Historiando as Copas II – Bastidores e resenhas das Copas do Mundo/FIFA

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Por Zédejesusbarreto

Capítulo 15 – 1990 na Itália e 1994 nos EUA

  O Tetra na Era Dunga             

Com o fracasso ou má sorte em duas Copas das seleções treinadas pelo ‘mestre’ Telê Santana (1982 na Espanha e 1986 no México), fundamentou-se no Brasil a funesta ideia de que o futebol vistoso, ofensivo e bem jogado pelo técnico brasileiro não era competitivo, menos ainda vitorioso. Não vencíamos uma Copa desde a ‘fantasia’ do TRI, em 1970, que marcou o fim da gloriosa Era Pelé.

E então mergulhamos na chamada ‘Era Dunga’, que se sustentava, se justificava num futebol de resultados, com atletas marcadores, pegadores, tipo ‘pitibuls’, ocupando o meio-campo, um sistema defensivo reforçado, prioritário e… ‘o gol como detalhe’, como chegou a dizer o treineiro do escrete, às vésperas do mundial de 1990.

Seleção alemã

 O nome do atleta Dunga, meio-campista, ficou marcado, identificado com o futebol duro e pífio da ‘Era Lazaroni’, mas o jogador deu a resposta na Copa seguinte, em 1994, nos escaldantes gramados do verão norte-americano, comandando a equipe que nos trouxe o Tetracampeonato, com brilho dos atacantes Romário e Bebeto, o baiano. Dunga jogou uma copa exemplar, em todos os sentidos. Liderou, marcou, berrou, armou, fez passes longos preciosos, não errou. Enfim, na raça, com determinação, aplicação e boa técnica, o enfezado gaúcho mudou o significado pejorativo da expressão ‘Era Dunga’. Pôs o dito noutro patamar. Foi fundamental na conquista do Tetra, que aconteceu 24 anos depois do inesquecível Tri, no México.

  Estilos e táticas

  Com se sabe, desde que o futebol foi carimbado, estabelecido como esporte pelos ingleses, no Séc XIX, existem variadas formas de se jogar e vencer. Estilos, esquemas, táticas, estratégias de jogo. Às vezes… até o imprevisto e o improvável dão certo. Há um jeito de tratar a bola que encanta, chega a arte, poesia (como bem disse o cineasta italiano Pasolini), e também um jeito meio brucutu – de atletas taludos, chutões, bolas alçadas, a tal ‘bola parada’, cabeceios, correria, muito corpo a corpo, marcação dura, mais gana que talento…  Há muitos adeptos, os que entendem e defendem a ideia de que o que importa é vencer, a qualquer custo; nesse caso e com esse objetivo, a meta  primeira nas ações em campo é não deixar o adversário jogar. Os ingleses jogavam assim. Muitas equipes brasileiras até hoje jogam assim, há treinadores que cultuam isso, até por garantia do emprego.  

   No sul do Brasil, por exemplo, o técnico Rubens Minelli, um ‘vencedor’, adepto do que chamava ‘futebol força’, só admitia no seu time jogadores com altura acima de 1m80. Ele fazia questão de medir os galalaus. Imaginem que Pelé, com seu 1m72, não teria espaço por lá, nem Garrincha, nem Zico, nem Maradona, Messi…  muito menos um Osni.

  Pois bem, a CBF e a mídia esportiva tupiniquim entenderam que para voltar a vencer uma Copa do Mundo nosso escrete precisava jogar assim, ao estilo europeu, um futebol robusto, de marcação, correria, contragolpes… Boa parte dos times brasileiros, desde as divisões de base, passaram a priorizar jogadores altos, pegadores. Treinadores, como Joel Santana, passaram a escalar seus times com dois, três ‘volantes’ ou ‘frente de zaga’ tipo Dunga – um meio-campista dos pampas que se impunha em campo pela garra, a pegada forte, o cenho fechado, espírito de luta, liderança, vontade férrea de ganhar. O escrete brasileiro precisava ter esse espírito, atuar dessa maneira. Era a proposta.

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  O fiasco do ‘lazaronês’

  O escolhido para comandar, treinar e implantar na Seleção esse espírito e estratégia de jogo foi o retranqueiro Sebastião Lazaroni, um mineiro de Muriaé, então com 38 anos, que treinou o Vasco da Gama em 1987/88, e foi indicado ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira (genro de Havelange) pelo cartola carioca vascaíno Eurico Miranda, um espertalhão. Posudo, bem falante, criador do ‘lazaronês’ – seu linguajar empolado diante dos microfones para explicar suas táticas, tipo ‘galgar parâmateros’, ‘interação sinérgica’, ‘lastro físico’… -, fraseados que os atletas não compreendiam bem, até riam do ‘professor’ pelas costas. É dele, o Lazaroni, a pérola ‘gol é apenas um detalhe’. Ora, gol é o objetivo do jogo.

  Os jogos eliminatórios foram tumultuados, com direito a ‘foguete de Rose’, um sinalizador atirado no gramado, na partida contra o Chile, no Maracanã, por uma moça desatinada de nome Rose – e que gerou a maior confusão, julgamentos, punições, o presepeiro goleiro chileno Rojas suspenso. Aconteceram cenas de revolta e vaias na Fonte Nova/Bahia por conta do corte do centroavante Charles, ídolo do E. C. Bahia, Campeão Brasileiro de 88.

 Assim, Lazaroni foi pra Copa da Itália, em 1990, com um grupo que parecia mais focado em negociar valores da premiação pelo título. E mais uma mídia que mordia e assoprava o treinador, o torcedor desconfiado, cabreiro e, em campo, um esquema de jogo com três zagueiros de área, alas que pouco avançavam, dois volantes presos na marcação, alguns ‘enceradeiras’ no meio-campo, sem um camisa 10 pensador, e um ataque que se limitou a lampejos, surtos ofensivos de Müller e Careca.

  Ninguém pegou Maradona  

  Fazíamos nosso melhor jogo contra os ‘hermanos’ argentinos, então Campeões do Mundo, com o astro Maradona já meio gordinho, o tornozelo baleado, atuando na Itália e às voltas com infiltrações, dopings, outros ‘estimulantes’. Mas foi ele, o danado e talentoso Maradona, que decidiu o jogo em Turim, uma partida que controlávamos bem, não sofríamos atrás e até desperdiçamos algumas chances claras de gol. Daí, aos 30 minutos do segundo tempo, vacilamos. Dom Diego acolheu um rebote defensivo, ainda no campo argentino, e saiu varando pelo meio, deixando pra trás Alemão, Dunga, Ricardo Rocha (ninguém pegou, matou a jogada) e, já próximo à meia lua, quando Mauro Galvão e Ricardo Rocha saíram afoitos na cobertura, o baixinho deu um tapinha na bola pro lado e deixou o parceiro Caniggia de cara com Taffarel. Caixão e vela.

  Voltamos pra casa mais cedo, o elenco foi recebido com vaias no aeroporto. Lazaroni escondeu-se, foi demitido.

  Retranquieras

  A Copa da Itália, em 1990, afinal vencida pela Alemanha, treinada por Beckenbauer, teve um nível técnico baixíssimo. Aconteceram 12 empates, muitas classificações foram decididas em cobranças de pênaltis; o placar de 1 x 0 repetiu-se por 16 vezes.

 Na partida final, Alemanha 1 x 0 Argentina, no Olímpico de Roma, os europeus deram o troco da decisão  de 2026, a Copa de Maradona. Foi um joguinho infame, decidido num pênalti (mal) marcado pela arbitragem mexicana aos 36 minutos do segundo tempo, muito contestado pelos argentinos. O cobrador Brehme não deu chance de defesa ao goleiro pegador de pênaltis Goycochea. Uma Alemanha insossa, mas campeã invicta.

   – O meia alemão Mathäus foi eleito o craque da Copa, mas ficou na lembrança a campanha histórica do Camarões de Roger Milla, que fez gols, rebolou, deu espetáculo, comandando, levando a seleção africana às quartas de final. 

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 O Tetra na terra do Tio Sam

  Lazaroni fora, a CBF chamou o ídolo Falcão para comandar o escrete, com a missão de renovar, arejar o astral e o futebol canarinho, que buscaria o Tetra nos Estados Unidos, em 1994. Foi uma copa do ‘business’, muita grana investida, marketing agressivo, interesses outros a ponto de se programar 27 das 52 partidas no absurdo horário do meio dia, calor infernal, por conta do fuso horário, objetivando atender às transmissões televisivas da Europa. Muitas equipes do velho continente, como Alemanha, Holanda, Itália, Suécia, Noruega … algumas já envelhecidas, sentiram, sofreram muito, tiveram o desempenho prejudicado. No geral da competição, um nível técnico bem sofrível, pouco encanto.

   Ainda preservando o esquema cauteloso, priorizando o sistema defensivo, a Seleção Brasileira subiu pra América do Norte sob comando técnico de Carlos Alberto Parreira (outro preparador físico de 70 que se tornou treinador) com supervisão do ‘velho lobo’ Zagallo, amigos e parceiros. Em campo, um time bem fechadinho. Praticamos um futebol de resultados, a conta do chá, mas havia um Romário iluminado, na frente .

  Tínhamos dois bons zagueiros, Aldair e Marcio Santos; um meio de campo marcador – Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho -, Jorginho e Leonardo, depois Branco pelas laterais e dois homens rápidos, finalizadores e inteligente avançados – Bebeto e Romário. Quem os municiava era Dunga, dono de passes perfeitos. Como diria o outro, Dunga suava pra Romário brilhar. Não foi fácil.

 Passamos apertado contra Russia (2 x 0) Suécia (1 x 1), Estados Unidos (1 x 0 e o lateral Leonardo expulso), e fizemos um jogo dramático  contra a Holanda (3 x2); dizem que foi a melhor partida da Copa (gols de Romário, Bebeto e Branco, de falta, decidindo). Estávamos numa final e, de novo, contra a Itália.            

  Final insossa

  Pela primeira vez aconteceu uma final de Copa sem gols, 0 x 0, mais de 129 minutos de bola rolando no gramado do Rose Bowl, em Los Angeles, num dia quente de domingo, 95mil presentes. Foi uma partida chata, dura de ver. As estrelas apagadas, as defensivas prevalecendo, as duas equipes mais preocupadas em não sofrer gols do que fazê-los. Uma peleja, enfim, de duas seleções covardes, que não se propuseram a  honrar suas histórias.

 E o título, pela primeira vez nas copas, foi decidido em cobranças de pênaltis. Taffarel brilhou e o craque Roberto Baggio, na sua vez, chutou a bola nas arquibancadas e chorou, amargurado. Assim conquistamos assim o Tetra.

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 – Romário foi eleito o craque da competição, fez cinco gols, decisivos. Bebeto fez três. O artilheiro, com seis gols marcados, foi o atacante russo Salenko, que marcou cinco no triunfo (6 x 1) sobre Camarões. O gol de honra dos africanos foi marcado por Roger Milla, aos 42 anos, então o atleta mais idoso a fazer um gol em copas.

– Foram assinalados 131 gols em 52 partidas, média de 2,7 gols/jogo.

– Depois do jogo pela fase classificatória, Argentina 2 x 1 Nigéria (de virada, dois gols de Caniggia), Maradona saiu de campo de mãos dadas com uma enfermeira, que o conduziu ao exame antidoping, quando foi flagrado pelo uso de efedrina. Não disputou o restante da competição.

 – Depois do título, Parreira foi treinar uma equipe europeia e Zagallo, aos 63 anos, assumiu o comando do escrete. 

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