Por Gerson Brasil
“Quem quiser alugar este ladrão, que está vazio de sua casa, entre sem bater, pois a casa não o atrapalhará.” (Quevedo)
Ainda não decidi de todo; há sempre o risco de deixar outros caminhos em aberto, embora qualquer escolha seja insuficiente e nem sempre os resultados agradem. Basta a cor do vestido não combinar com a noite, ou tropeçar na língua — uma palavra infeliz emudece a paisagem. Onde antes víamos a graça, agora sobra escuridão. Nem pense em recorrer ao esparadrapo ou fita adesiva; não dá para usar um mata-borrão. Messias de Almeida Alvarenga foi sugestão de uma amiga por já ter utilizado o serviço — roubar qualquer coisa —; quando digo qualquer coisa, inclusive moventes como bois, galinhas, cabras e assemelhados, como também o lenço de Matilde, desaparecido. Saiu do bazar em Istambul, estacionou na casa 45 da Rua Prado Amado e, três meses depois, não foi mais visto.

Gostaria que removesse Alfredo Gaspar de Santa Cruz da casa de Odete Graciosa Lins e o colocasse em um bar, ou restaurante, de preferência à noite. De dia, os ladrões descansam; alguns, inadvertidamente, fazem hora extra e por isso são presos pela polícia. O roubo é noturno, assim como a conspiração e os movimentos calculados na hora exata da subtração ou da sedução. Na encomenda em curso, já me decidi: a argumentação estará alinhada com o vestido e o sapato; incluirei também óculos, algumas joias, um decote audacioso e o livro “Tudo e Nada”, de Macedonio Fernández. Há quem acredite em encantamento, persuasão, feitiço, e crimes escondidos nas gavetas, ensurdecidos para não atrapalhar o cotidiano. Tenho o livro como de grande ajuda
Dispus-me a roubar Alfredo, talvez por algumas horas ou, quem sabe, levá-lo para Punta Arenas e soerguer uma ordinária chantagem, uma imitação vagabunda e incômoda de como cercar o ambiente de modo claudicante. Nenhum sentimentalismo ou justificação: o livro, penso, ajudaria a não escorregar no terceiro degrau da escada do hotel e a resistir às trivialidades românticas. Pensei em elaborar um manual — como se comportar de súbito e de trás para frente, sem psicologia ou autoajuda —, mas logo percebi a inutilidade: segundo, não estou interessada em perscrutar a alma de ninguém; terceiro, inversamente proporcional a moi; primeiro, não daria conta de matematizar a ação. Calcular o volume do corpo, a altura, o comprimento dos braços, os centímetros da supercília, a curvatura da arcada dental exigiria esforço desabonador.
O livro não é uma brochura de 650 páginas, é cômodo; poderia utilizá-lo no lugar do travesseiro, esquecê-lo no hotel e voltar revoltada, não pela obrigação de reavê-lo — afinal, já deixei muita gente em hotéis e outros esconderijos, e bem me quis. Talvez, propositadamente, escolhi o desleixo errado. Não estou disposta a prestar esclarecimentos, escrever um texto insuficientemente ingrato, muito menos colaborar com a polícia em depoimento. Já basta ter de convencer o homem de bigode fino e mãos alastradas — coadjuvante ou ator secundário de um filme de terror — a ter de volta o livro, sem precisar subir as escadas ou acionar o elevador.
— Just a moment, please.
Estou às margens do Estreito de Magalhães, uma mulher que se recusa a atravessá-lo porque não sabe nadar e perseguida pelo número 46 das cabines de vestuário. Só quero rever o livro; posso comprar outro exemplar, mas não seria possível a dedicatória: “carinhosamente”. Sinceramente, não sei o que fazer. O bigode não me atrai, as mãos parecem de borracha e o inglês é insuportável.
Quando procurei saber do ladrão, por quanto poderia alugá-lo, se por estarmos no verão o preço estaria de mãos dadas com o vento, Sofia Aragón y Aragón carinhosamente não se reportou à pergunta. Descreveu que, no verão passado, uma mulher cujo nome manteve em segredo o alugou para uma possível narrativa de sequestro, na tentativa de esconder um caso amoroso.
— Ficou pela metade, mas roubou a joalheria, presenteou a namorada com um colar, um anel e um relógio de ouro. Roubou os segredos de Matilde de Couto e Lima e os vendeu para Carla de Mello e Souza. Na felicidade, imitando o bolo de chocolate da mãe, pagou-lhe o dobro do que havia combinado. Carla o tem como o melhor homem do mundo. Certa vez, perguntei se não seria Marlon Brando. Riu, deu por terminado o martini e disse:
— “Só participou de filmes, juntamente com outros atores; além de vender ilusão, não consta ter feito nada parecido a uma façanha. A idolatria é uma bobagem, até mesmo a Barbie alcançou o estrelato. E daí? O set de filmagem não é a cama de pregos do faquir, e não se fabrica Matilde, muito menos aqueles segredos. Repassei-os a algumas pessoas que jogaram xadrez, ora como damas, ora como peões, ora como torres, e não houve vencedor.
Fiquei confusa; já contava com a cumplicidade e os inumeráveis jogos de armar, palavras cruzadas, a descoberta de como se portar diante de uma situação vexatória, filme pornográfico, e incertezas que viriam a assolar, num tempo conjugado com o verbo no infinitivo. Foi uma decepção. Não deveria ter compartilhado? Seria melhor ter alugado, divididos em pedaços, no intuito de ter uma recompensa monetária maior? Afinal, trata-se de segredos. Uma mercadoria comum a todos, mas isenta de compartilhamento. Guardo num vaso alguns, os menos severos; outros, costuro-os na boca e vigio o pensamento para não ser traída”.
Pensei que alugar um ladrão seria fácil; a atividade ilícita goza de prestígio, não fosse assim já a teriam debelado, mas com graves consequências. A namorada jamais poderia almejar um par de brincos de brilhantes, e os segredos perderiam o encantamento — se não podem ser alvo de roubo, então estariam na mesma posição de flores na janela ou cortinas bem vestidas.
Chegaram a comentar, por ouvi dizer, que a argumentação de Messias, no caso do sequestro, não estava sólida. Não gosto das explicações, sempre deixam rastros; não se portam como os dois princípios da matemática: o princípio da não contradição (“é ou não é”) e o do terceiro excluído (“vale ou não vale”, não há uma outra opção).
Messias de Almeida Alvarenga, um ladrão à la lettre, teria esbarrado na dificuldade de traduzir do irlandês para o português uma encenação bem modesta, mas eficaz, decorada há dois dias. Para melhor conduzir os trabalhos. Ao comentar sobre o método a ser empregado exigiram uma veracidade que o levaria a cometer perjúrio.
— Nunca! Jamais cruzarei mentiras; ficaria desqualificado, correria o risco de ficar fora do mercado. E quem iria acreditar em mim? O júri? Por certo não. Os clientes fugiriam de um ladrão mentiroso. Como confiariam na habilidade de um ladrão que poderia traí-los?
Alugar um ladrão é enfrentar dificuldades, como acontece no cotidiano, mas não podemos dar queixa, transformá-lo em moeda corrente e muito menos utilizar, de modo capcioso, o 0800. Estou exausta.
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Jornalista e escritor
