Inveja e ideologia, Kant 1

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Por Joaci Góes
(Ao casal amigo Jacira e Dinael Regis!)
Como já desenvolvemos em livros, tamanha é a relação linear entre sentimentos e ideologias que decidimos atender pedidos de leitores para abordar essa magna questão na ótica da inveja como fator causal de propostas igualitárias que proscrevem o mérito como fator geratriz de alguns tipos de desigualdades que, não obstante, enriquecem a qualidade da vida humana de invejados e invejosos, como é o caso das sociedades abertas, sem uma exceção sequer. Por sua vastidão, teremos que fazê-lo em quantos artigos forem necessários para cobrir, com razoável abrangência, o que pensaram sobre o tema alguns dos mais influentes pensadores dos tempos modernos, sem preocupações cronológicas.  

Emanuel Kant (1724-1804), que sofreu forte influência de David Hume e dos empiristas ingleses, abordou a inveja na Metafísica dos Costumes, como “a propensão de encarar o conforto alheio com animosidade, ainda que este bem-estar não nos provoque nenhum prejuízo real”. Kant arrolou a inveja como integrante, com a ingratidão e a malícia (Schadenfreude), da “detestável família” dos sentimentos viciosos contra a humanidade. Para ele, esses três sentimentos se opõem ao amor e são sub-reptícios e destrutivos dos vínculos de lealdade e da autoestima, na medida em que a comparação desperta o complexo de inferioridade em relação à pessoa invejada. “Trata-se de um ódio que não é nem explícito, nem violento, mas secreto e dissimulado, de modo que a baixeza se soma à desatenção para com o próximo, resultando na própria insatisfação pessoal”. Sem meias palavras, e amparado na doutrina filosófica dos valores, Kant classifica a inveja como a “antítese da virtude e a negação do humanismo”. Consoante sua veemente afirmação, “a inveja é a tendência de recebermos com desagrado o sucesso alheio, ainda que em nada interfira em nossos afazeres. Quando este sentimento conduz a uma ação destinada a reduzir ou a eliminar o sucesso incômodo, temos o que se chama inveja qualificada, onde sempre há má vontade. Trata-se, apenas, de uma moldura emocional secundária e malévola, decorrente da percepção desestabilizada de vermos nosso bem-estar ser superado pelo de terceiros. O problema é que nós não conseguimos medir as coisas pelo seu valor intrínseco, mas pelo valor comparativo que nos acarreta a sensação de inferioridade”.

Para Kant, é normal e saudável sentirmo-nos alegres e felizes quando sabemos que desfrutamos de uma situação melhor que a de outros, não porque não desejemos o bem-estar do próximo, mas porque nos regozijamos com nossa felicidade relativa. Desejar, gratuitamente, a destruição de outrem que, por ação ou omissão, nenhum mal tenciona nos causar, é imoral porque contrário aos deveres do indivíduo para consigo e para com a humanidade. A reflexão de Kant sobre a psicologia da ingratidão, integrante com a malícia e a inveja da “detestável família dos sentimentos viciosos contra a humanidade”, representa valiosa e original contribuição ao estudo dos recônditos da alma humana. Para ele, a ingratidão é um vício condenável, não apenas porque representa um desestímulo ao espírito de ajuda recíproca, ao mecenato e ao espírito filantrópico do qual parcela significativa da humanidade tanto depende para resolver ou minorar carências, mas também porque ameaça subverter o próprio amor e os fundamentos de sua reciprocidade.

Afortunadamente, Kant observou que a ingratidão, potencial ou efetiva, não se provava, na prática do dia-a-dia, capaz de, necessariamente, eliminar ou mesmo diminuir as motivações filantrópicas dos benfeitores. Frequentemente, estes enxergam na ingratidão uma oportunidade para testar e demonstrar a superioridade do seu gesto, liberto das expectativas de compensações futuras, e, por isso mesmo, enriquecido de valor moral. Quando a ingratidão vem acompanhada de rancor, temos a “ingratidão qualificada”. Kant observou que a ingratidão, fortemente condenada pela opinião pública, não é denunciada pelos benfeitores, nem pela frequência, nem pela intensidade como ocorre. A explicação dessa aparente insensibilidade residiria no temor psicológico de que a admissão da ingratidão, como norma, conduzisse, dedutivamente, ao entendimento de que também eles, os doadores, reagiriam com ingratidão, quando na posição de destinatários de ajuda, uma vez que, ao longo da vida, as pessoas experimentam ambos os papéis de doadores e recebedores ou donatários. A ambivalência provocada por este sentimento perturbador conduziria à sua repressão e à passiva persuasão coletiva de que são a exceção, e não a norma, os casos de ingratidão.

Na próxima semana, teremos mais de Kant.