no Espaço Cultural Pouso da Palavra, em Cachoeira, Centro idealizado e fundado por Damário, acompanhado de recitais de poesia e a realização de um seminário para discutir a produção poética do homenageado. Espaço criado em 2000 num casarão do século XVIII, era um centro cultural, onde comercializava livros, quadros, pôster e outros produtos. Na área externa eram realizados saraus, recitais e outras apresentações musicais.

O livro póstumo é na verdade, a junção de duas obras deixadas pelo autor. Após sua morte, a viúva, professora Graça Cruz encontrou os originais num classificador. Imediatamente esses manuscritos foram encaminhados ao saudoso amigo e nosso contemporâneo no IEIA, Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013) historiador que dirigia a Fundação Pedro Calmon.

                Finalmente em 2014 foi publicado o livro Damário Dacruz:  um homem, surpresa, da jornalista Mariana Paiva, integrante da coleção Gente da Bahia, das 0edições ALBA.


[1] Diário Oficial do Estado da Bahia. Salvador, 1º e 2 de julho de 1989.

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GILFRANCISCO: jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Associação Sergipana de Imprensa – ASI, do Grupo Plena/CNPq/UFS e do CPCIR/CNPq/UFS. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe –gilfrancisco.santos@gmail.com