Nada de eleição, só cana, forró e copa

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Por Victor Pinto

Na última semana participei de dois eventos distintos, mas que convergiram para a mesma pergunta: como está o cenário eleitoral de 2026? O primeiro foi o café da manhã em comemoração aos seis anos do selo Made In Bahia, promovido pelo Business Bahia. O segundo, o The Board, encontro organizado pelo advogado Tiago Ayres. Em ambos, empresários, profissionais liberais e lideranças buscaram entender o que vem pela frente.

Minha avaliação foi simples e tentei traduzir que estamos diante de uma eleição profundamente polarizada, tanto no plano nacional quanto na Bahia.

A polarização, muitas vezes tratada apenas como um problema, também atende a uma lógica estratégica. Os polos se conhecem, sabem onde atacam, onde se defendem e, principalmente, sabem o risco que representa o surgimento de uma terceira via competitiva. Não existe necessariamente um acordo formal, mas há uma dinâmica política que acaba favorecendo a manutenção desse ambiente binário. Quanto mais a disputa se concentra em dois campos, menores são as chances de uma surpresa eleitoral.

Isso ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais visível do voto útil antecipado. Tradicionalmente associado ao segundo turno, ele já começa a aparecer no primeiro. Pesquisas recentes mostram uma distância expressiva entre os dois primeiros colocados e os demais concorrentes. O eleitor passa a fazer contas antes mesmo do início oficial da campanha.

Mas seria um erro decretar o resultado da eleição baiana neste momento. Jerônimo Rodrigues entra na disputa com vantagens evidentes. É governador, possui uma base ampla de prefeitos e conta com a força da máquina administrativa. Ainda assim, há fatores que recomendam cautela. Um deles é o desempenho do presidente Lula no Nordeste. O cientista político Andrei Roman chamou atenção para esse ponto durante evento promovido pela Associação Comercial da Bahia e pelo Grupo A TARDE. Qualquer oscilação na aprovação presidencial inevitavelmente repercute nos estados onde o lulismo sempre foi um ativo eleitoral relevante. E mesmo relativamente fora do holofote nos últimos anos e corrigindo erros do passado, ACM Neto ainda tem um nome competitivo na disputa.

Apesar disso, a verdade é que a eleição ainda não começou para a maioria dos eleitores. Hoje, boa parte da população está mais interessada em saber qual será a programação do São João promovido pelas prefeituras, qual marca de licor será servida nas festas e qual a cana vai tá na mesa, se Neymar estará em condições de disputar a Copa do Mundo e se o Brasil terá chances de levantar a taça. A política continua distante do cotidiano da maioria.

Por isso, acredito que viveremos ainda algumas semanas de “silêncio produtivo”, mesmo com os eventos regionais nos fins de semana. Os grupos políticos continuarão se movimentando, negociando alianças com lideranças locais e produzindo fatos para consumo interno. Mas o eleitor comum seguirá observando de longe.

A atenção real da sociedade tende a surgir apenas após as convenções partidárias. E, muito provavelmente, será a partir de agosto que a massa eleitoral perceberá que chegou a hora de escolher seus representantes. Até lá, muito do que parece decisivo será apenas movimento de bastidor. Ainda faltam 110 dias para as eleições. A conferir.