“Dele e Dela”: quando a loucura materna ocupa todos os cômodos

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Por Ueliton Pereira Filho

A série ‘Dele e Dela’, da Netflix, é apresentada como um drama psicológico sobre um casal em crise, mas, à medida que os episódios avançam, o que se revela é um denso retrato da herança psíquica que cada um carrega — especialmente o legado silencioso e destrutivo da loucura materna.

Sob um olhar psicanalítico, a série deixa claro: há uma diferença entre a mãe que cuida e a mãe que consome. A figura materna, tão idealizada socialmente como fonte inesgotável de afeto, pode também ocupar o lugar do excesso — da presença invasiva, da culpa disfarçada de amor, da fragilidade que paralisa e que exige reparação eterna por parte dos filhos.

Na trama, tanto ele quanto ela tem suas histórias marcadas por mães instáveis emocionalmente. Mães que, em vez de serem suporte simbólico, tornam-se presença esmagadora, impossível de nomear ou afastar. Não por acaso, o apartamento onde vive o casal — pequeno, abafado, desorganizado — acaba funcionando como metáfora do espaço psíquico tomado por essas presenças maternas. Cada discussão, silêncio ou crise do casal tem ecos dessas vozes maternas que nunca saíram de cena.

A loucura materna, nesse contexto, não se refere apenas a diagnósticos psiquiátricos, mas à experiência subjetiva de se ter crescido sob um afeto desregulado, culpabilizador e, muitas vezes, dependente. São mães que precisam ser salvas pelos filhos, que os colocam na posição de eternos cuidadores, apagando a possibilidade de que construam suas próprias vidas, relações e desejos.

A série mostra como essa herança se atualiza no cotidiano conjugal. Em ‘Dele e Dela’, o conflito entre o casal vai muito além de questões de convivência: trata-se da repetição, quase inconsciente, de vínculos adoecidos. A tentativa de se amar é atravessada por fantasmas que nunca foram elaborados. O que não foi dito às mães — ou aquilo que foi engolido em silêncio por anos — retorna, violentamente, no espaço íntimo a dois.

O grande acerto da série é justamente não reduzir a loucura a um clichê estético ou narrativo. Ela não está no grito, no colapso ou na internação, mas na presença silenciosa e constante de um afeto que nunca encontrou palavra. É a loucura que se disfarça de cuidado, que aprisiona em vez de proteger.

Ao final, ‘Dele e Dela’ não oferece uma resolução clara. Mas isso talvez seja o mais honesto. A loucura herdada das mães não se cura com uma conversa ou um final feliz. Ela precisa ser nomeada, olhada, elaborada — não para ser apagada, mas para que possa deixar de governar o presente.

Diretor Técnico e Psicólogo da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria