Por Milena Mercês
O filme Demolição oferece um campo privilegiado para pensar, a partir da psicanálise, o sofrimento diante de um acontecimento traumático. Após a morte súbita da esposa, Davis Mitchell evidencia não apenas uma dificuldade na elaboração do luto, mas uma ruptura mais profunda provocada pelo impacto da perda.
Após o óbito, o personagem não apresenta a resposta afetiva socialmente esperada. Sua aparente indiferença suscita uma questão fundamental: trata-se da ausência de afeto ou da impossibilidade de dar sentido à perda? A morte da esposa escapa à elaboração, produzindo um curto-circuito na forma como organizava sua própria realidade.
A cena da máquina de chocolates ilustra esse impasse. Logo após receber a notícia da morte, Davis se mostra indignado porque o chocolate não cai. Parece que a “ficha” dele também não cai. Quando é convocado a falar sobre a esposa ou a participar de homenagens, recua ou foge, evidenciando a dificuldade de se reconhecer e se posicionar como alguém em luto.
Numa tentativa de elaboração, Davis passa a escrever cartas de protesto à empresa responsável pela máquina defeituosa. Essas cartas introduzem um elemento fundamental: o endereçamento ao outro. Ao reclamar de uma máquina que não funciona, o personagem desloca para esse objeto algo de sua própria experiência com falhas, com uma “não funcionalidade”, que passa a fazer parte de sua vivência.
Para a psicanálise, o luto só pode ser elaborado quando a perda encontra algum significado. Em Demolição, entretanto, essa perda se manifesta principalmente por meio das ações de Davis. A desmontagem compulsiva de objetos pode ser compreendida como uma forma de expressão quando as palavras não dão conta da experiência vivida. Ao desmontar os objetos de seu cotidiano, Davis parece buscar concretamente aquilo que não consegue compreender internamente: como as coisas funcionam. Mais do que os objetos, o que está em questão é a tentativa de entender a si mesmo e o que se deseja.
A relação construída com Karen, e com seu filho Cris, introduz um ponto decisivo na narrativa. O encontro com o adolescente parece recolocar Davis diante de aspectos não elaborados de sua própria história, sugerindo um retorno a conflitos antigos ligados à construção de sua identidade, aos desejos e às escolhas que marcaram sua trajetória.
Em síntese, Demolição evidencia um sujeito confrontado com a dificuldade de elaborar uma perda profunda. O luto não se realiza porque a perda não encontra um novo significado; o amor não se sustenta porque certos vazios permanecem sem reconhecimento; o sofrimento não se expressa porque faltam palavras para nomeá-lo. Resta, ao sujeito, recorrer aos atos.
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*Psicóloga da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria
