Jerônimo Rodrigues e o partido de chegada

  • Post category:ARTIGOS
No momento você está vendo Jerônimo Rodrigues e o partido de chegada

Por Victor Pinto

A reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) no primeiro turno diz muito sobre a política baiana. O contexto histórico se repetiu e a lógica política iniciada em 2006 também. Ela reafirma uma característica que o PT desenvolveu ao longo de duas décadas no estado: a capacidade de chegar, de ser um partido de chegada. Pode passar parte da campanha pressionado, enfrentar pesquisas apertadas, conviver com crises e até produzir dúvidas dentro da própria base. Quando a eleição se aproxima, porém, a engrenagem petista costuma funcionar melhor.

E foi assim mais uma vez. Jerônimo chegou à reta final enfrentando ACM Neto numa disputa que permaneceu aberta até as últimas semanas. O resultado, portanto, não pode ser reduzido à força da máquina, ela sozinha não iria prover. Houve uma combinação de fatores, cujo governo conseguiu transformar parte das entregas administrativas em argumento eleitoral. Ficou nítido que o eleitor pode discutir segurança, saúde ou qualidade dos serviços, mas acabar enxergando a presença física do Estado.

Salvador merece análise particular, pois ACM Neto precisava sair da capital com uma vantagem suficientemente larga para equilibrar o peso do interior. Não conseguiu produzir essa gordura. As intervenções estaduais reduziram a capacidade da oposição de monopolizar o discurso administrativo na cidade, enquanto o desgaste natural da gestão municipal também colocou limites na transferência de votos do grupo de Bruno Reis para Neto. O sinal de alerta no Thomé de Souza acendeu.

Mas a eleição não terminou no governo. O Senado talvez ofereça uma demonstração ainda mais interessante da força política construída pelo PT. Rui Costa e Jaques Wagner chegaram às duas vagas em uma disputa que, durante boa parte da campanha, parecia deixar aberta principalmente a segunda cadeira. Wagner atravessou uma eleição muito mais turbulenta que Rui, enfrentou desgaste político, investigações sobre o banco Master e adversários que ensaiavam competitividade. Ainda assim, o voto casado governista conseguiu sobreviver, seguindo a lógica histórica mais uma vez.

Isso merece atenção porque mostra que não houve apenas voto em Jerônimo, houve, em um parcela relevante do eleitorado, o voto em projeto. O PT conseguiu organizar a sua chapa e conduzi-la praticamente inteira pela linha de chegada, e, na minha opinião, é uma demonstração de força partidária que vai além da popularidade individual de qualquer candidato.

Lula continua sendo peça central dessa arquitetura. A eleição presidencial, entretanto, não acabou. O segundo turno contra Flávio Bolsonaro mantém a Bahia dentro da campanha nacional e cria uma situação curiosa: Jerônimo vence sua batalha estadual, mas a militância petista não deve se desmobilizar. Ao contrário. O estado passa imediatamente a funcionar como uma das principais reservas eleitorais de Lula para 25 de outubro.

Ainda sobre o PT da Bahia, a expressão “partido de chegada” talvez explique melhor o que aconteceu. Não significa que o PT baiano seja imbatível. A própria competitividade de ACM Neto mostrou exatamente o contrário. Significa que, na Bahia, o grupo governista desenvolveu uma capacidade rara de crescer quando a eleição começa a afunilar. E eleição apertada costuma ser decidida justamente aí que é a capacidade de chegar sobrepondo o detalhe. E a Atlasintel acertou mais uma vez indicando o vencedor e mostrando a escala de crescimento da boca de jacaré, tal qual a Quaest e a Real Time. Essas demonstraram que tinha tendência de vencer. A conferir.
—————————————————–
Jornalista. // twitter: @victordojornal