MUSEU DE ARTE POPULAR JURACI DÓREA REÚNE IMPORTANTE ACERVO

  • Post category:CULTURA
No momento você está vendo MUSEU DE ARTE POPULAR JURACI DÓREA REÚNE IMPORTANTE ACERVO

Por Reynivaldo Brito

Entrada principal do Museu de Arte Popular 
Juraci Dórea, na fazenda  Garajau.

Uma das formas de expressão artística mais autêntica é a arte popular por representar as tradições, a cultura e a identidade de um país. Assim através de esculturas, pinturas, rendas,  gravuras, artesanato, e outras manifestações artísticas os locais vão se expressando de uma forma simples e original. Esses artistas /artesãos estão fora das academias e sua inspiração vem do que observam, lhes tocam e são levados a se expressar através a cerâmica com as esculturas de barro, madeira, ferro e fibras naturais, com tecidos a fazer suas bonecas de pano, couro com suas selas e vestimentas de vaqueiros ornamentadas, suas pinturas, cestarias e rendas. Eles têm grande importância por preservar e retratar as lendas, tradições e crenças d a população de  cada região do país, e sempre você vai encontrar beleza e diferenças nos traços das obras da arte popular simples do interior do Brasil. Aqui no interior da Bahia perdido neste mundão de caatinga que teima

Esta escultura ao alto é de Fernandes Rodrigues, Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. Vejam a expressividade do seu olhar e a proporcionalidade de seu corpo. Um artista de grande talento.

em resistir existe um local onde pérolas desta arte popular estão expostas ao público. Trata-se do Museu de Arte Popular Juraci Dórea, localizado no coração da caatinga entre as cidades baianas de Ruy Barbosa e Macajuba, na fazenda Garajau, distando 295 km da Capital, no Centro-Norte da Bahia. Um local especial entre pedras, cactos e árvores retorcidas que compõem este cenário único para a guarda de obras de grandes mestres da arte popular espalhados por este Brasil continental. Este museu é fruto do trabalho e esforço de um ex-colega da velha Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, o Aécio Pamponet, uma mistura de político e caçador de obras de arte popular. 

O Museu de Arte Popular Juraci Dórea fica situado dentro da fazenda Garajau pertence ao casal Aécio Pamponet e sua esposa Selma de Paula, psicóloga aposentada do TCU. O acesso ainda é feito através uns trinta quilômetros de uma estrada vicinal de terra batida, quando o visitante que nunca viu um pedaço de   caatinga passará a conhecer as árvores retorcidas, pedras e muitos cactos como o xique-xique, mandacaru, cabeça- de- frade e morros. É um cenário bem diferente dos que vivem em Salvador ou mesmo outras cidades das regiões do sul e sudeste do Estado. O museu conta com mais de 2.500 peças e este número tende a aumentar porque o casal continua adquirindo peças importantes e também recebendo doações de amigos e até mesmo de visitantes. O sociólogo Aécio Pamponet adiantou que atualmente está empenhado em finalizar sua transformação num instituto para assim garantir sua continuidade após a morte do casal. A Bahia já teve um importante Museu de Arte Popular criado em novembro de 1963 e inaugurado com a exposição Nordeste, por iniciativa de Lina Bo Bardi, que ficava num

imenso galpão ao lado do Museu de Arte Moderna, no Solar do Unhão. Acabaram com o museu no início dos ano 2000 e algumas de suas peças estão numa coleção no Solar do Ferrão, pertencente do governo do Estado. Existem outros museus de arte popular na Bahia a exemplo do Museu de Canudos onde estão expostos os restos mortais de Antônio Conselheiro e objetos da época da saga dos beatos. 

O Museu de Arte Popular Juraci Dórea tem várias esculturas em tamanho natural em barro como as do escritor e contador de histórias o paraibano Ariano Suassuna (1927-2014)   do poeta e cantador cearense Patativa do Assaré (1909-2002)  do educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997).  Os criadores do museu  já encomendaram as esculturas de Bule-Bule, este inclusive tem um espaço com seu nome, e de Juvená, da famosa barraca em Itapuã, Salvador.

                                        SUA ORIGEM

Acima a escultura em tamanho natural de autoria de Fernandes Rodrigues em homenagem ao escritor Ariano Suassuna e o poeta Patativa do Assaré,  grandes personagens nordestinos. O gato branco resolveu  aparecer na foto .

Durante nossa conversa o Aécio Pamponet discorreu sobre a origem do Museu de Arte Popular Juraci Dórea. Disse que tinha adquirido a fazenda Garajau de quatrocentas tarefas e como estava improdutiva decidiu entrar com um projeto

junto ao Banco do Nordeste para a criação de cabras, já que a região de caatinga é propícia para a criação desses animais que têm rusticidade e aguentam a seca. Porém, o projeto fracassou porque depois descobriu que o pessoal da região não apreciava muito a carne de bode, e sim de carneiros. Resolveu abandonar o projeto. A criação de cabras exige muitos cuidados, especialmente no combate às verminoses e dificuldade de mantê-las dentro do espaço da fazenda porque é um animal arisco e que mesmo com cerca de sete e oito fios de arame e até elétrica ela cava e foge. Sua carne tem um sabor diferente que alguns chamam de ranço outros de reimosa. Mas, na realidade é uma carne magra, saborosa e muito apreciada no Nordeste. Outro problema para criação de caprinos hoje em dia é a  falta de mão de obra qualificada e confiável. 

Voltando ao Museu de Arte Popular Juraci Dórea o casal Pamponet vinha comprando há mais de vinte anos peças importantes de artistas populares nas suas viagens pelo interior do país. Sua coleção cresceu tanto que amigos mais próximos sempre diziam que deveriam tentar fazer um museu. Foi assim que a ideia foi criando força e “terminamos iniciando a construção de um espaço para colocar as peças na fazenda Garajau e contratando uma museóloga para catalogar

Vemos ao lado a  primeira obra adquirida do museu de autoria de Zezinho de Tracunhaém, Pernambuco e tem 1,80m de altura.

as peças. A coleção continuou a crescer através de compras de novas peças como também começaram a aparecer as primeiras doações”. Foi assim que Aécio Pamponet e Selma de Paula passaram a construir novos espaços para colocação dessas peças, que hoje abrigam a mais de 2500 peças dos mais importantes artistas de arte popular do país. E a coleção continua crescendo. Hoje é um ponto turístico e de aprendizagem onde alunos de escolas públicas e privadas da região costumam aparecer para conhecer o museu e receber informações sobre a importância da arte popular e também saber detalhes sobre seus criadores. 

O nome Garajau da fazenda foi inspirado num cesto quadrado que os índios e depois os quilombolas usavam para carregar galinhas, objetos de cerâmica e outros tipos de mercadorias que levavam para vender nas feiras livres da região e voltavam com produtos para seu consumo. Eles se assemelham aos caçuás muito utilizados no Nordeste para transporte de mercadorias no lombo dos animais, mas que tem uma forma diferenciada em curva parecendo U. Informou  Aécio Pamponet que a primeira peça significativa de sua vasta coleção que hoje integra o museu foi a de um São Francisco de Assis em tamanho natural, de autoria do pernambucano  Zezinho do Tracunhaém. As obras maiores ficam espalhadas ao

redor das sete unidades que compõem o conjunto do museu. Entre as peças importantes tem oito do Mestre Vitalino. Seu nome de batismo é Vitalino Pereira dos Santos, (1909-1963), foi talvez o mais importante artesão, ceramista popular da História do Barro em nosso país. O Museu recebeu de doação um acervo de peças de Manoel Eudócio Rodrigues, considerado o último discípulo do Mestre Vitalino, era do Alto do Moura, em Pernambuco, nasceu em 1931 e faleceu em 2016, aos 85 anos, porém seu legado permanece firme e forte com três dos seus nove filhos. José Silvano, Luiz Carlos e Ademilson Rodrigues são os responsáveis por manterem vivo o legado do patriarca. Por falar em Pernambuco é bom salientar que é um dos estados mais ricos em arte popular e seus governos através dos anos vêm promovendo com força esta atividade criativa. 

O museu tem várias peças de Zezinho de Tracunhaém batizado José Joaquim da Silva, fez da arte santeira a sua expressão maior, tornando-se um dos mais importantes artistas populares do Brasil, fonte de inspiração e mestre de dezenas de artesãos, tendo obra escultórica encontrada em acervos de igrejas, museus e coleções particulares,

como o Museu de Arte Contemporânea (PE), Museu Casa do Pontal (RJ) e Palácio do Planalto. Nasceu no dia 5 de julho de 1939, no município de Vitória de Santo Antão. E faleceu em 2019. 

Pintura de Gildásio Jardim , de
Padre Paraíso, Minas Gerais.

Já o Mestre Fernandes Rodrigues, batizado Fernandes Rodrigues de Oliveira é um grande observador e estudioso da anatomia humana. Tem esculturas, bustos e monumentos, inspirados na cultura nordestina, sua história e sua gente – anônimos vaqueiros e políticos. Sua arte pode ser encontrada tanto em amplas praças públicas como em acervos de colecionadores em todo o Brasil. Fernandes Rodrigues de Oliveira, o mestre Fernandes Rodrigues, nasceu no Engenho Cacimbas, zona rural do município de Vitória de Santo Antão, Mata Sul do Estado, no dia 11 de julho de 1963. Costuma dizer que a vida o encaminhou para a arte e que nada mais fez do que atender ao chamado do barro. É um artista que domina grandes formatos, em trabalho que surpreende pelo realismo, expressão. Como destaque o museu conta com dez obras do artista visual Juraci Dórea, que dá nome ao museu, inclusive uma escultura abstrata feita de couro cru e varas, que fica a céu aberto. Possui  ainda obras do Mestre Espedito Seleiro, nasceu em 29 de outubro de 1939 em Arneiroz, cidade do Sertão dos Inhamuns, Espedito Seleiro representa não apenas a cultura e a criatividade cearense, mas também era figura importante do Nordeste brasileiro. Mestre Espedito Seleiro está vivo e celebrou 85 anos em outubro de 2024, sendo reconhecido como um patrimônio cultural 

Obra de Irinéia, da União dos
Palmares, Alagoas.

brasileiro. Ele é um renomado artesão de couro, famoso por transformar a arte em couro em peças que celebram a cultura nordestina, e recebeu diversas homenagens em vida, incluindo a Ordem do Mérito Cultural, em 2025. Obras de Maria Geralda, do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais e  de João das Alagoas, de Capela, Alagoas, autor de um boi imenso de cerâmica que fica na orla de Maceió. Ele tem uma técnica diferenciada porque  borda com o barro histórias de casamentos, bumba-meu-boi, nas superfícies externas de suas esculturas, em alto e baixo relevo. É um dos mais importantes escultores populares da atualidade no Brasil. Obras de Sebastião Wilson Ferreira de Amorim, conhecido por Mestre Tiago Amorim, exerce outras funções dentro do campo artístico, como pintor e desenhista. Apesar de ter nascido no município de Limoeiro, no dia 09 de janeiro de 1943, foi em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, que ele desenvolveu como artesão.  Suas cerâmicas são muito apreciadas em todo o país. As máscaras de José de Tertulina, conhecido como Zé Crente é coveiro, pedreiro e escultor em madeira. Vive na Ilha do Ferro, em Alagoas, seu trabalho 

une tradição e criatividade na produção de peças multicoloridas que são a cara do Brasil, também estão presentes no museu baiano. Tem ainda obras de vários outros artistas/artesãos como de Irailda, João Carlos e Veronice; Dona Irinéia, quilombola de Muquém de União dos Palmares, em Alagoas. Seu nome é Irinéia Rosa Nunes da Silva e é uma ceramista popular reconhecida em todo o país e faz parte de um grupo de remanescentes quilombolas do povoado de Muquém, município de União dos Palmares, zona da Mata alagoana, que fica próxima à Serra da Barriga, terra do famoso quilombo dos Palmares, do quilombo Zumbi. Ela nasceu em 1949 e ainda produz;  de Gerard, de Barra do Rio Grande que cria esculturas de santos católicos e orixás, ricamente ornamentadas e com vestes volumosas, de acordo com a tradição barroca. Com uma paleta de cores bem definida e suave, as esculturas são majestosas, independentemente do tamanho. Obras de Acácia e Cotrim, de Rio de Contas; Emanuel, Rosalvo, João,

 Miro, Almerentino e do ceramista baiano Taurino Silva, mais conhecido como Zé das Bonecas, gosta de desafios. Convivendo com muitos artesãos em Maragogipinho, ele está procurando sempre criar coisas novas. Foi assim que nasceu sua peça mais famosa a Baiana com Tabuleiro, que hoje integra o acervo de arte popular brasileira do Museu do Folclore Edison Carneiro, instalado no Rio de Janeiro. Ainda tem muitas outras peças, algumas ainda sem identificação de artistas anônimos que vivem em seus rincões criando e se expressando como forma de se comunicar. Informou ainda Aécio Pamponet que a fazenda Garajau onde fica o Museu de Arte Popular Juraci Dórea possui instalações de hospedagem para pequenos grupos e que maiores informações podem ser obtidas através do e-mail aeciopamponet@gmail.com ou pelo telefone 71 988832441.

                              BAHIA TERRA DO JÁ TEVE

Obra de Mestre Pintor,
Petrolina, Pernambuco.

A nossa Cidade tinha o seu Museu de Arte Popular que foi inaugurado em 1963 no conjunto arquitetônico do Solar do Unhão, construído no século XVII, com a exposição Nordeste sob o comando da arquiteta Lina Bo Bardi. Segundo escreveu em 2021 a arquiteta e design Beatriz Sallowicz “A mostra temporária e única aberta ao público contou com empréstimos de diferentes coleções particulares e acervos museológicos para apresentar uma extensa reunião de objetos variados. A exposição que a gosto da arquiteta teria sido intitulada Civilização Nordeste acusou posturas de classe pouco relacionadas com o conhecimento do que qualificou como a “atitude progressiva da cultura popular ligada a problemas reais”. 

Obra de Emanuel, santeiro
de Maragogipinho, Bahia.
  • Vejam que esta mulher extraordinária coordenou a restauração do Solar do Unhão e criou ouseu de Arte Moderna da Bahia, e ao lado o Museu de Arte Popular. Ela mesma viajou por vários municípios baianos e de outros estados recolhendo peças de arte popular como ex-votos, carrancas, ferramentas, símbolos religiosos, esculturas de barro, madeira e ferro, e muitos outras manifestações culturais, e ao lado do Museu de Arte Moderna dedicou um amplo espaço para o Museu de Arte Popular. Mas, veio um “iluminado” no governo de Antônio Lomanto Júnior  resolveu acabar com o museu, e o seu acervo ficou durante anos perdido em algum depósito empoeirado. Atualmente transformaram o museu na Coleção Lina Bo Bardi e colocaram no Solar do Ferrão, no Pelourinho. Veja que de lá para cá não evoluiu, ao contrário se transformou numa coleção. Sabemos que o museu é um ser vivo, dinâmico que precisa constantemente de aumentar o seu acervo preservando a memória cultural e promovendo mostras e outros eventos para atrair e educar o seu público.  

Às vésperas de completar setenta e seis anos de existência outro “iluminado” do Governo do Estado na administração de Rui Costa (PT) decidiu em dezembro de 2015 extinguir o Instituto Mauá que era um desses órgãos de excelência que funcionava num majestoso prédio localizado no coração do Porto da Barra, um local estratégico para visitação pública. Lá ficavam expostas peças dos principais artesãos da Bahia e a entidade era um polo incentivador do artesanato com ações em todos os municípios baianos . O Instituto Mauá foi criado através o decreto-lei nº 11.275, em 20 de março de 1939 e era definido em seu portal na internet como “instituição de legitimidade na valorização de importante patrimônio artístico e cultural do Estado.”

Seguindo ao contrário dos outros estados, a Bahia vive estagnada neste setor. Basta citar o caso de Pernambuco, um estado pequeno, mas que tem suas tradições culturais, especialmente a cultura popular como um dos suportes mais importantes do seu desenvolvimento turístico e cultural atraindo milhares de visitantes. Aqui se limita a fazer uma pequena feira anual em Maragogipinho e os artesãos de lá não recebem quase apoio. Basta dizer que a Feira Nacional de Negócios do Artesanato – Fenearte, de Pernambuco,  é a maior e mais importante do Brasil. Calcula-se que a Bahia tem cerca de onze mil artesãos e a maioria deles com alguma relevância e foram cadastrados pelos técnicos do ex-Instituto Mauá.

Peças do ex-Museu de Arte Popular da Bahia
agora Coleção Lina Bo Bardi.
O Instituto Mauá promovia a arte popular
em todo o Estado da Bahia e realizava
feiras para comercializar suas obras.
Espedito Seleiro, de Nova
Olinda, Ceará.